Percorrer
Cronologia
Da I República à Constituição de 1976, e o que veio depois: 421 datas, 189 delas da história das mulheres.
Uma sigla que não conhece — PIDE, MUD, COPCON? Está no glossário.
1900–1926
A I República
Dos primeiros grupos feministas, ainda na Monarquia, à implantação da República e ao golpe militar: as leis da família, o divórcio, o voto negado às mulheres.
1894
1894· mulheres
Fundação da Associação de Socorros Mútuos Feminina do Pessoal Jornaleiro de Tabacos
Na fábrica de tabacos de Xabregas, no Beato, a mão de obra era sobretudo feminina: um inquérito de 1887 contou 74,9% de mulheres entre os operários.1 As operárias recorriam às associações mutualistas femininas, e em 1894 foi fundada a Associação de Socorros Mútuos Feminina do Pessoal Jornaleiro de Tabacos.1 Só em 1927 a companhia abriria junto à fábrica uma maternidade para as tabaqueiras.1
1905

1905· mulheres
Ana de Castro Osório publica o primeiro manifesto feminista português
Ana de Castro Osório, pioneira da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, publica «Às Mulheres Portuguesas», considerado o primeiro manifesto feminista português.21
1906

1906· mulheres
Cinco médicas aderem ao movimento pacifista «La Paix et le Désarmement par les Femmes»
Carolina Beatriz Ângelo e outras quatro médicas — Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Emília Patacho e Maria do Carmo Lopes — aderem ao comité português da associação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes; Carolina entra para a direção.12
Carolina Beatriz Ângelo · Adelaide Cabete · Domitila de Carvalho

1906· mulheres
Criação do Liceu Maria Pia, o primeiro liceu feminino
Por decreto régio de 1906 é instituído em Lisboa o Liceu Maria Pia, o primeiro liceu feminino do país.1 O decreto que aprova a sua organização é de 31 de janeiro e sai no «Diário do Governo» de 23 de fevereiro.3 Domitila de Carvalho foi a primeira reitora e ensinou lá Matemática.4 É o antepassado do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, que só em 1933 teve edifício próprio.1
Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho (herdeiro do Liceu Maria Pia, o primeiro liceu feminino) · Domitila de Carvalho
1907

1907· mulheres
Fundação do Grupo Português de Estudos Feministas
Um grupo de mulheres instruídas — intelectuais, médicas, escritoras e sobretudo professoras — funda o Grupo Português de Estudos Feministas, para difundir a emancipação feminina, criar uma biblioteca e publicar estudos.1 Dirigia-o Ana de Castro Osório; Carolina Beatriz Ângelo participou na fundação, e eram também membros Maria Veleda e as médicas Sofia Quintino e Adelaide Cabete.34 O Grupo dava cursos noturnos para mulheres analfabetas no Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa.2 Teve vida curta, mas foi em torno dele que nasceu a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.1
Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa — aulas noturnas para mulheres (Calçada de Arroios) · Ana de Castro Osório · Maria Veleda · Carolina Beatriz Ângelo · Adelaide Cabete · Sofia Quintino

1907· mulheres
Revista «Alma Feminina» (1907-1908), com Virgínia Quaresma
Sai a revista ilustrada «Alma Feminina», dirigida pela poetisa Albertina Paraíso, com Virgínia Quaresma como redatora principal e secretária da redação.2 Foi nela que Virgínia Quaresma pôs, pela primeira vez em Portugal, uma operária em destaque.1 O número de 31 de outubro de 1907 deu a capa a Carolina Beatriz Ângelo, «excepcionalmente intelligente», dizia a legenda.3
1908

1908· mulheres
Sufragistas na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas
Em 1908 a médica Carolina Beatriz Ângelo junta-se à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, onde militavam também Ana de Castro Osório e Adelaide Cabete.12 A Liga defendia o sufrágio feminino, mas dava ainda mais peso à reforma do Código Civil: o divórcio, a proteção dos filhos e a administração dos bens do casal.2 Lançada em agosto desse ano, só se constituiu legalmente em fevereiro de 1909.3
Adelaide Cabete · Carolina Beatriz Ângelo · Ana de Castro Osório
1909

fevereiro de 1909· mulheres
Fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas
Lançada em agosto de 1908 por Ana de Castro Osório e António José de Almeida, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas constitui-se legalmente em fevereiro de 1909, como associação ao mesmo tempo política e feminista, para educar as mulheres nos princípios democráticos e rever as leis que lhes diziam respeito.14 Ficou com sede no 2.º andar do n.º 6 da Rua dos Castelinhos.3 Nos corpos gerentes estavam também as médicas Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete; Maria Veleda, sócia fundadora, presidiria à Liga a partir de 1911.45 Em abril sai o n.º 1 do seu órgão, «A Mulher e a Criança».2
Sede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (Rua dos Castelinhos, 6) · Ana de Castro Osório · Adelaide Cabete · Maria Veleda · Carolina Beatriz Ângelo
RTP Arquivos: Ana de Castro Osório
- 1Almanaque Republicano (blogue): Liga Republicana das Mulheres Portuguesas
- 2Almanaque Republicano (blogue): A Mulher e a Criança. Órgão da Liga Republicana das Mulheres (ficha descritiva)
- 3Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa): A feminista e republicana Ana de Castro Osório
- 4Wikipédia (pt)
- 5Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa): Maria Veleda na urbanização das mulheres
1910

5 de outubro de 1910· mulheres
Implantação da República em Lisboa
A revolução de 5 de Outubro de 1910 põe fim à Monarquia, e a República é proclamada da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa.284 As médicas Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete tinham confecionado as bandeiras verde-rubras hasteadas nesse dia.365 Um postal da época celebra Amélia Santos como a «heroína da Rotunda».4
Carolina Beatriz Ângelo · Adelaide Cabete
- 1Assembleia da República: O sufrágio feminino no parlamento na 1.ª República
- 2Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – Análise Social
- 3Assembleia da República: Exposição «Mulheres que mudaram a vida política em Portugal»
- 4Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 5Isabel Lousada / Universidade Católica Portuguesa
- 6Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa)
- 7FCSH+Lisboa (NOVA FCSH)
- 8Sinal Aberto

26 de outubro de 1910· mulheres
Assembleia da Liga aprova o caderno reivindicativo feminista
Três semanas depois da revolução, a assembleia geral da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, dirigida por Ana de Castro Osório, aprecia a representação de reivindicações feministas a entregar ao Governo Provisório; Virgínia Quaresma é uma das oradoras.124 Por proposta de Maria Veleda, a assembleia agradece ao jornal «A Capital» ter aberto as colunas à propaganda da Liga.2 No dia seguinte, à uma da tarde, uma comissão de sócias entrega a representação ao presidente do Governo Provisório.2

27 de outubro de 1910· mulheres
A Liga pede ao Governo Provisório o divórcio, a revisão do Código Civil e o voto
A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas entrega ao Governo Provisório uma representação em que pede a revisão do Código Civil, a lei do divórcio e o voto das mulheres.15 Achava justo o sufrágio universal, mas, «para de modo algum entravar o governo da República», pedia por agora o voto só para as comerciantes, industriais, funcionárias, diplomadas, escritoras e administradoras de fortuna.3 Dirigiam então a Liga Ana de Castro Osório e, como vice-presidente, Carolina Beatriz Ângelo.135

3 de novembro de 1910· mulheres
Governo Provisório decreta a Lei do Divórcio
Menos de um mês depois da revolução, o Governo Provisório publica o decreto com força de lei de 3 de novembro de 1910, que institui o divórcio, litigioso e por mútuo consentimento, e cria um novo estado civil, o de «divorciado».12 Portugal torna-se o segundo país europeu, depois da Noruega, a admitir o divórcio por mútuo consentimento, e a lei trata o adultério do marido e o da mulher nos mesmos termos.13 A feminista Ana de Castro Osório colaborou com o ministro da Justiça, Afonso Costa, na preparação da lei, pela qual a jornalista Virgínia Quaresma fizera campanha em 1909.57
Ana de Castro Osório · Virgínia Quaresma
- 1Assembleia da República
- 2Assembleia da República – Biblioteca Passos Manuel
- 3Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – Análise Social
- 4Wikipédia (pt): Primeira República Portuguesa
- 5Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa): A feminista e republicana Ana de Castro Osório
- 6Wikipédia (pt): Ana de Castro Osório
- 7Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa): A primeira jornalista de reportagem portuguesa numa rua de Caselas
25 de dezembro de 1910· mulheres
Leis da Família: casamento civil e igualdade na sociedade conjugal
Pouco depois da lei do divórcio, o Ministério da Justiça promulga as chamadas Leis da Família: o decreto n.º 1, sobre o casamento como contrato civil, e o n.º 2, de proteção aos filhos.12 «A sociedade conjugal baseia-se na liberdade e na igualdade», diz o artigo 39.º do primeiro.1 Acaba o dever de obediência da mulher ao marido, a mulher autora passa a poder publicar livremente e a mãe solteira ganha meios para investigar a paternidade.1
1911

3 de fevereiro de 1911· mulheres
Delegação de mulheres leva a Teófilo Braga a proposta de voto feminino
A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas leva a Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório, nova representação a pedir o voto para as mulheres «que pela sua posição especial devem poder exercê-lo»: as contribuintes, as que tinham profissão científica ou literária, as independentes moral e economicamente.3 Encabeçava as assinaturas a médica Carolina Beatriz Ângelo, seguida de Ana de Castro Osório, Adelaide da Cunha Barradas, Constança Dias, Joana de Almeida Nogueira, Maria Laura Monteiro Torres, Rita Dantas Machado e Virgínia da Fonseca.32 Teófilo Braga comprometeu-se a apresentá-la na primeira reunião de ministros.3

14 de março de 1911· mulheres
Primeira lei eleitoral da República não exclui as mulheres
Publicada a 14 de março de 1911 e da autoria do ministro do Interior, António José de Almeida, a «Lei eleitoral para servir na eleição de deputados à Assembleia Constituinte» dá o voto aos portugueses maiores de 21 anos que saibam ler e escrever ou sejam chefes de família — sem dizer que tinham de ser homens.14 As feministas viram nela primeiro uma desilusão, por não consagrar o voto das mulheres; depois perceberam que também não o negava, e Carolina Beatriz Ângelo pediu para ser recenseada.4 A lei foi alterada por decreto de 5 de abril e completada por decretos de 20 de abril e de 11, 12 e 13 de maio de 1911.13

1 de abril de 1911· mulheres
Carolina Beatriz Ângelo pede para ser recenseada
Viúva e chefe de família, com uma filha menor a seu cargo, Carolina Beatriz Ângelo requer à comissão de recenseamento do 2.º Bairro de Lisboa a inscrição nos cadernos eleitorais, num requerimento datado de 1 de abril de 1911.41 A comissão declara-se incompetente e remete o pedido ao ministro do Interior, António José de Almeida, que o indefere.43 Carolina recorre então para o tribunal.3

28 de abril de 1911· mulheres
Sentença manda recensear Carolina Beatriz Ângelo
A 24 de abril, Carolina Beatriz Ângelo entrega no Tribunal da Boa-Hora o recurso contra a exclusão do recenseamento; o processo calha ao juiz da 1.ª Vara Cível, João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório.62 Na sentença de 28 de abril, decide que a lei, ao falar de «portugueses», abrange as mulheres, e manda incluir Carolina no recenseamento: «onde a lei não distingue não pode o julgador distinguir».6 «A Capital» de 29 de abril publica a sentença e chama-lhe «uma vitória para o feminismo nacional».1
Tribunal da Boa-Hora · Carolina Beatriz Ângelo · Ana de Castro Osório

12 de maio de 1911· mulheres
Fundada a Associação de Propaganda Feminista
As divergências na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas sobre quem devia votar — só as mulheres instruídas e com profissão, ou todas, sem restrições — levam à fundação da Associação de Propaganda Feminista, a 12 de maio de 1911.12 Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo estavam entre as defensoras do voto restrito; Maria Veleda, que nesse ano passou a presidir à Liga, defendia o voto sem restrições.16 A nova associação nasceu no consultório de Carolina Beatriz Ângelo, que a presidiu.74
Consultório de Carolina Beatriz Ângelo (Rua Nova do Almada, 84) · Ana de Castro Osório · Carolina Beatriz Ângelo · Maria Veleda
- 1Assembleia da República: O sufrágio feminino no parlamento na 1.ª República
- 2Assembleia da República: O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021)
- 3Wikipédia (pt)
- 4Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa): A rua lisboeta da primeira mulher que votou em Portugal
- 5Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa): A feminista e republicana Ana de Castro Osório
- 6Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa): Maria Veleda na urbanização das mulheres
- 7Historia Constitucional (revista eletrónica)

28 de maio de 1911· mulheres
Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal
Domingo de manhã, a médica Carolina Beatriz Ângelo vota nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, na assembleia de São Jorge de Arroios, instalada no Clube Estefânia: é a primeira mulher a votar em Portugal.87 Viúva e chefe de família, estava inscrita como eleitora n.º 2513 por ordem de um juiz, porque a lei eleitoral não excluía expressamente as mulheres.4 O presidente da mesa ainda consultou os vogais antes de aceitar a lista; ela votou sob aplausos, e Ana de Castro Osório acompanhou-a.418 Em 1911, só a Finlândia dava o voto às mulheres na Europa, e a notícia correu o continente.1
Clube Estefânia — assembleia de voto de São Jorge de Arroios (1911) · Carolina Beatriz Ângelo · Ana de Castro Osório
- 1Assembleia da República: O sufrágio feminino no parlamento na 1.ª República
- 2Assembleia da República: Exposição «Mulheres que mudaram a vida política em Portugal»
- 3Ordem dos Advogados
- 4Assembleia da República: Carolina Beatriz Ângelo
- 5Isabel Lousada / Universidade Católica Portuguesa
- 6Assembleia da República: O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021)
- 7Mensagem de Lisboa
- 8Historia Constitucional (revista eletrónica)

24–27 de julho de 1911· mulheres
Petição da Associação de Propaganda Feminista à Constituinte
Dá entrada na Assembleia Nacional Constituinte uma petição da Associação de Propaganda Feminista a pedir o sufrágio feminino.1 Aprovada em assembleia geral a 10 de julho e encabeçada por Carolina Beatriz Ângelo, que dirigia a associação desde a partida de Ana de Castro Osório para o Brasil, pedia o voto para as diplomadas, as chefes de família e as comerciantes que soubessem ler e escrever.3 A 26 de julho é eliminado do projeto de Constituição o artigo sobre os direitos civis e políticos da mulher; a 27, Bernardino Machado diz que a questão «não é constitucional».12
Palácio de São Bento · Ana de Castro Osório · Carolina Beatriz Ângelo
26 de julho de 1911· mulheres
Constituinte elimina artigo sobre os direitos civis e políticos da mulher
Na sessão de 26 de julho de 1911, dois dias depois de dar entrada uma petição da Associação de Propaganda Feminista, a Assembleia Nacional Constituinte elimina do projeto de Constituição o artigo relativo aos direitos civis e políticos da mulher.12 O deputado António Macieira opôs-se a prometer à mulher uma «educação progressiva» para o exercício da capacidade política e civil — a República, lembrou, já lhe dera o divórcio e a livre publicação dos seus escritos —, e Faustino da Fonseca defendeu que a República «não deve negar à mulher o direito de voto».23 No dia seguinte, Bernardino Machado declarou que a matéria não era constitucional e devia ficar para lei ordinária.1
agosto de 1911
Aprovada a primeira Constituição republicana
A Assembleia Nacional Constituinte, que funcionou de 15 de junho a 25 de agosto de 1911, aprova a Constituição de 21 de agosto, a primeira da República.12 O texto não consagrou o voto das mulheres — o artigo sobre os seus direitos fora eliminado do projeto — e remeteu a organização das eleições para uma lei especial.3 O Congresso da República, formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, começa a funcionar a 26 de agosto.1

3 de outubro de 1911· mulheres
Morte de Carolina Beatriz Ângelo
Aos 33 anos, Carolina Beatriz Ângelo sente-se mal no elétrico, ao voltar de uma reunião de feministas a que presidira, e morre na escada de casa.1 Livre-pensadora, deixara escrito que queria um enterro civil e que a família, sobretudo a filha, não usasse luto.41 Adelaide Cabete convoca as mulheres para o funeral.1
1912

junho de 1912· mulheres
Sai «A Mulher Portuguesa», revista da Associação de Propaganda Feminista
A Associação de Propaganda Feminista lança a revista «A Mulher Portuguesa», de que sairão cinco números, de junho de 1912 a fevereiro de 1913.1 O n.º 1 publica a carta de Ana de Castro Osório, escrita em São Paulo e lida na sessão de 12 de maio de 1912, no primeiro aniversário da associação: «A nossa Associação formou-se em luta».2 Nela acusava a Constituinte de ter posto de lado o voto das mulheres, «considerando-a inoportuna».4

3–9 de julho de 1912· mulheres
Socialistas e republicanas pedem o voto ao Senado
A 3 de julho de 1912, em plena discussão do Código Eleitoral, o Senado recebe uma representação da União das Mulheres Socialistas contra a recusa do voto às mulheres, a lembrar as promessas que os republicanos tinham feito na oposição.1 A 9, chega uma petição da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, então presidida por Maria Veleda.12 O senador João de Freitas responde que a Liga reúne «apenas alguns centos de mulheres» e que a grande massa das portuguesas é indiferente ao voto.1
9 de julho de 1912· mulheres
Liga entrega petição pelo voto das mulheres no Senado
Em plena discussão do Código Eleitoral, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas entrega uma petição para que a lei consagre o voto das mulheres, dias depois de o Senado ter recebido uma representação da União das Mulheres Socialistas.1 No debate, vários senadores opuseram-se, alegando a influência da Igreja sobre as mulheres; outros só aceitavam o voto das diplomadas.1 A 2 de julho, o Senado chegara a aprovar um aditamento que dava o voto às mulheres maiores de 25 anos com curso superior, secundário ou especial — mas a Câmara dos Deputados não o seguiu, e o Código Eleitoral de 1913 reservou o voto aos homens.2
1913

3 de julho de 1913· mulheres
Código Eleitoral reserva o voto aos homens
A Lei n.º 3, de 3 de julho de 1913, define como eleitores apenas os cidadãos «do sexo masculino» maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever, fechando a brecha legal por onde Carolina Beatriz Ângelo votara em 1911.17 O Senado chegara a aprovar o voto das diplomadas, mas a Câmara dos Deputados recusou-o.8 As mulheres esperariam quase vinte anos por um voto, ainda assim restrito.1
Palácio de São Bento · Carolina Beatriz Ângelo
- 1Assembleia da República: O sufrágio feminino no parlamento na 1.ª República
- 2Ordem dos Advogados
- 3Assembleia da República: O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021)
- 4Assembleia da República: Carolina Beatriz Ângelo
- 5Biblioteca Nacional de Portugal: Primeira República — Sinopse da Legislação Eleitoral (Materiais para a História Eleitoral e Parlamentar Portuguesa, 1820-1926)
- 6Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa)
- 7Biblioteca Nacional de Portugal: Materiais para a História Eleitoral e Parlamentar Portuguesa, 1820-1926 — Primeira República: roteiro de fontes
- 8Historia Constitucional (revista eletrónica)

14 de novembro de 1913· mulheres
Regina Quintanilha, a primeira mulher a advogar em Portugal
Com autorização especial do Supremo Tribunal de Justiça, Regina Quintanilha estreia-se como advogada no Tribunal da Boa-Hora, a defender rés — a primeira mulher a advogar em Portugal.31 O jornal «A Luta» escreveu que usou da palavra «com muito brilhantismo».1 A advocacia só se abriria por lei às mulheres em 1918, com o Decreto n.º 4676.3
1914

1914· mulheres
Fundação do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas
Por iniciativa da médica Adelaide Cabete, que o presidirá durante mais de vinte anos, nasce o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.12 A sede foi durante 32 anos o consultório dela, no 1.º andar do n.º 13 da Praça dos Restauradores.1 Em novembro sai o n.º 1 do «Boletim Oficial», dirigido por Maria Clara Correia Alves.3 Seria a mais importante e duradoura associação feminista portuguesa da primeira metade do século XX.15
Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas · Adelaide Cabete · Maria Clara Correia Alves
1915

agosto de 1915· mulheres
Greve das costureiras da Ramiro Leão & C.ª
Chamadas pela associação de classe das Costureiras e Ajuntadeiras, com sede na Rua do Benformoso, mais de cem operárias da fábrica da Ramiro Leão & C.ª, na colina de Santana, vão a uma reunião do sindicato.1 Três delas — Miquelina Furtado, Laurinda Pinheiro e Lúcia Martins — são despedidas por integrarem uma comissão pelas 8 horas de trabalho, e as colegas fazem greve à porta da fábrica, até serem dispersas por cavalaria e infantaria da GNR.1 Doze operárias demitem-se em solidariedade com as despedidas.1
Sede da associação de classe das Costureiras e Ajuntadeiras (Rua do Benformoso)
1916

20 de março de 1916· mulheres
Criação da Cruzada das Mulheres Portuguesas
Um grupo de mulheres presidido por Elzira Dantas Machado, mulher do Presidente Bernardino Machado, cria a Cruzada das Mulheres Portuguesas, para prestar assistência moral e material a quem dela precisasse por causa da guerra com a Alemanha.12 Nasceu da Comissão Feminina «Pela Pátria», de que Ana de Castro Osório fora fundadora.32 Em 1917 organizou cursos de enfermagem para os hospitais militares do país e da frente europeia, dirigidos de início pela médica Sofia Quintino.12 A jornalista Virgínia Quaresma pôs ao serviço da Cruzada a agência noticiosa que dirigia em Lisboa.4
1917
1917· mulheres
Lei abole as restrições civis em razão do sexo
Segundo a jurista feminista Elina Guimarães, as restrições do Código Civil que impediam as mulheres de prestar fiança, ser testemunhas instrumentárias, tutoras ou vogais do conselho de família foram abolidas por uma lei de 1917, ratificada em 1918, e eliminadas do texto do Código em 1930.1 As Leis da Família de 1910 tinham-nas deixado de pé.1

janeiro de 1917· mulheres
Sai a revista «Alma Feminina» do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas
O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas lança o boletim «Alma Feminina», que se publicará até maio de 1946.1 O primeiro número, de janeiro de 1917, é dirigido por Maria Clara Correia Alves, que já dirigira o «Boletim Oficial» do Conselho.12 Entre as diretoras seguintes estiveram Adelaide Cabete e, em 1929-1930, a jurista Elina Guimarães.32
Maria Clara Correia Alves · Adelaide Cabete · Elina Guimarães

1 de agosto de 1917· mulheres
Morte de Angelina Vidal
A propagandista republicana e socialista Angelina Vidal morre quase na miséria no n.º 41 da Rua de São Gens, na Graça.1 Na véspera fora-lhe concedida a pensão de sangue pela morte do marido, médico da Armada, que a monarquia lhe recusara por ser «inimiga das instituições».1 Em 1924, Lisboa daria o nome dela a uma rua.1
Casa onde morreu Angelina Vidal (Rua de São Gens, 41) · Angelina Vidal
1918

19 de julho de 1918· mulheres
Decreto abre a advocacia e outras funções públicas às mulheres
O Decreto n.º 4676, de 19 de julho de 1918, do governo de Sidónio Pais, permite às mulheres formadas em Direito exercer a advocacia e as funções de ajudante de notário e de conservador, e abre-lhes lugares nas repartições públicas.21 Ressalva, porém, que há «funções de direção e de iniciativa» reservadas ao homem, e não lhes dá o voto.23 Regina Quintanilha advogava desde 1913, com autorização especial; Aurora de Castro e Gouveia aproveitou o decreto para advogar e tornar-se a primeira notária do país.23
1919
23 de fevereiro de 1919
Sai o primeiro número do jornal operário «A Batalha»
Sai o primeiro número de «A Batalha», «porta-voz da organização operária portuguesa», propriedade da União Operária Nacional; a partir de setembro de 1919 será o órgão da Confederação Geral do Trabalho.1 Com a Ditadura Militar, a sede é destruída e saqueada e a publicação interrompida; voltaria a sair depois do 25 de Abril, pela mão de Emídio Santana.1
setembro de 1919
Fundada a Confederação Geral do Trabalho
Num período de grande agitação social, sob o impacto da Revolução Russa e do fim da I Guerra Mundial, é fundada a Confederação Geral do Trabalho (CGT), central operária anarcossindicalista; o jornal «A Batalha» passa a ser o seu órgão.1 Durante a República e a Ditadura Militar, a CGT liderará muitas lutas operárias e verá muitos militantes presos e deportados.1
1921
6 de março de 1921
Fundação do Partido Comunista Português
Numa reunião na sede da Associação dos Empregados de Escritório, em Lisboa, é fundado o Partido Comunista Português, sob o impacto da Revolução Russa de 1917.1 Ilegalizado depois do golpe de 28 de maio de 1926, viverá na clandestinidade até ao 25 de Abril de 1974.1
15 de outubro de 1921
Publicado o primeiro número da «Seara Nova»
Sai o primeiro número da «Seara Nova», revista de intelectuais «alheados dos partidos políticos mas não da vida política», que se propunham impor as reformas necessárias à vida nacional, acima das clientelas e das oligarquias.12 Entre os «seareiros» estavam Jaime Cortesão, Raul Proença, António Sérgio e Aquilino Ribeiro.1 Atingida pela censura, interrompeu a circulação entre agosto de 1926 e abril de 1927; quando voltou, boa parte da direção e dos colaboradores estava presa ou exilada.2
1924

4–9 de maio de 1924· mulheres
I Congresso Feminista e de Educação
Para celebrar os seus dez anos, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Adelaide Cabete, organiza o primeiro congresso feminista do país, no salão nobre da Associação de Socorros Mútuos dos Empregados no Comércio de Lisboa; inaugura-o o Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes.124 A notária Aurora de Castro e Gouveia reclama a igualdade política plena e o voto; entre as oradoras estão também Deolinda Lopes Vieira, Maria O'Neill, Angélica Viana Porto e Regina Quintanilha.34 Saíram dele propostas muito avançadas para a época: um mês de descanso antes do parto para a mulher trabalhadora, educação sexual nas escolas, salário igual para trabalho igual, igualdade jurídica no casal e o voto das mulheres.4
Paço de São Cristóvão / Palácio Vagos — Associação de Socorros Mútuos de Empregados no Comércio de Lisboa · Adelaide Cabete · Aurora de Castro e Gouveia · Maria O'Neill · Angélica Viana Porto · Deolinda Lopes Vieira · Regina Quintanilha

17 de outubro de 1924· mulheres
Lisboa dá a uma rua o nome de Angelina Vidal
Por edital de 17 de outubro de 1924, o antigo Caminho do Forno do Tijolo passa a chamar-se Rua Angelina Vidal, com a legenda «Ilustre Conferencista e Propagandista da Emancipação Social».1 Foi um dos 14 topónimos femininos atribuídos pela Lisboa republicana, entre 1910 e 1926.2 Angelina Vidal morrera em 1917, quase na miséria, na Graça.1
1926–1933
A Ditadura Militar
O golpe de 28 de Maio de 1926 acaba com o parlamento. Salazar entra para as Finanças em 1928 e constrói, a partir daí, o regime que vai durar 48 anos.
1926

28 de maio de 1926
Golpe militar de 28 de Maio põe fim à I República
O golpe militar iniciado em Braga a 28 de maio de 1926 derruba a República parlamentar e abre a Ditadura Militar (1926-1933), no seio da qual emergirão Salazar e o Estado Novo.12 Em Lisboa, uma força militar encerra o Parlamento.2 Seguem-se anos de revoltas e de repressão, com centenas de mortos e milhares de presos políticos e deportados.1

22 de junho de 1926
A censura à imprensa instala-se no Quartel do Carmo
Menos de um mês depois do golpe de 28 de Maio, os serviços de censura à imprensa começam a funcionar no Quartel da GNR do Carmo, onde ficam até 1934.1 Seguir-se-ão seis outras moradas no Chiado, no Bairro Alto e nos Restauradores — entre 1947 e 1961, no Palácio Foz —, até à Rua da Misericórdia, onde a censura estava a 25 de Abril de 1974.1
Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974) · Palácio Foz – Secretariado de Propaganda Nacional / Secretariado Nacional de Informação (SPN/SNI)
1927

1927· mulheres
Maternidade da Companhia Nacional de Tabacos, em Xabregas
Depois de décadas de denúncias — Adelaide Cabete reclamara creches nas fábricas na sua tese de Medicina —, a Companhia Nacional de Tabacos abre, junto à fábrica de Xabregas, uma maternidade para as tabaqueiras e as mulheres dos operários.1 Havia consultas para as mães e as crianças, leite para os bebés, internamento gratuito um mês antes e um mês depois do parto, e uma creche.1 As operárias desta fábrica tinham fundado em 1894 uma associação mutualista feminina.1
3–9 de fevereiro de 1927
Revolta de Fevereiro de 1927 contra a Ditadura Militar
A primeira grande revolta reviralhista contra a Ditadura Militar começa no Porto a 3 de fevereiro, com militares e civis como Sousa Dias, Jaime de Morais e Jaime Cortesão, e só a 7 chega a Lisboa.1 Os revoltosos rendem-se no Porto e, ao fim da tarde de 9, em Lisboa.1 Seguem-se despedimentos de funcionários, a dissolução de unidades do Exército e da GNR, centenas de presos e deportados, fuzilamentos e o exílio de muitos republicanos, que em França formarão a Liga de Defesa da República.1

7–9 de fevereiro de 1927
Revolta de fevereiro de 1927 em Lisboa
Começada no Porto a 3 de fevereiro, a revolta só a 7 se estende a Lisboa: marinheiros, companhias da GNR e civis armados, comandados por homens como Mendes dos Reis e Agatão Lança, erguem barricadas na Rua Alexandre Herculano, no Largo do Rato e na Rua de São Filipe Néri.1 Rendem-se ao fim da tarde de 9 de fevereiro; nesse dia, junto ao chafariz do Largo do Rato, foram fuzilados vários civis e marinheiros.12 A repressão que se seguiu criou, em março, uma Polícia Especial de Informações, embrião da polícia política do Estado Novo.2
março de 1927
Exilados criam a Liga de Defesa da República («Liga de Paris»)
Derrotada a revolta de fevereiro, republicanos exilados — entre eles António Sérgio, Afonso Costa, José Domingues dos Santos, Álvaro de Castro e Jaime Cortesão — organizam, primeiro na Galiza e depois em Paris, a Liga de Defesa da República, conhecida como Liga de Paris.1 O seu documento de base, «Ao País», redigido por António Sérgio, é tornado público em julho de 1927: pedia a reforma das instituições parlamentares, da vida pública, da economia e da educação.1
1928

1928
A Cadeia do Aljube passa a prisão política
Dois anos depois do golpe, a Cadeia do Aljube passa a prisão política para presos do sexo masculino e serve de «placa giratória» para os que seguiam para a deportação.21 Em 1934 passa a ser administrada diretamente pela PVDE, como cadeia dos presos preventivos; em 1935 as celas coletivas são compartimentadas e o parlatório ganha uma rede entre os presos e as visitas.23 A partir de 1943, ganha treze celas de isolamento, os «curros».2

1928· mulheres
Maria Lamas assume «Modas & Bordados»
A convite do escritor Ferreira de Castro, Maria Lamas passa a dirigir «Modas & Bordados», suplemento de «O Século», e põe a revista a dar lucro com um discurso «de mulher para mulher».14 Dirigi-la-ia até 1947, quando teve de escolher entre a revista e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.31
março de 1928
Óscar Carmona eleito Presidente, sem candidatos opositores
27 de abril de 1928
Salazar toma posse como ministro das Finanças
Para resolver a crise das contas públicas, a Ditadura Militar chama ao Governo António de Oliveira Salazar, professor de Economia e Finanças em Coimbra, figura destacada do Centro Católico e com fama de «mago das finanças». Toma posse a 27 de abril de 1928 e, no discurso de posse, afirma que sabe muito bem o que quer e para onde vai.12 Começava a longa marcha para o poder que o levaria, em 1932, à presidência do Conselho.2

24 de junho de 1928· mulheres
II Congresso Feminista e de Educação
Já em ditadura, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas realiza o II Congresso Feminista e de Educação; a sessão inaugural, com Adelaide Cabete e Angélica Viana Porto na mesa, é presidida pela médica espanhola Elisa Soriano, sem nenhum representante do governo.1 Foram doze teses, de dez mulheres, e as de direitos políticos e civis superaram as de educação.1 Maria O'Neill defendeu «O voto às mulheres», e Elina Guimarães a proteção da mulher trabalhadora.361 Deolinda Lopes Vieira, da comissão organizadora, defendeu a «Escola Única» e a coeducação, que a ditadura abolira nas escolas primárias no ano anterior.5
Adelaide Cabete · Maria O'Neill · Elina Guimarães · Angélica Viana Porto · Deolinda Lopes Vieira
1930

17 de maio de 1930· mulheres
Maria Lamas organiza a exposição «Mulheres Portuguesas»
Por iniciativa de Maria Lamas, abre a 17 de maio, em onze salas do jornal «O Século», a exposição «Mulheres Portuguesas — Exposição da Obra Feminina, Antiga e Moderna», sob o lema «Sejamos inteligentemente mulheres».51 Mostrava o trabalho das mulheres de todo o país, das artesãs às intelectuais, e reconstituía os salões de Maria Amália Vaz de Carvalho e de Carolina Michaëlis de Vasconcelos.54 Foi organizada com o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.4
8 de julho de 1930
Salazar faz promulgar o Acto Colonial
Ministro das Finanças da Ditadura Militar e, interinamente, das Colónias, Salazar faz promulgar o Acto Colonial, que centraliza em Lisboa a administração do império e subordina os interesses das colónias aos da metrópole.1 «É da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos», dizia o artigo 2.º.1 O diploma seria incorporado na Constituição de 1933.1
1931
1931· mulheres
Primeiro voto feminino, restrito às mulheres com estudos
A Ditadura Militar reconhece pela primeira vez o voto a algumas mulheres: o Decreto n.º 19 694, de 5 de maio, às chefes de família, para as juntas de freguesia, e o Decreto n.º 20 073, de 15 de julho, às que tivessem curso secundário ou superior, para as câmaras municipais.127 Nesta primeira fase, o voto das mulheres valia só para as juntas de freguesia e as câmaras municipais.5 Fechava-se assim um intervalo de quase vinte anos desde o Código Eleitoral de 1913.3
- 1Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto n.º 19 694, de 5 de maio de 1931 (Diário do Governo, I série, n.º 104): organiza o recenseamento eleitoral
- 2Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto n.º 20 073, de 15 de julho de 1931 (Diário do Governo, I série, n.º 162): altera a lei do recenseamento eleitoral
- 3Assembleia da República: O sufrágio feminino no parlamento na 1.ª República
- 4Assembleia da República: O Parlamento na história constitucional – O Estado Novo (1926-1974)
- 5Ordem dos Advogados
- 6Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – Análise Social
- 7jugular (blogue, SAPO)
15 de fevereiro de 1931
Primeiro número do «Avante!», jornal clandestino do PCP
Sai o primeiro número do «Avante!», órgão central do Partido Comunista Português, dirigido ao «proletariado de Portugal» e impresso em tipografias clandestinas.1 A publicação foi irregular e chegou a parar dois anos; retomada em agosto de 1941, não voltou a interromper-se até ao 25 de Abril.1 O primeiro «Avante!» legal saiu a 17 de maio de 1974.1
4 de abril de 1931
Primeiro número do «Diário da Manhã», jornal da União Nacional
Sai em Lisboa o «Diário da Manhã», dirigido por Domingos Garcia Pulido, na antiga redação do jornal republicano «O Mundo», na Rua da Misericórdia. No primeiro editorial diz-se «jornal republicano», mas será o órgão oficioso e de doutrinação da União Nacional, cada vez mais votado ao culto de Salazar.1 O último número sai a 30 de janeiro de 1971, já com Marcelo Caetano no Governo; sucede-lhe o «Época».1
1 de maio de 1931
Mortos na repressão do 1.º de Maio de 1931 em Lisboa
A PSP e a GNR reprimem a tiro as manifestações do 1.º de Maio em Lisboa: dezenas de feridos e pelo menos quatro mortos — um servente de pedreiro da Câmara, um empregado da Shell, um caixeiro de drogaria atingido ao balcão e o dono de um hotel da Rua do Comércio, atingido à janela.1 Era o ponto alto de um ano de greves e de revoltas contra a Ditadura Militar.2
5 de maio de 1931· mulheres
Decreto n.º 19 694: mulheres chefes de família nas juntas de freguesia
Já em ditadura, o Decreto n.º 19 694, que organiza o recenseamento eleitoral, manda eleger os vogais das juntas de freguesia pelos chefes de família «de um e outro sexo».1 Contam como chefes de família as mulheres viúvas, divorciadas ou separadas judicialmente, com família própria, e as casadas com o marido ausente nas colónias ou no estrangeiro.13 É o primeiro voto das mulheres, ainda só para as juntas de freguesia.3 Em julho, o Decreto n.º 20 073 daria o voto para as câmaras municipais às mulheres com curso secundário ou superior.2
- 1Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto n.º 19 694, de 5 de maio de 1931 (Diário do Governo, I série, n.º 104): organiza o recenseamento eleitoral
- 2Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto n.º 20 073, de 15 de julho de 1931 (Diário do Governo, I série, n.º 162): altera a lei do recenseamento eleitoral
- 3jugular (blogue, SAPO)
- 4Assembleia da República: O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021)
- 5Assembleia da República: O Parlamento na história constitucional – O Estado Novo (1926-1974)
15 de julho de 1931· mulheres
Decreto n.º 20 073: voto para as mulheres com curso secundário ou superior
O Decreto n.º 20 073 alarga o voto para as juntas de freguesia às solteiras maiores ou emancipadas «com família própria e reconhecida idoneidade moral» e dá voto para as câmaras municipais às portuguesas maiores ou emancipadas com curso secundário ou superior.1 Chegava quase vinte anos depois de o Código Eleitoral de 1913 ter reservado o voto aos homens.23 Era um voto muito restrito, e não chegava ao parlamento: valia para as juntas de freguesia e as câmaras municipais.4
- 1Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico
- 2Assembleia da República: O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021)
- 3Assembleia da República: O sufrágio feminino no parlamento na 1.ª República
- 4Ordem dos Advogados
- 5jugular (blogue, SAPO)

26 de agosto de 1931
Revolta reviralhista de 26 de agosto de 1931 em Lisboa
Militares e civis revoltam-se em Lisboa contra a Ditadura Militar, com aviadores da Base Aérea de Alverca; ocupam posições do Alto do Parque Eduardo VII ao Largo do Rato e atacam o quartel de Caçadores 5, em Campolide, que se mantém fiel ao governo.15 Os combates causam cerca de 40 mortos, e os revoltosos presos são levados para o Governo Civil, na Rua Capelo.1 A 2 de setembro, 358 deportados, entre eles os chefes militares da revolta, embarcam no navio Pedro Gomes para Timor.2
Largo do Rato (antiga Praça do Brasil) · Parque Eduardo VII · Governo Civil de Lisboa e 1.ª Esquadra da PSP
1932
5 de julho de 1932
Salazar assume a Presidência do Conselho de Ministros
Depois de dois anos de influência predominante como ministro das Finanças, Oliveira Salazar torna-se chefe do Governo a 5 de julho de 1932, e abre caminho à institucionalização do Estado Novo, que a Constituição de 1933 consagraria.1

5 de dezembro de 1932
Criação dos Tribunais Militares Especiais
O Decreto n.º 21 942 cria os Tribunais Militares Especiais, em Lisboa e no Porto, para julgar os crimes políticos, com penas de desterro a cumprir «em colónia penal estabelecida em uma ilha das colónias».1 Em Lisboa, os presos esperavam muitas vezes o julgamento nos calabouços da 1.ª Esquadra, no Governo Civil, onde os julgamentos também se faziam.2 Em 1945 dariam lugar aos Tribunais Plenários.1
1933

1933· mulheres
O primeiro liceu feminino muda-se para edifício próprio
Herdeiro do Liceu Maria Pia, o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho passa a ocupar o edifício da Rua Rodrigo da Fonseca, projetado por Miguel Ventura Terra — o primeiro construído de raiz para um liceu feminino.13 Maria Guardiola era a reitora desde 1928, e Domitila de Carvalho, a primeira reitora do Maria Pia, continuava lá a ensinar Matemática.24 No ano seguinte, as duas seriam eleitas entre as três primeiras deputadas.2
Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho (herdeiro do Liceu Maria Pia, o primeiro liceu feminino) · Maria Guardiola · Domitila de Carvalho
1933–1958
O Estado Novo
A Constituição de 1933, a polícia política, a censura, o Tarrafal. E a oposição que não se cala: as greves, o MUD, as candidaturas presidenciais.
1933
11 de abril de 1933· mulheres
Entra em vigor a Constituição do Estado Novo
Plebiscitada a 19 de março — com as abstenções contadas como votos a favor —, a Constituição de 1933 entra em vigor a 11 de abril e institui o Estado Novo.12 O artigo 5.º declara todos iguais perante a lei, «salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família», fórmula que justificou a desigualdade jurídica das mulheres.34 No mesmo dia é publicado o decreto da censura prévia.5
- 1RTP Ensina
- 2Assembleia da República: O Parlamento na história constitucional – O Estado Novo (1926-1974)
- 3Assembleia da República: A revisão do Código Civil e os Direitos das Mulheres (1977)
- 4Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – Análise Social
- 5Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril

11 de abril de 1933
Decreto-Lei n.º 22 469 institui a censura prévia
No dia em que entra em vigor a nova Constituição, o Decreto-Lei n.º 22 469 regula a censura prévia às publicações periódicas, para impedir a «perversão da opinião pública».1 Em junho é criada a Direção-Geral dos Serviços de Censura, que então trabalhava no Quartel da GNR do Carmo.13 A censura chegaria aos livros, aos espetáculos, à rádio e ao cinema, e só seria abolida depois do 25 de Abril.12

29 de agosto de 1933
Criada a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE)
O Decreto-Lei n.º 22 992, de 29 de agosto, cria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), a polícia política que teve esse nome até 1945, quando deu lugar à PIDE.13 O regime aposta na agudização da repressão para quebrar a resistência.2 A sede da Rua António Maria Cardoso só funcionou em pleno a partir de 1938; até lá, grande parte da violência e da tortura passava pelas esquadras da PSP, quase sempre em articulação com o Aljube.5
Sede da PVDE / PIDE / DGS · Cadeia do Aljube
- 1Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 3Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Prisões da Ditadura
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Ditadura militar e ascensão do salazarismo
- 5Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos
23 de setembro de 1933
Estatuto do Trabalho Nacional proíbe a greve
Inspirado na «Carta del Lavoro» de Mussolini, o Estatuto do Trabalho Nacional impõe o modelo corporativo e a «fascização» dos sindicatos; com a Constituição, proíbe a greve e o lock-out.21 A resposta operária foi a greve geral de 18 de janeiro de 1934.2 A greve só voltaria a ser legal com o Decreto-Lei n.º 392/74.1

25 de setembro de 1933
Criação do Secretariado de Propaganda Nacional
O Decreto-Lei n.º 23 054 cria, junto da Presidência do Conselho, o Secretariado da Propaganda Nacional, com a missão, entre outras, de «combater por todos os meios» a penetração no país de «quaisquer ideas perturbadoras e dissolventes da unidade e interêsse nacional» e de usar a rádio, o cinema e o teatro como «meios indispensáveis à sua acção».1 Dirigido por António Ferro, foi peça central da máquina de propaganda do regime.24 Em 1940 o Estado compra o Palácio Foz, nos Restauradores, para a sua sede.3 Em 1944, um decreto-lei concentra no Secretariado Nacional de Informação, que lhe sucedeu, os serviços de propaganda, turismo, imprensa e censura.5
Palácio Foz – Secretariado de Propaganda Nacional / Secretariado Nacional de Informação (SPN/SNI)
- 1Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico
- 2Wikipédia (ponto de partida): Secretariado de Propaganda Nacional
- 3Wikipédia (ponto de partida): Palácio Foz
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Ditadura militar e ascensão do salazarismo
- 5Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: A Censura no Salazarismo

19 de novembro de 1933
150 presos políticos deportados para Angra do Heroísmo
Vindos do Forte de Peniche, 150 presos — militares e civis, reviralhistas, sindicalistas, anarquistas e comunistas, julgados e condenados em tribunal militar — são deportados para a fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo.1 Foi a primeira leva desde que a fortaleza passara a prisão da polícia política, três meses depois da criação da PVDE.1
1934

18 de janeiro de 1934
Greve geral revolucionária de 18 de Janeiro de 1934
Anarcossindicalistas, comunistas e socialistas convocam uma greve geral contra a «fascização» dos sindicatos imposta pelo Estatuto do Trabalho Nacional.1 Em Lisboa rebenta uma bomba no Poço do Bispo e é cortada a linha férrea em Xabregas; na Marinha Grande, os operários vidreiros ocupam o posto da GNR e a câmara.1 Presos como António Gato Pinto passam pelos calabouços do Governo Civil e pelo Aljube; vários participantes morrerão no Tarrafal, entre eles Bento Gonçalves e Mário Castelhano.31 Nesse ano, a PVDE passa a administrar diretamente as cadeias políticas: o Aljube, Caxias, Peniche e Angra.4
Governo Civil de Lisboa e 1.ª Esquadra da PSP · Cadeia do Aljube · Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde) · Forte de Caxias — a prisão política · Fortaleza de Peniche — a cadeia política
16 de junho de 1934
Inaugurada no Porto a I Exposição Colonial Portuguesa
Inaugura-se no Porto a I Exposição Colonial Portuguesa, comissariada por Henrique Galvão, militar que viria a ser um destacado opositor do salazarismo.1 Momento de exaltação imperial, a exposição incluía «zoos humanos», em que homens, mulheres e crianças das colónias eram exibidos ao público nos seus supostos «habitats».1
6 de novembro de 1934· mulheres
Decreto-Lei n.º 24 631: algumas mulheres podem votar e ser eleitas para a Assembleia Nacional
A nova lei eleitoral do Estado Novo define quem pode ser eleito para a Assembleia Nacional — os cidadãos portugueses com capacidade eleitoral que saibam ler e escrever —, considera eleitor quem estiver inscrito no recenseamento e marca a primeira eleição para 16 de dezembro de 1934.1 Não podiam ser eleitos, entre outros, os que estivessem presos por delitos políticos ou sociais.1 Segundo a historiadora Irene Flunser Pimentel, podiam votar e ser eleitas as mulheres maiores de 21 anos solteiras com rendimento próprio ou que trabalhassem, as chefes de família e as casadas com diploma secundário ou que pagassem certa contribuição predial.2 Nas eleições de dezembro seriam eleitas as três primeiras deputadas.2

16 de dezembro de 1934· mulheres
Eleitas as três primeiras deputadas portuguesas
Nas eleições de 16 de dezembro de 1934, a lista da União Nacional leva à Assembleia Nacional as três primeiras deputadas portuguesas: a professora e médica Domitila de Carvalho, a advogada Maria Cândida Parreira e a professora Maria Guardiola.12 Ficaram sobretudo nas comissões de trabalho e assistência e de educação, por se considerar que eram assuntos «mais ligados aos interesses da mulher».1 Não foi a I República a abrir às mulheres as portas do parlamento, mas o regime de Salazar, que nelas viu um meio de propagar a ideologia do Estado Novo.1 A Assembleia abriu a 11 de janeiro de 1935.3
Palácio de São Bento · Domitila de Carvalho · Maria Cândida Parreira · Maria Guardiola
1935

janeiro de 1935
O Reduto Sul de Caxias passa para a polícia política
O Reduto Sul do Forte de Caxias, prisão desde 1916, passa para a alçada da PVDE, destinado aos presos homens.1 Caxias junta-se assim ao Aljube como prisão política da região de Lisboa; em 1938, o Reduto Norte passaria a ser a prisão das mulheres.1

11 de janeiro de 1935· mulheres
Abre a Assembleia Nacional, com as primeiras três deputadas
Eleita em dezembro de 1934, a Assembleia Nacional do Estado Novo reúne pela primeira vez no Palácio de São Bento, com a chegada do Presidente da República, Óscar Carmona, e de Salazar.12 Entre os deputados estão as três primeiras mulheres eleitas para um parlamento em Portugal: Domitila de Carvalho, Maria Cândida Parreira e Maria Guardiola.36 Só tinham podido votar as mulheres com curso especial, secundário ou superior.4
Palácio de São Bento · Domitila de Carvalho · Maria Guardiola · Maria Cândida Parreira · António de Oliveira Salazar
- 1Assembleia da República: Chegada de Óscar Carmona e Oliveira Salazar à abertura da Assembleia Nacional, 11 de janeiro de 1935 (legenda)
- 2Assembleia da República: Exterior do Palácio de S. Bento no dia da abertura da Assembleia Nacional, 11 de janeiro de 1935 (legenda)
- 3Assembleia da República: As três primeiras mulheres eleitas Deputadas (legenda)
- 4Assembleia da República: O Parlamento na história constitucional – O Estado Novo (1926-1974)
- 5Ordem dos Advogados
- 6Susana Fontes e Sónia Coelho / Faces de Eva (SciELO Portugal)

13 de junho de 1935
Criada a FNAT, Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho
O Decreto-Lei n.º 25 495 cria a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, para promover «o aproveitamento do tempo livre dos trabalhadores portugueses»: tudo o que pudesse «fortalecer, educar e distrair o corpo e o espírito dos que trabalham» devia ser olhado com «cuidado especial».1 Seguia o modelo do Dopolavoro de Mussolini e da «Força pela Alegria» de Hitler, e servia os sócios dos sindicatos nacionais, das Casas do Povo e das Casas de Pescadores.2 Em 1946 instalou a sede no Palácio Camarido, na Calçada de Sant'Ana; em 1975 passou a chamar-se INATEL.32
Palácio Camarido – sede da FNAT · Estádio da FNAT (rebatizado Estádio 1.º de Maio)

10 de novembro de 1935· mulheres
Constituição da Associação Feminina Portuguesa para a Paz
É constituída a Associação Feminina Portuguesa para a Paz, com sede em Lisboa, primeiro na Rua do Loreto e depois na Rua Latino Coelho.1 Apresentava-se como apolítica e não religiosa, mas juntou mulheres antifascistas e antibélicas, de Stella Piteira Santos e Maria Alda Nogueira a Isabel Aboim Inglez e Manuela Porto.43 Maria Lamas presidiu-lhe a partir de 1938.2 Foi dissolvida em 1952, por despacho do ministro do Interior.1
Sede da Associação Feminina Portuguesa para a Paz · Maria Lamas · Stella Piteira Santos · Isabel Aboim Inglez · Manuela Porto · Maria Alda Nogueira
1936

11 de abril de 1936· mulheres
Lei n.º 1941 cria a Mocidade Portuguesa
A Lei n.º 1941, de 11 de abril de 1936, cria a Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Feminina, organizações de enquadramento da juventude pelo regime.1 A Mocidade viria a ter sede no Palácio da Independência, no Largo de São Domingos, até 1974.2 Ambas foram extintas pelo Decreto-Lei n.º 171/74, logo a 25 de abril de 1974.1

23 de abril de 1936
Decreto cria o campo de concentração do Tarrafal
O Decreto-Lei n.º 26 539 cria a «colónia penal para presos políticos e sociais» do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde — o «Campo da Morte Lenta».1 O médico do campo, Esmeraldo Pais, dizia: «não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito».1 O campo recebeu os primeiros presos a 29 de outubro de 1936; até fechar, em 1954, passaram por lá 340, e 34 ali morreram.1

18 de julho de 1936
Levantamento de Franco: começa a Guerra Civil de Espanha
O levantamento militar de Franco contra a República espanhola dá início à Guerra Civil de Espanha.1 Salazar apoia Franco, e entre 1936 e 1939 a ditadura portuguesa vive um dos seus períodos mais violentos: 9575 prisões feitas pela polícia política e 38 mortes conhecidas, a maioria nas prisões e no Tarrafal.1

6 de agosto de 1936· mulheres
«Revolta do Leite» na Madeira; dez presas enviadas para Lisboa
Protesto popular contra o monopólio dos lacticínios, a revolta estende-se por mais de um mês e resulta em 557 prisões e 7 mortos.1 Em junho de 1937, dez mulheres da Ribeira Brava — Ludovina de Jesus da Corte, Agostinha da Câmara, Francisca Andrade, Maria de Jesus Silva, Maria Rosa de Abreu, Maria de Jesus Andrade, Conceição da Câmara Rodrigues, Tereza da Corte, Virgínia de Jesus e Maria de Souza — são enviadas para a cadeia das Mónicas, em Lisboa.1 Os presos levados para o continente ficaram detidos entre dois e três anos.1
15 de agosto de 1936· mulheres
Aprovados os estatutos da Obra das Mães pela Educação Nacional
O Decreto n.º 26 893 aprova os estatutos da Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN), instituída sob o patrocínio do Ministério da Educação Nacional para «estimular a acção educativa da família». Entre os seus fins estavam «orientar as mãis portuguesas» na criação dos filhos, promover «o conforto do lar», «defender os bons costumes, designadamente no que respeita ao vestuário, à leitura e aos divertimentos» e organizar a secção feminina da Mocidade Portuguesa.1 Difundia o papel que o regime destinava às mulheres: mães zelosas da família e das tarefas domésticas, esposas obedientes ao marido, o «chefe» da família.2 Maria Guardiola foi sua vice-presidente de 1937 até à extinção, em 1975.3
8 de setembro de 1936
Revolta dos Marinheiros no Tejo
Marinheiros dos navios Afonso de Albuquerque, Dão e Bartolomeu Dias, organizados pela Organização Revolucionária da Armada, ligada ao PCP, sublevam-se no Tejo contra a ditadura.1 Salazar manda bombardear os navios: há 12 mortos e 208 presos, e 34 marinheiros seguem no primeiro contingente para o Tarrafal.1 A maioria só saiu quando o campo fechou, em 1954; cinco morreram lá.1
30 de setembro de 1936
Criada a Legião Portuguesa
O Decreto-Lei n.º 27 058, de 30 de setembro de 1936, cria a Legião Portuguesa, milícia do regime.1 A 25 de abril de 1974 foi a primeira força paramilitar a render-se, e o Decreto-Lei n.º 171/74 extinguiu-a.21

17 de outubro de 1936
Os marinheiros revoltosos embarcam para o Tarrafal
Entregues à PVDE depois da revolta de 8 de setembro, os marinheiros presos passaram pelo posto policial da «Mitra», na zona oriental de Lisboa, e a partir de 18 de setembro pela Penitenciária.12 Condenados pelo Tribunal Militar Especial, embarcaram a 17 de outubro no navio que no dia seguinte partiu para o recém-criado campo do Tarrafal.23 Entre eles iam o artilheiro Francisco José Pereira, que em setembro de 1937 foi o primeiro deportado a morrer no campo, e o marinheiro Jacinto de Melo Faria Vilaça, que lá morreu em 1941, com 26 anos.12
«Mitra» – Asilo da Mitra e 3.º Posto da 14.ª Esquadra da PSP · Penitenciária de Lisboa · Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde)

29 de outubro de 1936
Chegam ao Tarrafal os primeiros 152 presos
Saídos de Lisboa a 18 de outubro nos porões do navio Luanda, os primeiros 152 deportados — entre eles participantes na greve geral de 18 de janeiro de 1934 e na Revolta dos Marinheiros — chegam ao campo do Tarrafal, depois de doze dias de viagem.1 O campo foi pensado para os isolar do mundo, em condições sub-humanas de cativeiro, maus-tratos, trabalho forçado e tortura.1
24 de novembro de 1936· mulheres
Professoras primárias só podem casar com autorização do ministro
O Decreto-Lei n.º 27 279, que fixa as bases do ensino primário, determina no artigo 9.º que «o casamento das professoras não poderá realizar-se sem autorização do Ministro da Educação Nacional», que só a dará se o noivo tiver «bom comportamento moral e civil» e «vencimentos ou rendimentos, documentalmente comprovados, em harmonia com os vencimentos da professora».1 O mesmo diploma exige «comportamento moral irrepreensível» a quem ensina e torna obrigatória a inscrição dos alunos da escola primária na Mocidade Portuguesa.1 A autorização só deixou de ser exigida em dezembro de 1969.2
- 1Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto-Lei n.º 27 279, de 24 de novembro de 1936 (Diário do Governo, I série, n.º 276): bases do ensino primário
- 2Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto-Lei n.º 49 473, de 27 de dezembro de 1969 (Diário do Governo, I série, n.º 301): revoga a autorização para o casamento das professoras primárias
1937
20 de janeiro de 1937
«Bombas dos Ministérios»: anarquistas atacam apoios de Franco em Lisboa
Em solidariedade com a Espanha republicana, anarquistas fazem explodir bombas no Ministério da Educação Nacional, na Emissora Nacional, no Rádio Clube Português e na Casa de Espanha, entre outros alvos; no dia seguinte rebentam engenhos no Ministério da Guerra.1 Os alvos foram escolhidos através de contactos do anarquista Emídio Santana.1 O entusiasmo levaria os anarquistas ao atentado contra Salazar, em julho.1
4 de julho de 1937
Atentado à bomba contra Salazar na Avenida Barbosa du Bocage
Na manhã de domingo, uma bomba escondida num coletor da Avenida Barbosa du Bocage explode à chegada do carro de Salazar, que ia à missa na capela particular de Josué Trocado; por um erro de centímetros, rebenta no sentido errado, e o ditador sai ileso.12 A ação é atribuída a anarquistas como Emídio Santana, ligados a outros elementos da Frente Popular.14 A PVDE prende e tortura inocentes; dois deles, José Lopes da Silva e Jacinto Estêvão de Carvalho, morrem.1
Avenida Barbosa du Bocage, n.º 96 (capela particular de Josué Trocado) · Emídio Santana · António de Oliveira Salazar
1938

maio de 1938
Francisco Paula de Oliveira («Pavel») foge do Aljube
Francisco de Paula Oliveira Júnior, o «Pavel», secretário-geral do PCP, preso a 10 de janeiro de 1938 na sua casa clandestina, foge do Aljube com a ajuda do enfermeiro Augusto Rodrigues, que se junta à fuga com outro preso muito doente, o «Casanova».1 Escondidos num barco norueguês, seguem para Paris; Pavel acabaria exilado no México, onde foi jornalista, escritor e crítico de arte, amigo de Frida Kahlo e de Diego Rivera.1

maio de 1938· mulheres
O Reduto Norte de Caxias torna-se a prisão política das mulheres
O Reduto Norte do Forte de Caxias passa para a alçada da polícia política, destinado às mulheres.1 As presas cumpriam ali toda a detenção preventiva e as penas, duas a duas em salas, com recreio só com a mesma companheira.2 Algumas tinham consigo os filhos pequenos ou nascidos na prisão; nas visitas, através de um vidro, não os podiam abraçar.2
1 de julho de 1938· mulheres
Decreto-Lei impõe que as enfermeiras sejam solteiras ou viúvas
O Decreto-Lei n.º 28 794 determina que nos lugares de enfermagem e de serviço doméstico preenchidos por mulheres só possam entrar solteiras ou viúvas sem filhos, «as quais serão substituídas logo que deixem de verificar-se estas condições».1 Começa uma luta de 25 anos das enfermeiras, que só acabou com o Decreto-Lei n.º 44 923, de março de 1963.1
1939
17 de março de 1939
Salazar e Franco assinam o Pacto Ibérico
A poucos dias da tomada de Madrid pelos franquistas, Salazar e Franco assinam o Pacto Ibérico, que consuma a aliança das duas ditaduras.1 Durante a Guerra Civil, os «Viriatos», milícias portuguesas organizadas por Jorge Botelho Moniz, combateram ao lado de Franco, a polícia política portuguesa entregou refugiados republicanos, e o Rádio Clube Português, fundado por Botelho Moniz, emitiu para encorajar os franquistas.1

dezembro de 1939
Miguel Torga preso no Aljube
1940
7 de maio de 1940· mulheres
Concordata com a Santa Sé proíbe o divórcio dos casamentos católicos
A Concordata assinada a 7 de maio de 1940 entre Portugal e a Santa Sé devolve efeitos civis ao casamento católico e proíbe o divórcio a quem casar pela Igreja daí em diante; quem casara antes, mesmo pela Igreja, e quem casasse só pelo civil continuava a poder divorciar-se.134 Trinta anos depois da Lei do Divórcio de 1910, que permitira o divórcio litigioso e por mútuo consentimento, os casamentos católicos voltavam a ser indissolúveis.3 A proibição valia para os dois cônjuges, mas pesava muito mais sobre a mulher, a parte social, económica e juridicamente mais fraca.2 Só o Protocolo Adicional de 1975 devolveu o divórcio aos casados pela Igreja.14

23 de junho a 2 de dezembro de 1940
Abre em Belém a Exposição do Mundo Português
Para celebrar o «duplo centenário» — a fundação do reino, em 1140, e a Restauração, em 1640 —, o Estado Novo inaugura em Belém, no dia seguinte ao armistício entre a França e a Alemanha, o grande acontecimento de propaganda do regime, à volta da nova Praça do Império e do primeiro Padrão dos Descobrimentos.12 Tem uma secção histórica, uma de etnografia metropolitana, com réplicas de aldeias portuguesas, e uma secção colonial, no Jardim Colonial; estima-se em três milhões as visitas até ao encerramento, a 2 de dezembro.1
Praça do Império · Padrão dos Descobrimentos · Jardim Botânico Tropical (antigo Jardim Colonial)

27 de junho de 1940· mulheres
Abre a Secção Colonial, com 138 pessoas das colónias expostas ao público
No Jardim Colonial abre a secção colonial da Exposição do Mundo Português, dirigida por Henrique Galvão: entre pavilhões e réplicas de aldeias, 138 homens, mulheres e crianças recrutados nas colónias vivem à vista dos visitantes, num «zoo humano», como lhe chama a historiadora Cláudia Castelo.1 Entre eles estão o rei do Congo, D. Pedro VII, com a rainha e a princesa, Verónica, mulher de um chefe timorense, e mulheres machopes de Moçambique, fotografadas numa aula de costura dada por uma freira missionária.1 Os bijagós da Guiné ficam na ilha de um dos lagos.2 Em outubro, a comissão executiva decide mandá-los regressar antes do inverno, invocando razões de saúde.1
1941

5 de novembro de 1941
Greve dos operários dos lanifícios da Covilhã
Num tempo de fome e racionamento, com a II Guerra Mundial a abrir a primeira grande crise do Estado Novo, os operários dos lanifícios da Covilhã entram em greve — um dos primeiros sinais das lutas operárias que aí vinham.1 Felisberto Fernandes Berto, que se destacou na luta, foi preso e levado para as cadeias do Aljube e de Caxias, e morreu no Hospital do Desterro, em Lisboa, a 20 de dezembro de 1941.1 Ferreira de Castro evocou a greve no romance «A Lã e a Neve», publicado em 1947.1
1943

1943
Construção dos «curros» do Aljube
No segundo andar do Aljube são erguidas treze celas de isolamento, os «curros» ou «gavetas»: com cerca de um metro de largura por dois de comprimento, fechadas por duas portas e quase todas em semiobscuridade 24 horas por dia.12 No primeiro período de incomunicabilidade, que podia durar até seis meses, o preso não tinha caneta, lápis, papel, jornais, livros nem relógio.1 Ao lado dos sanitários ficava a cela disciplinar, a n.º 14, onde o preso permanecia às escuras, sem enxerga e muitas vezes a pão e água.1 A cadeia política do Aljube fechou no verão de 1965.2
26 de julho de 1943
Começa a vaga de greves de 1943 na região de Lisboa
A 26 de julho começa o movimento grevista que, em Lisboa, Almada, Barreiro, Seixal, Amora e outros pontos do país, abrangerá cerca de 50 mil trabalhadores, segundo o PCP, que o organizou.1 Pediam aumentos de salários, mais géneros essenciais e «Paz, pão, liberdade e trabalho».1 O Governo ameaçou despedir quem não voltasse ao trabalho; houve confrontos violentos com a polícia, fábricas encerradas e muitas prisões.1

10–13 de novembro de 1943
III Congresso (I ilegal) do PCP no Monte Estoril
Na Vila Arriaga, um pequeno palacete da Rua do Pinheiro, no Monte Estoril, o PCP reúne o seu III Congresso, o primeiro na clandestinidade.1 Elege para o Comité Central, entre outros, Álvaro Cunhal, José Gregório, Manuel Guedes, Pires Jorge, Sérgio Vilarigues, Alfredo Dinis e Dias Lourenço, e propõe uma frente comum dos vários setores democráticos contra o regime — a «linha frentista de unidade antifascista», no quadro da qual nasceria, em dezembro, o MUNAF.12 A casa foi ocupada por 17 funcionários clandestinos que, quando convocados, não sabiam ao que iam; reforçou-se a segurança e traçou-se uma linha de fuga para o caso de a polícia política a assaltar.1

dezembro de 1943
Fundado o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF)
Em dezembro de 1943 é fundado o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), presidido pelo general Norton de Matos.1 Com a guerra a correr a favor dos Aliados, a fome, a falta de géneros e as greves, a oposição apostava numa frente de unidade antifascista; o PCP aprovara no seu congresso a «linha frentista».1 O MUNAF juntava o Partido Republicano Português, o Partido Socialista (SPIO), a União Socialista e o PCP, e com eles republicanos, socialistas, comunistas, católicos, liberais, monárquicos, seareiros, maçons, anarcossindicalistas e independentes.1
1944

3 de julho de 1944
Oficialização da Casa dos Estudantes do Império
Numa visita à Casa dos Estudantes de Angola, o ministro das Colónias, Francisco Vieira Machado, formaliza a fusão das «casas» de estudantes das colónias numa só, a Casa dos Estudantes do Império.2 O regime temia que as «casas» se tornassem alfobre de nacionalismos e pôs a nova Casa sob tutela do Ministério das Colónias e patrocínio da Mocidade Portuguesa, para cultivar a «unidade imperial»; no ano seguinte abriu a delegação de Coimbra.31 A Casa tornou-se depressa um centro de formação política e de agitação antifascista e anticolonial, e muitos sócios aderiram ao MUD Juvenil logo em 1946.31
1945

1945· mulheres
Mulheres no Movimento de Unidade Democrática
Em 1945, várias mulheres assinam as listas do Movimento de Unidade Democrática: a médica Cesina Bermudes defende que se forme nele uma Comissão de Mulheres, e Isabel Aboim Inglez torna-se a primeira mulher na Comissão Central e integra a Comissão das Mulheres.143 Nesse ano, o «Diário de Lisboa» publica «As mulheres e o movimento de oposição», um documento assinado por Beatriz Cal Brandão, Maria Lamas, Clementina Carneiro de Moura, Cesina Bermudes, Maria Alda Nogueira, Natália Correia, Francine Benoît e Maria Estanco Louro.1 Maria Lamas diria que assinar as listas do MUD Juvenil foi o seu primeiro ato político: «Ao fazê-lo, saí do anonimato».2 Manuela Porto também aderiu ao MUD e, no Porto, Virgínia Moura entrou no fim do ano para a Comissão Distrital.1
Isabel Aboim Inglez · Cesina Bermudes · Maria Lamas · Maria Alda Nogueira · Natália Correia · Manuela Porto · Virgínia Moura

julho de 1945· mulheres
Maria Lamas assume a presidência do CNMP
Em julho de 1945, Maria Lamas assume a presidência da direção do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, então com sede na Praça dos Restauradores.14 Relança o Conselho a nível nacional, chamando mulheres e jovens de vários meios sociais, e formam-se delegações pelo país.34 Nesse ano entra para o Conselho Maria Alda Nogueira.2 Sob a presidência de Maria Lamas, o Conselho forma a Comissão Organizativa do Movimento Abolicionista Português (COMAP), para combater a prostituição e o sistema que a regulamentava.5
Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas · Maria Lamas · Maria Alda Nogueira
8 de outubro de 1945· mulheres
Fundação do Movimento de Unidade Democrática (MUD)
Depois da vitória aliada, a oposição organiza-se legalmente no Movimento de Unidade Democrática (MUD), herdeiro do MUNAF, constituído numa reunião no Centro Escolar Republicano Almirante Reis, em Lisboa.412 Reunindo figuras de vários quadrantes, foi a mais importante e ampla organização legal de unidade antifascista.2 Na reunião estavam, entre outros, Maria Palmira Tito de Morais e Isabel Aboim Inglez, que seria a primeira mulher na Comissão Central do movimento.13 A perseguição começou logo em 1946 e acabou na ilegalização do MUD.2

20 de outubro de 1945
Os Tribunais Plenários substituem os Tribunais Militares Especiais
Com a vitória aliada, o Decreto-Lei n.º 35 044, de 20 de outubro de 1945, extingue o Tribunal Militar Especial, herdeiro dos tribunais de 1932, e entrega o julgamento dos crimes contra a segurança do Estado — e também dos crimes de imprensa — ao plenário dos tribunais criminais de Lisboa e do Porto.12 Cada plenário era presidido por um desembargador nomeado pelo ministro da Justiça e tinha como vogais os dois juízes mais antigos dos juízos criminais: uma mudança que a Comissão Comemorativa 50 Anos descreve como «simples manobra cosmética».13 O Plenário de Lisboa funcionou no tribunal da Boa-Hora, onde foram julgados, entre muitos outros, Mário Soares e Álvaro Cunhal.4 Os juízes deixavam os agentes da PIDE ocupar a sala de audiências e impediam os réus de denunciar as condições em que tinham sido preparados os processos.2

22 de outubro de 1945
A polícia política passa a chamar-se PIDE
O Decreto-Lei n.º 35 046, de 22 de outubro de 1945, cria a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), «organismo de polícia judiciária dependente do Ministério do Interior», e revoga o diploma de 1933 que criara a PVDE.12 Com este nome, a polícia política durou até se transformar em Direção-Geral de Segurança.3 Na sede da Rua António Maria Cardoso, os serviços de investigação ocupavam o terceiro piso, onde os presos eram interrogados e submetidos a grande violência e a torturas várias.4 Numa sala desse piso morreu em 1949, depois de violentamente espancado e torturado, o preso político António Almeida, da Marinha Grande.4
- 1Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto-Lei n.º 35 046, de 22 de outubro de 1945 (Diário do Governo, I série, n.º 234): cria a Polícia Internacional e de Defesa do Estado
- 2Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico: Decreto-Lei n.º 22 992, de 29 de agosto de 1933 (Diário do Governo, I série, n.º 195): cria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado
- 3Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Prisões da Ditadura
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: A sede e as delegações da PIDE
31 de dezembro de 1945· mulheres
Lei eleitoral exclui do voto as mulheres casadas
O Decreto-Lei n.º 35 426, sobre o recenseamento para as eleições do Presidente da República e da Assembleia Nacional, deixa votar as mulheres maiores e emancipadas com habilitações literárias e as «chefes de família» — viúvas, divorciadas, separadas ou solteiras «com reconhecida idoneidade moral» — que pagassem pelo menos 100$00 de impostos.1 Exclui expressamente «a mulher casada que não esteja judicialmente separada de pessoas e bens, e cujo marido possua capacidade eleitoral».1 O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas protestou contra o decreto, por tirar o voto às mulheres casadas.2 Em 1946, a Lei n.º 2015 alargou o voto a parte das mulheres casadas.1
1946

28 de maio de 1946· mulheres
Lei n.º 2015 alarga o voto a algumas mulheres casadas
A Lei n.º 2015 dá o voto às mulheres casadas que saibam ler e escrever e cuja contribuição predial, própria ou do casal, seja superior a 200$00.1 Nasceu de um requerimento do deputado Pinto Coelho para a Assembleia Nacional apreciar o decreto-lei de dezembro, que deixara as casadas sem voto; as comissões recusaram o parecer da Câmara Corporativa, que queria negar-lhes o voto para «evitar a desunião da família».1 A deputada Maria Van Zeller apoiou o alargamento, mas sem querer para a mulher «absoluta igualdade» com o homem, o que contrariaria, dizia, «o espírito da política de regresso da mulher ao lar».1

28 de julho de 1946
Constituído formalmente o MUD Juvenil
No Centro Republicano José Estêvão é formalmente constituído o MUD Juvenil, nascido em abril do Movimento Académico de Unidade Democrática (MAUD) e ligado ao MUD, criado em outubro de 1945.1 Segundo Octávio Pato, que lá esteve, a reunião foi no Lumiar, e nela ficou constituída a Comissão Central: Salgado Zenha, João Sá da Costa, José Borrego, Júlio Pomar, Maria Fernanda Silva, Mário Sacramento, Mário Soares, Nuno Fidelino Figueiredo, o próprio Octávio Pato, Rui Grácio e Óscar dos Reis.2 Nos anos seguintes, o MUD Juvenil dinamiza greves e protestos estudantis, organiza a Semana da Juventude e a concentração de Bela Mandil e apoia a candidatura de Norton de Matos; muitos dos seus membros passaram pelas prisões do regime, nomeadamente pelo Aljube.1 Muitos sócios da Casa dos Estudantes do Império aderiram logo em 1946.3
Cadeia do Aljube · Casa dos Estudantes do Império (CEI) · Mário Soares · Norton de Matos
13 de dezembro de 1946· mulheres
Isabel Aboim Inglez presa pela primeira vez pela PIDE
Isabel Aboim Inglez, dirigente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz e primeira mulher na Comissão Central do MUD, é presa pela primeira vez pela PIDE, acusada de ser «um elemento comunista», e libertada sob caução no dia seguinte.12 No ano anterior fora demitida da Faculdade de Letras por razões políticas.2 Voltaria a ser presa em janeiro de 1948, pela distribuição de 1500 exemplares de propaganda do MUD, e ficaria dois meses detida; em fevereiro de 1949 foi fechado o colégio que dirigia, o Colégio Fernão de Magalhães.1
1947

4–12 de janeiro de 1947· mulheres
Exposição de Livros Escritos por Mulheres
O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Maria Lamas, mostra na Sociedade Nacional de Belas Artes cerca de três mil livros de quatrocentas autoras de trinta países, com fotografias de mulheres que se tinham destacado como intelectuais e resistentes contra o nazismo e o fascismo.13 Manuela Porto fala sobre «Virginia Woolf: o problema das mulheres das letras».3 Jornais ligados ao regime, como «A Defesa» e «Novidades», acusam o Conselho de ser contra o Estado Novo e de ligar o feminismo ao comunismo.4 A exposição precipitou o fim do Conselho, fechado pela polícia em junho.24
Sociedade Nacional de Belas-Artes · Maria Lamas · Manuela Porto
- 1RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa
- 2Repositório Aberto da Universidade Aberta
- 3CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
- 4FCSH+Lisboa – NOVA FCSH
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Maria Lamas
- 6Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Dia Internacional da Mulher
- 7Wikipédia (pt)
- 8Wikipédia
21–28 de março de 1947
Semana da Juventude do MUD Juvenil e cerco de Bela Mandil
Entre 21 e 28 de março, o MUD Juvenil promove pelo país a Semana da Juventude: festivais, sessões culturais e desportivas, passeios e acampamentos onde se discutiam os problemas da juventude e as formas de resistir à ditadura.1 Em Bela Mandil, no concelho de Olhão, o Festival da Juventude reuniu centenas de jovens num acampamento; embora legal, foi cercado por PIDE, PSP e GNR armadas, que obrigaram a suspender as atividades e a abandonar o local.1 Muitos jovens resistiram e acabaram agredidos ou presos, e em protesto o hino nacional ecoou na mata; o 28 de março ficou a ser o Dia Nacional da Juventude.1

28 de junho de 1947· mulheres
A polícia fecha o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas
A polícia fecha «sem aviso prévio» a sede do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, na Travessa da Fábrica das Sedas, nas Amoreiras, para onde se mudara em 1946, e põe fim a 33 anos de associação.1 Foi a Exposição de Livros Escritos por Mulheres, em janeiro, que precipitou o fecho: os jornais ligados ao regime tinham acusado o Conselho de ser contra o Estado Novo e de ligar o feminismo ao comunismo.21 Depois da exposição, a presidente, Maria Lamas, fora obrigada a escolher entre a direção de «Modas & Bordados», n'O Século, e o Conselho, e escolhera o Conselho.4 Entre as dirigentes estavam também Manuela Porto, vice-presidente desde 1946, Elina Guimarães, que presidia à Comissão Jurídica, e Isabel Aboim Inglez.468
Última sede do CNMP, fechada pela polícia em 1947 · O Século — a redação de «Modas e Bordados» · Maria Lamas · Elina Guimarães · Manuela Porto · Isabel Aboim Inglez
- 1FCSH+Lisboa – NOVA FCSH
- 2Repositório Aberto da Universidade Aberta
- 3RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa
- 4CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Dia Internacional da Mulher
- 6Wikipédia (pt)
- 7Wikipédia
- 8Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Isabel Aboim Inglez
- 9Gerador
1948

1948· mulheres
Maria Barroso afastada do Teatro Nacional D. Maria II
Atriz da companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, protagonista da «Benilde» de José Régio e Adela em «A Casa de Bernarda Alba», Maria Barroso deixa de poder trabalhar no Teatro Nacional D. Maria II, por uma ordem «vinda da polícia e do Ministério da Educação»; a decisão chega na altura da terceira prisão de Mário Soares.12 Fazia recitais com os poetas da oposição, e a polícia política já a chamara a interrogatórios.3 «Foi um desgosto. Senti que era uma injustiça», contou à biógrafa Leonor Xavier.1

1 de março de 1948
O MUD é declarado ilegal
A 1 de março de 1948, o MUD responde à notificação, feita na PIDE, de um despacho de abril de 1947 que o considerava ilegal por nele colaborar «o chamado Partido Comunista».1 Na representação que fez ao Governo, assinada por António Sérgio, Isabel Aboim Inglez, Manuel Mendes, Gustavo Soromenho e outros, reclamava a libertação dos seus membros presos, entre eles Tito de Morais, detido no Aljube.1 A ilegalização fechou a perseguição começada em 1946, que levara à prisão de vários membros e à demissão de figuras como Bento de Jesus Caraça, mas não impediu o apoio à candidatura de Norton de Matos em 1949.1
maio de 1948 a abril de 1950· mulheres
Publicação de As Mulheres do Meu País, de Maria Lamas
Depois do fecho do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a que presidia, Maria Lamas percorre o país durante dois anos, vai à Madeira e aos Açores, e publica «As Mulheres do Meu País», uma grande reportagem sobre a vida e o trabalho das mulheres portuguesas.136 A obra saiu em fascículos, de maio de 1948 a abril de 1950, para contornar a censura.13 Organizou-a em cinco grandes grupos — a camponesa, a mulher do mar, a operária, a doméstica e a empregada, que incluía as profissões liberais, as intelectuais e as artistas — e muitas das fotografias são dela, completadas com imagens de outros autores.1
- 1Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 2Repositório Aberto da Universidade Aberta
- 3RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa
- 4CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Maria Lamas
- 6Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Maria Lamas
- 7MDM – Movimento Democrático de Mulheres
27 de junho de 1948
Funeral de Bento de Jesus Caraça torna-se protesto contra o regime
O matemático e pedagogo Bento de Jesus Caraça, resistente antifascista e militante do PCP, morre em Lisboa a 25 de junho, vítima de doença cardíaca.1 Preso pela PIDE em 1946, fora demitido de professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, um dos casos da perseguição que se abateu sobre o MUD.12 O funeral, a 27 de junho, é um momento simbólico de protesto contra o regime.1
1949

28 de janeiro de 1949· mulheres
Sessão da Comissão Feminina da candidatura de Norton de Matos
Na campanha de Norton de Matos à Presidência, Maria Lamas fala em nome das mulheres democratas numa sessão de apoio promovida pela Comissão Feminina da candidatura.1 Denuncia a lei eleitoral, que «exclui do sufrágio a grande massa de trabalhadoras e domésticas, especialmente as casadas», e pergunta: «Será que o Estado Novo tem medo da consciência esclarecida da mulher?»1 A Comissão Central do Movimento Nacional Democrático Feminino, que apoiava a candidatura, juntava Maria Lamas, Cesina Bermudes, Isabel Aboim Inglez, Ema Quintas Alves e Manuela Porto.34 Num discurso em Santarém, Cesina Bermudes apresentou as reivindicações que a Comissão Feminista defendia: «abolição do regulamento da prostituição, salário igual para trabalho igual, equiparação jurídica para ambos os sexos […] e sufrágio universal».2
Maria Lamas · Norton de Matos · Cesina Bermudes · Isabel Aboim Inglez · Manuela Porto

28 de janeiro de 1949· mulheres
Comício de Norton de Matos na Voz do Operário
Comício da candidatura presidencial de Norton de Matos na sede de A Voz do Operário, em Lisboa.1 Uma fotografia do espólio de Manuel Mendes mostra Isabel Aboim Inglez, Norton de Matos, Carvalhão Duarte, Câmara Reys e Mário de Azevedo Gomes, entre outros.12 Pelo papel que vinha tendo na oposição, Isabel Aboim Inglez viu fechado em fevereiro o colégio que dirigia, o Colégio Feminino Fernão de Magalhães.23

10 de fevereiro de 1949· mulheres
Comício da candidatura de Norton de Matos na Voz do Operário, com Maria Lamas e Cesina Bermudes
Num comício da candidatura de Norton de Matos na Voz do Operário, em Lisboa, estão Maria Lamas, Manuel João da Palma Carlos e a médica Cesina Bermudes, entre outros.123 Maria Lamas e Cesina Bermudes estavam na Comissão Central do Movimento Nacional Democrático Feminino, que apoiava a candidatura; Cesina era uma das dirigentes da Comissão Eleitoral Feminina em Lisboa e discursou em vários comícios.4
A Voz do Operário · Maria Lamas · Cesina Bermudes · Norton de Matos
- 1Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso: Candidatura de Norton de Matos [...] comício de Lisboa (Voz do Operário). Maria Lamas, Manuel João da Palma Carlos e Cesina Bermudes – fotografia (cota 04654.000.026)
- 2Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso: Candidatura de Norton de Matos [...] comício de Lisboa (Voz do Operário) (cota 04959.014.004)
- 3Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 4Wikipédia (português)

12 de fevereiro de 1949
Desistência de Norton de Matos às presidenciais
Em julho de 1948, o general Norton de Matos avançou com a candidatura à Presidência da República, que juntou republicanos, maçons, socialistas, liberais, comunistas, anarcossindicalistas, católicos e até alguns monárquicos.1 A campanha, iniciada em janeiro sob vigilância e censura, teve forte adesão em Beja, Évora e sobretudo no Porto, e nos comícios de Lisboa estiveram mulheres como Maria Lamas e Cesina Bermudes.1 A 7 de fevereiro, uma assembleia de delegados no Centro Republicano António José de Almeida, onde estava Cesina Bermudes, decidiu que o candidato não iria às urnas.3 Norton de Matos retirou-se por não ter garantias de uma eleição isenta, e Óscar Carmona foi reeleito sem adversário a 13 de fevereiro.21

22 de fevereiro de 1949· mulheres
Mário Soares e Maria Barroso casam por procuração na cadeia do Aljube
Preso a 15 de fevereiro, quando se dirigia ao Tribunal da Boa-Hora, onde ia ser julgada a comissão central do MUD Juvenil, Mário Soares casa uma semana depois com Maria Barroso, por procuração, na cadeia do Aljube. Um dos padrinhos, Manuel Mendes, também estava preso.12
Cadeia do Aljube · Tribunal da Boa-Hora · Mário Soares · Maria Barroso

25 de março de 1949, 05h00· mulheres
PIDE prende Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira
Às 5 da manhã, seis agentes da PIDE e vários elementos da GNR, armados, assaltam uma casa clandestina no Casal de Santo António, no Luso, e prendem três funcionários do PCP: Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira.1 Sofia Ferreira, a «Elvira», e Cunhal, o «Manuel», tinham alugado a casa em novembro de 1948 fazendo-se passar por um casal; Militão juntara-se-lhes meses depois, fugido à PIDE.1 Militão foi transferido em maio para a Penitenciária de Lisboa, onde morreu em janeiro de 1950, em greve de fome; Cunhal ficou preso onze anos, até fugir de Peniche.21 Sofia Ferreira ficou presa três anos, voltou a ser presa em 1959 e passou, ao todo, mais de treze anos nas prisões do regime.13
Penitenciária de Lisboa · Sofia Ferreira · Militão Ribeiro · Álvaro Cunhal

14 de outubro de 1949 a 14 de janeiro de 1950· mulheres
Prisão de Cesina Bermudes, dirigente do Movimento Nacional Democrático Feminino
A médica Cesina Bermudes, que na campanha de Norton de Matos estivera ao lado de Maria Lamas e Isabel Aboim Inglez, é presa por integrar a Comissão Central do Movimento Nacional Democrático Feminino e recolhida ao forte de Caxias.12 Libertada três meses depois, a 14 de janeiro de 1950, ficou impedida de ensinar na Faculdade de Medicina de Lisboa e passou a ensinar Puericultura em escolas industriais.12
Forte de Caxias — a prisão política · Cesina Bermudes · Maria Lamas · Isabel Aboim Inglez · Norton de Matos

7–24 de dezembro de 1949· mulheres
Prisão de Maria Lamas e de membros do Movimento Nacional Democrático
Maria Lamas, da Comissão Central do Movimento Nacional Democrático — que em outubro subscrevera, com Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, José Morgado e outros, um comunicado sobre as eleições de deputados —, é presa com outros membros do movimento e levada para Caxias.41 Segundo o MDM, estiveram presos com ela Virgínia Moura e Ruy Luís Gomes, entre outros.5 Foram libertados sob caução a 24 de dezembro.1 Foi a primeira de várias prisões de Maria Lamas, sempre recolhida a Caxias: voltaria a ser presa a 18 de julho de 1950 e em dezembro de 1953, no aeroporto.235
Forte de Caxias — a prisão política · Maria Lamas · Virgínia Moura
1950

2 de janeiro de 1950
Morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa
Doente, em isolamento há nove meses e em greve de fome em protesto contra o regime prisional, o dirigente comunista Militão Ribeiro morre na Penitenciária de Lisboa, aos 54 anos.12 Em cartas escritas dois meses antes acusava a PIDE de «envenenamento».1

2–9 de maio de 1950· mulheres
Álvaro Cunhal e Sofia Ferreira julgados no Tribunal Plenário
Catorze meses depois de presos juntos no Luso, Álvaro Cunhal e Sofia Ferreira são julgados no Tribunal Plenário, na Boa-Hora; o terceiro preso, Militão Ribeiro, morrera em janeiro.1 Cunhal, que estivera catorze meses incomunicável e preparara a defesa nesse isolamento, chama-lhe a 2 de maio «uma nova forma de tortura» e acaba a acusar: «então que se sentem os fascistas no banco dos réus».21 A 9 de maio, Sofia Ferreira é condenada a três anos de prisão.3 Cunhal fica preso onze anos seguidos, oito deles em isolamento, na Penitenciária de Lisboa e depois em Peniche.24
Tribunal da Boa-Hora · Penitenciária de Lisboa · Álvaro Cunhal · Sofia Ferreira · Militão Ribeiro
- 1Partido Comunista Português: Julgamento de Álvaro Cunhal (70 anos do julgamento e intervenção no tribunal a 2 de maio de 1950)
- 2Câmara Municipal de Lisboa — Comissão Municipal de Toponímia
- 3Partido Comunista Português: «Sofia foi uma combatente com uma enorme consciência de classe, generosa, inteligente e sagaz» (Centenário de Sofia Ferreira)
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
19 de junho de 1950· mulheres
Requerimento a Salazar contra os maus-tratos aos presos
Maria Lamas assina, com José Morgado, Albertina Macedo e Areosa Feio, um requerimento a Salazar, presidente do Conselho, sobre os maus-tratos aos presos políticos: lembra as mortes de Militão Bessa Ribeiro, José Moreira e Wenceslau Ramos e o enlouquecimento de José Augusto da Silva Martins.1 Um mês depois, a 18 de julho, é presa pela segunda vez.23

18 de julho de 1950· mulheres
Maria Lamas presa pela segunda vez
A escritora e ativista Maria Lamas é detida pela segunda vez e só sai em liberdade seis meses depois, após sentença em tribunal; na prisão escreve as suas «Cartas Políticas», que pensava publicar com o título «Cartas Humanas».1 Foi presa pela PIDE três vezes entre 1949 e 1962, e levada sempre para Caxias.12
1951

1951· mulheres
Centro de Estudos Africanos instala-se na Rua Actor Vale, 37
Estudantes africanos ligados à Casa dos Estudantes do Império — Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Francisco José Tenreiro, Agostinho Neto, entre outros — passaram a reunir-se na casa da família Espírito Santo, na Rua Actor Vale, 37, onde vivia Alda do Espírito Santo: ali se instalou o Centro de Estudos Africanos.14 Estudavam África e o colonialismo, numa estrutura fechada por causa da PIDE.23 Noémia de Sousa era uma dos «mais velhos» do grupo, que se desfez quando estes, com medo da PIDE, se dispersaram.1
Casa da família Espírito Santo — sede do Centro de Estudos Africanos · Casa dos Estudantes do Império (CEI) · Alda do Espírito Santo · Amílcar Cabral · Agostinho Neto · Noémia de Sousa
1952
21 de março de 1952· mulheres
Dissolução da Associação Feminina Portuguesa para a Paz
Por despacho do ministro do Interior, é dissolvida a Associação Feminina Portuguesa para a Paz, cinco anos depois de o regime fechar o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.12 Maria Lamas aceitara presidi-la em 1938; para a historiadora Virgínia Baptista, a associação manteve atividade apesar de extinta.2
Sede da Associação Feminina Portuguesa para a Paz · Maria Lamas
1953
3 de fevereiro de 1953
Massacre de Batepá em São Tomé
Em São Tomé, os protestos dos «forros» contra a imposição do trabalho forçado nas roças são reprimidos pelo governador Carlos Gorgulho com rusgas, torturas, assassinatos e deportações, que causam a morte de centenas de são-tomenses.1 O advogado oposicionista Manuel João da Palma Carlos denunciou o caso e defendeu os presos.1
8 de março de 1953· mulheres
Reunião clandestina de mulheres em Lisboa no Dia Internacional da Mulher
Seis anos depois de o regime extinguir o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, e apesar da proibição, algumas dezenas de mulheres reúnem-se em Lisboa para discutir a luta pela paz e a amnistia, conta o «Avante!»; é lido o comunicado da Federação Democrática Internacional de Mulheres para o Congresso Internacional de Mulheres.1

20 de dezembro de 1953· mulheres
Maria Lamas presa no aeroporto
Ao regressar de uma reunião do Conselho Mundial da Paz, Maria Lamas é presa pela PIDE no aeroporto, e com ela cerca de cinquenta pessoas que a esperavam, entre elas a pintora Maria Keil, Sofia Dias Coelho, Antónia Lapa e Maria Machado.1 Vinha de três meses de viagem por congressos da paz; à chegada do avião, esperava-a um agente da PIDE com nova ordem de prisão.2 Levada para Caxias, é libertada a 8 de janeiro de 1954.4
Aeroporto de Lisboa (Portela) · Forte de Caxias — a prisão política · Maria Lamas
1954

26 de janeiro de 1954
Encerrado (pela primeira vez) o campo do Tarrafal
Fecha pela primeira vez o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, aberto em 1936.12 Por ali passaram entre 340 e 375 presos — republicanos, socialistas, anarquistas, comunistas, combatentes da Guerra de Espanha — e morreram 32 a 34; Francisco Miguel foi o último a sair nesta fase.12 O campo reabriria em 1961, para os presos dos movimentos de libertação.1

19 de maio de 1954· mulheres
Catarina Eufémia morta pela GNR em Baleizão
Assalariada rural, Catarina Eufémia é morta a tiro pelo tenente Carrajola, da GNR, durante uma greve de trabalhadores alentejanos por melhores salários.1 Margarida Tengarrinha fez nesse ano uma gravura da sua morte, e José Afonso eternizou-a no «Cantar Alentejano».1
Margarida Tengarrinha · José Afonso (Zeca Afonso)

17 de dezembro de 1954
António Dias Lourenço foge do Forte de Peniche pelo mar
Dirigente do PCP, preso no Forte de Peniche desde 1953, António Dias Lourenço corta com uma faca a porta do «Segredo», a cela de castigo junto à muralha, desce por uma corda de cobertores, deixa-se cair ao mar e nada até terra.1 Trabalhadores de uma carrinha de peixe escondem-no e levam-no ao Bombarral.1
1956

4 de julho de 1956
Homologação dos estatutos da Sociedade Portuguesa de Escritores
Depois de reuniões na Casa do Alentejo desde maio de 1954, convocadas por Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, os estatutos da Sociedade Portuguesa de Escritores foram finalmente homologados por despacho ministerial.1 Nas eleições do dia seguinte, Aquilino Ribeiro ficou à frente da direção.1 Instalada primeiro na Rua das Taipas, a SPE fixou depois sede na Rua da Escola Politécnica, onde funcionou até ser extinta em 1965.1
1957

1957· mulheres
Prisão de Aida Magro, responsável clandestina da Zona Oriental de Lisboa

1957–1962
Reuniões do «Grupo do Café Gelo»
Entre 1957 e 1962, perto de trinta poetas e pintores dissidentes — Herberto Helder, Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, Natália Correia, entre outros — reuniram-se no Café Gelo, no Rossio.21 No 1.º de Maio de 1962, a polícia entrou no café e espancou quem lá estava; dias depois, o gerente, chamado à esquadra, disse-lhes que já não podiam ficar.2
outubro de 1957
I Congresso Republicano de Aveiro
Realiza-se em Aveiro o I Congresso Republicano, impulsionado por Mário Sacramento, que prepara a oposição para as eleições presidenciais do ano seguinte; o II Congresso só voltaria a reunir em 1969.1

dezembro de 1957
Nacionalistas das colónias fundam em Paris o Movimento Anti-Colonialista
Reunidos em Paris, nacionalistas das colónias portuguesas que estudavam na Europa, ligados sobretudo à Casa dos Estudantes do Império — como Mário de Andrade, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Lúcio Lara —, fundam o Movimento Anti-Colonialista (MAC).1 O seu manifesto foi, para Cabral, «o prefácio da nossa luta».1
Casa dos Estudantes do Império (CEI) · Amílcar Cabral · Agostinho Neto
1958–1968
De Delgado à guerra
A candidatura de Humberto Delgado abala o regime. Seguem-se as revoltas, as fugas das prisões, a guerra colonial e a crise académica de 1962.
1958

10 de maio de 1958
Humberto Delgado: «Obviamente, demito-o!»
Na conferência de imprensa no Café Chave d'Ouro, em Lisboa, o general Humberto Delgado, candidato da oposição à Presidência, responde assim ao correspondente da France Presse, que lhe pergunta o que fará de Salazar se for eleito.123 A frase incendeia o país.54

16 de maio de 1958
Chegada de Humberto Delgado a Santa Apolónia
Depois de uma multidão o receber no Porto, a 14 de maio — as fotografias do comício foram proibidas nos jornais —, Humberto Delgado regressa a Lisboa.5 Espera-o gente de Santa Apolónia ao Terreiro do Paço; a PIDE desvia a caravana do general para a zona oriental e a GNR carrega sobre os apoiantes no Terreiro do Paço, no Rossio, nos Restauradores e nas ruas da Baixa.14 Em 2008, uma placa na estação passou a lembrar a chegada do general.32
Estação de Santa Apolónia · Rossio (Praça de D. Pedro IV) · Terreiro do Paço (Praça do Comércio) · Humberto Delgado

18 de maio de 1958
Comício de Humberto Delgado no Liceu Camões
Humberto Delgado discursou num comício no ginásio do Liceu de Camões; o texto do discurso guarda-se no espólio de Manuel Mendes.1 Depois deste comício repetiram-se as cargas policiais da chegada a Santa Apolónia.2
junho de 1958· mulheres
Grande greve do Couço e a luta das mulheres do Couço
Junho de 1958 fica marcado pela «grande greve do Couço», terra muito castigada pela repressão, que somou mais de 200 prisões entre 1933 e o 25 de Abril.1 As mulheres do Couço, como Maria Carmina e Rosa Viseu, estiveram nas praças de jorna, nas lutas pelas oito horas e ao lado dos presos.1

8 de junho de 1958
Eleição presidencial de 1958 e fraude contra Humberto Delgado
A candidatura de Humberto Delgado, apoiada por toda a oposição depois da desistência de Arlindo Vicente, abala o regime.25 Com intimidações, proibição da fiscalização e falsificação de resultados, o regime proclamou a eleição de Américo Tomás.21 Delgado obteve oficialmente 23% dos votos, resultado nunca publicado no Diário do Governo; pouco depois, o regime acabou com a eleição direta do Presidente da República.3 Seguiram-se greves e prisões: um dos presos, o operário Raul Alves, morreria na sede da PIDE.4
- 1Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Humberto da Silva Delgado (biografia)
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 3Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Raul Alves (biografia)
- 5Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 6Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

31 de julho de 1958
Raul Alves cai do 3.º andar da sede da PIDE
Preso a 16 de julho, depois das greves da Companhia Industrial Portuguesa contra a fraude eleitoral de junho, o operário Raul Alves passa por Caxias e pelo Aljube; a 31, depois de torturado, é lançado por agentes de uma janela do 3.º andar da sede da PIDE, perante testemunhas.31 A PIDE fala em suicídio.3 A embaixatriz do Brasil, que viu a queda, conta-o ao cardeal Cerejeira, que escreve ao ministro do Interior; do ministério chega a resposta: «Trata-se, apenas, de um comunista sem importância».13 No mesmo piso tinham morrido António Almeida, em 1949, e João Moreira, em 1950.2
Sede da PVDE / PIDE / DGS · Cadeia do Aljube · Forte de Caxias — a prisão política · Raul Alves

26 de setembro de 1958
O guitarrista Carlos Paredes preso no local de trabalho
Funcionário administrativo do Hospital de São José desde 1949, o guitarrista Carlos Paredes é preso no local de trabalho, acusado de pertencer ao PCP.1 Passa um mês no Aljube e segue para Caxias: são 15 meses de prisão até ao julgamento no Tribunal Plenário, em 1959, a que se segue a expulsão da função pública.1
Hospital de São José · Cadeia do Aljube · Forte de Caxias — a prisão política
1959
16 de janeiro de 1959
Henrique Galvão foge do Hospital de Santa Maria
Condenado a 19 anos de prisão e internado sob vigilância da PIDE, o opositor Henrique Galvão foge de madrugada do Hospital de Santa Maria; dias depois refugia-se na Embaixada da Argentina, de onde parte em maio para o exílio.1 Dois anos mais tarde comandaria o assalto ao paquete Santa Maria.1

11 de março de 1959, 23h00
Revolta da Sé (Movimento Militar Independente)
Golpe civil e militar de inspiração sobretudo católica, preparado depois da fraude eleitoral de 1958 por uma junta em que estavam os majores Luís Cesariny Calafate e Pastor Fernandes.13 Na noite de 11 de março, os chefes dos grupos civis concentraram-se nos claustros da Sé de Lisboa; às 23 horas, Pastor Fernandes mandou dispersar — o Governo sabia de tudo.3 A PIDE prendeu 44 pessoas, a primeira das quais Manuel Serra, a «alma civil» da conspiração; alguns, como o jovem Jaime Conde, foram parar à cadeia do Aljube, ali ao lado.32

3 de agosto de 1959
Massacre de Pidjiguiti, no porto de Bissau
Marinheiros e estivadores do porto de Pidjiguiti, em Bissau, em greve por melhores salários, são violentamente reprimidos pelas autoridades coloniais: cerca de 50 mortos e uma centena de feridos.1 O massacre foi decisivo para a organização do PAIGC, de Amílcar Cabral, que em 1963 passaria à luta armada.12

15 de outubro de 1959· mulheres
Prisão de Maria Alda Nogueira na Avenida da Liberdade
Clandestina desde 1949, Maria Alda Nogueira é presa pela PIDE num táxi, na Avenida da Liberdade.31 Julgada no Tribunal Plenário a 22 de outubro de 1960, com Maria Lamas e Isabel Aboim Inglez entre as testemunhas abonatórias, é condenada a oito anos de prisão e medidas de segurança, que cumpre em Caxias.13 A CIG apresenta-a como a primeira mulher em Portugal condenada à prisão por motivos políticos.2
Tribunal da Boa-Hora · Forte de Caxias — a prisão política · Maria Alda Nogueira · Maria Lamas · Isabel Aboim Inglez
1960

janeiro de 1960
Fundado em Caracas o Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação
Opositores portugueses e espanhóis no exílio criam em Caracas o Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), para derrubar as ditaduras ibéricas pela ação armada.1 Henrique Galvão, fugido de Lisboa um ano antes, assina pela parte portuguesa, em representação de Humberto Delgado.1 A ação mais espetacular do DRIL seria o assalto ao paquete Santa Maria.1

3 de janeiro de 1960, 16h00
Fuga de Peniche: Álvaro Cunhal e outros nove dirigentes evadem-se
Às 4 da tarde, um carro conduzido pelo ator Rogério Paulo dá o sinal e dez presos do PCP — entre eles Álvaro Cunhal, Jaime Serra e Francisco Miguel — fogem do Forte de Peniche, acompanhados por um guarda da GNR.123 A fuga foi preparada cá fora por Pires Jorge e por António Dias Lourenço, ele próprio fugido de Peniche em 1954, com a ajuda de Octávio Pato e Rui Perdigão; Margarida Tengarrinha ilustrou-a.15 Depois dela, a vigilância apertou: passou a haver dois guardas em cada posto.4
Fortaleza de Peniche — a cadeia política · Álvaro Cunhal · Margarida Tengarrinha
- 1Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Fuga de Peniche
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 3Museu Nacional Resistência e Liberdade (Peniche)
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): António Dias Lourenço – Fuga de Peniche
16 de junho de 1960
Massacre de Mueda, no norte de Moçambique
Num encontro convocado pelo governador de Cabo Delgado com representantes macondes, a ordem de prisão destes provoca protestos e as autoridades abrem fogo.1 O número de mortos é incerto: 14 segundo relatórios portugueses, 16 segundo testemunhas diretas, 150 segundo a FRELIMO e até 600 segundo alguma bibliografia.1 Foi um dos últimos episódios de resistência antes da guerra em Moçambique.1
1961

1961
Tarrafal reabre para presos dos movimentos de libertação
Com o início da guerra colonial, o campo do Tarrafal reabre para os nacionalistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde; os primeiros presos, vindos de Angola, chegam em fevereiro de 1962.123 Por ali passaram 227 homens, quatro dos quais lá morreram; os últimos só seriam libertados a 1 de maio de 1974.1
4 de janeiro de 1961
Revolta da Baixa do Cassanje, em Angola
Nos campos de algodão da Cotonang, em Malanje, os camponeses recusam trabalhar e queimam as sementes, contra a cultura obrigatória e o trabalho forçado.1 A repressão, com aldeias bombardeadas com napalm, causou entre largas centenas e dez mil mortos; a revolta é lembrada como a génese da luta de libertação de Angola.12

22 de janeiro a 2 de fevereiro de 1961
Operação Dulcineia: Henrique Galvão toma o paquete Santa Maria
Em colaboração com Humberto Delgado e o DRIL, Henrique Galvão — fugido do Hospital de Santa Maria dois anos antes — toma de assalto o paquete Santa Maria, ao largo das Caraíbas, com mais de 600 passageiros a bordo, e rebatiza-o «Santa Liberdade»: a «Operação Dulcineia» chama a atenção do mundo para a ditadura portuguesa.123 O sequestro termina a 2 de fevereiro, no Recife, depois de o novo presidente do Brasil, Jânio Quadros, garantir asilo a Galvão.2
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): O Assalto ao Santa Maria
- 3Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL)
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Operação Vagô
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade
- 6Wikipédia: Oposição à ditadura portuguesa
- 7Wikipédia: Eleições presidenciais portuguesas de 1958
31 de janeiro de 1961
Oposição divulga o «Programa para a Democratização da República»
Um grupo de cidadãos da Oposição Democrática torna público o «Programa para a Democratização da República».1
4 de fevereiro de 1961
Assalto às cadeias de Luanda inicia a luta armada em Angola
Na madrugada de 4 de fevereiro, cerca de 200 homens armados de catanas, facas e algumas pistolas atacam a Casa de Reclusão Militar, a Companhia Móvel da PSP e outras cadeias de Luanda para libertar presos nacionalistas.12 Nos dias seguintes, a repressão nos musseques causa centenas de mortos e feridos; a data marca o início da luta armada pela independência de Angola.1
15 de março de 1961
Ataques da UPA no norte de Angola: começa a guerra colonial
A União dos Povos de Angola ataca povoações e fazendas no norte de Angola, matando colonos brancos e trabalhadores negros.1 Salazar envia tropas — «para Angola rapidamente e em força», dirá em abril, depois de sobreviver ao golpe de Botelho Moniz — e começa uma guerra que se arrastará até 1974.21

11–12 de abril de 1961
Golpe Botelho Moniz («Abrilada» de 1961)
O ministro da Defesa, general Júlio Botelho Moniz, com outros altos comandos, tentou afastar Salazar por via institucional, perante a guerra que começava em Angola.1 Américo Tomás recusou demitir o chefe do Governo, os preparativos foram denunciados e o golpe fracassou; vários chefes militares foram exonerados.1 Entre os implicados estava o então coronel Francisco da Costa Gomes, que pôde prosseguir a carreira.1 Salazar sobrevive e manda tropas «para Angola rapidamente e em força».4
21 de abril de 1961
Parte para Angola, no «Niassa», o primeiro contingente de tropas
Oito dias depois de Salazar assumir a pasta da Defesa — «Angola, andar rapidamente e em força» —, embarca no paquete «Niassa», no cais da Rocha do Conde de Óbidos, o primeiro contingente enviado por mar para a guerra em Angola; chega a Luanda a 1 de maio. Dois dias antes partira o primeiro contingente por avião.1 A partir desse dia, o cais da Rocha do Conde de Óbidos foi sobretudo o lugar de partida de centenas de milhares de homens para a guerra colonial.2
28 de abril de 1961· mulheres
Fundação do Movimento Nacional Feminino (pró-regime)
Cecília Supico Pinto, mulher de um antigo ministro de Salazar, funda o Movimento Nacional Feminino, que até 1974 mobiliza mulheres em apoio ao regime e à guerra colonial: as «madrinhas de guerra» escreviam aos soldados, e o movimento editou mais de 300 milhões de aerogramas.21 Impulsionado diretamente pela ditadura, fazia parte de uma estratégia para levar o país a aceitar a guerra — o contraponto oficial às organizações de mulheres da oposição.2
8 de agosto de 1961· mulheres
As «Seis Marias», primeiras enfermeiras paraquedistas
No campo do Arrepiado, junto a Tancos, Maria Arminda dos Santos, Maria de Lourdes Rodrigues, Maria da Nazaré Andrade, Maria do Céu Policarpo, Maria Ivone Reis e Maria Zulmira André fazem o último salto do curso e recebem a boina verde: são as primeiras enfermeiras paraquedistas da Força Aérea, e a imprensa, que as põe na primeira página, chama-lhes as «Seis Marias».1 Ao longo da guerra colonial, as enfermeiras paraquedistas evacuaram feridos na frente de combate e nos voos para Lisboa.1
10 de novembro de 1961· mulheres
Operação Vagô: desvio de avião e panfletos sobre Lisboa
Palma Inácio, Maria Helena Vidal e outros quatro opositores tomam o comando de um voo da TAP de Casablanca para Lisboa e lançam sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro milhares de panfletos contra a farsa das eleições para a Assembleia Nacional, marcadas para dias depois; o avião aterra em Tânger.12 A operação fora concebida por Henrique Galvão, que em janeiro comandara o assalto ao Santa Maria; foi o primeiro desvio de um avião por motivos políticos em Portugal.2
11 de novembro de 1961
Cândido Capilé morto a tiro numa manifestação em Almada
Uma manifestação contra a burla eleitoral, que exigia «Liberdade, Paz e Amnistia para os presos políticos», segue da Cova da Piedade para Almada e é atacada a tiro; o operário corticeiro Cândido Martins Capilé, de 28 anos, é morto.12 José Dias Coelho desenhou a cena para o «Avante!».1

4 de dezembro de 1961, 09h35
Fuga de Caxias no carro blindado de Salazar
Oito dirigentes do PCP — entre eles Domingos Abrantes — fogem do Forte de Caxias no Chrysler Imperial blindado que estivera ao serviço de Salazar.12 Ao volante vai António Tereso, mecânico em quem os guardas confiavam por o julgarem «rachado»; ao grito de «Golo!», os presos entram no carro, que arranca pelo túnel e rebenta o portão exterior.12
Forte de Caxias — a prisão política · António Tereso · Domingos Abrantes
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Conceição Matos e Domingos Abrantes contam juntos, num testemunho recolhido pelo museu a 7 de outubro de 2015, a clandestinidade, as prisões e a tortura. As palavras-chave do museu incluem a prisão do Aljube, Caxias, os interrogatórios da PIDE e a fuga de Caxias.
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

15 de dezembro de 1961· mulheres
Albina Fernandes presa com os filhos pequenos
Na clandestinidade com Octávio Pato, Albina Fernandes é presa no mesmo dia que o companheiro e leva consigo para Caxias os dois filhos, de seis e dois anos: descansava de joelhos no chão, agarrada aos pulsos deles, «para que não mos tirassem».12 A PIDE ameaça entregá-los a uma instituição, mas ela consegue que fiquem com os avós paternos, a quem são entregues a 10 de janeiro de 1962.23 Julgada a 17 de novembro de 1962, fica seis anos e sete meses presa.12
18–19 de dezembro de 1961
União Indiana ocupa Goa, Damão e Diu

19 de dezembro de 1961
A PIDE assassina o escultor José Dias Coelho em Alcântara
O escultor e militante comunista José Dias Coelho é emboscado por agentes da PIDE em Alcântara e morto a tiro na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome.143 A companheira, Margarida Tengarrinha, só soube da morte a 26 de dezembro, no dia do enterro, e dedicou a vida a manter viva a sua memória.24 José Afonso evocou-o em «A Morte Saiu à Rua».46
Rua da Creche (local do assassinato de José Dias Coelho) · José Dias Coelho · Margarida Tengarrinha · José Afonso (Zeca Afonso)
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Testemunho de Margarida Tengarrinha recolhido pelo Museu do Aljube a 8 de março de 2017, publicado em 2021. Pelas palavras-chave do museu, percorre o MUD Juvenil, a vida clandestina no PCP, o aparelho de falsificação de documentos, a imprensa clandestina e José Dias Coelho.
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
RTP Arquivos: A Mulher e o Fascismo: Mulheres que Lutaram – Parte I
RTP Arquivos: A Mulher e o Fascismo: Mulheres que Lutaram – Parte II
1962

1962· mulheres
Isabel do Carmo, a primeira estudante a falar num plenário
Aluna de Medicina, Isabel do Carmo é a primeira mulher a tomar a palavra num plenário da crise académica de 1962, no Estádio Universitário.1 A PIDE registou que disse falar «como uma delas, como qualquer delas» e que sugeriu oferecer flores à polícia, «as armas mais bonitas criadas em Portugal».1
Cidade Universitária de Lisboa (Estádio Universitário e faculdades) · Isabel do Carmo

1 de janeiro de 1962
Revolta de Beja
Revolta militar e civil no quartel de Infantaria 3, em Beja, comandada pelo capitão João Varela Gomes, com Manuel Serra como líder civil.1 Humberto Delgado e a secretária, Arajaryr Campos, tinham entrado clandestinamente no país para participar.24 A revolta fracassou, mas quebrou um ciclo de trinta anos sem a oposição pegar em armas; o processo que se seguiu, com 86 réus, foi o maior do Estado Novo.13 A tentativa falha e os militares envolvidos são presos e expulsos das Forças Armadas.5

15 de fevereiro de 1962· mulheres
Prisão de Stella Piteira Santos
Stella Piteira Santos, antiga associada da Associação Feminina Portuguesa para a Paz e do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, é presa e torturada pela PIDE.2 Ajudara a levar Humberto Delgado para a Revolta de Beja, e a polícia procurava o marido, Fernando Piteira Santos; passa quase dois meses em Caxias, numa cela com Maria Alda Nogueira, Sofia Ferreira e Cândida Ventura.1 Exila-se depois em Argel, onde será a voz da Rádio Voz da Liberdade.21
Forte de Caxias — a prisão política · Stella Piteira Santos · Maria Alda Nogueira · Sofia Ferreira · Humberto Delgado
8 de março de 1962· mulheres
Mulheres manifestam-se no Porto contra a guerra e a repressão
12 de março de 1962
Começa a emitir a Rádio Portugal Livre

24 de março de 1962
Proibido o Dia do Estudante: começa a crise académica de 1962
Na manhã de 24 de março, os estudantes concentram-se na Cidade Universitária, desafiando a proibição das comemorações do Dia do Estudante; a polícia espanca e prende, ocupa instalações e cantinas.1 A luta prolonga-se por meses: as associações de Lisboa e de Coimbra declaram o luto académico, Coimbra solidariza-se e a Associação Académica de Coimbra é encerrada.32 A data é hoje o Dia Nacional do Estudante.1
Cidade Universitária de Lisboa (Estádio Universitário e faculdades)
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Helena Cabeçadas conta ao Museu do Aljube o movimento associativo dos liceus, a crise académica de 1962, que viveu aos 14 anos, e a prisão de 1965, quando foi levada ao Governo Civil e a Caxias. Expulsa de todas as escolas do país, partiu sozinha para o exílio na Bélgica aos 17 anos.
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26 de março de 1962· mulheres
Declaração do luto académico
As associações de estudantes de Lisboa e de Coimbra declararam o «luto académico» — greve às aulas, um direito proibido pela ditadura.1 Os plenários ao ar livre, junto às faculdades e no Estádio Universitário, tornaram-se a forma de decisão do movimento; num deles falou pela primeira vez uma mulher, a estudante de Medicina Isabel do Carmo.12
Cidade Universitária de Lisboa (Estádio Universitário e faculdades) · Isabel do Carmo

5–12 de abril de 1962
Marcelo Caetano pede a demissão de reitor
Quando o Governo voltou a proibir o Dia do Estudante, que tinha aceitado remarcar para 7 e 8 de abril, o reitor Marcelo Caetano — que da varanda da Reitoria defendera perante os estudantes a autonomia universitária —, sentindo-se desautorizado, pediu a demissão; o luto académico foi retomado.12 O mandato terminou a 12 de abril de 1962.3

27 de abril de 1962· mulheres
Prisão das Mulheres do Couço
Na madrugada de 27 de abril, a PIDE, com a GNR, prende no Couço cinco mulheres e dez homens que preparavam a luta pelas oito horas de trabalho nos campos: Maria Custódia Chibante, Maria da Conceição Figueiredo, Maria Galveias, Maria Madalena e Olímpia Brás ficariam conhecidas como as Mulheres do Couço.21 Nos interrogatórios na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, são torturadas com espancamentos, privação de sono e «estátua»: Maria Custódia passa ali 98 horas sem falar, 75 delas sem dormir, e é levada em braços para Caxias.213 Maria Galveias, presa com a filha em idade escolar, é interrogada onze dias e onze noites.1
Forte de Caxias — a prisão política · Sede da PVDE / PIDE / DGS

1 de maio de 1962
1.º de Maio de 1962 na Baixa de Lisboa
Em plena crise académica, operários e estudantes manifestam-se na Baixa gritando «Temos fome!», «Liberdade!», «Abaixo a PIDE!»; há confrontos no Terreiro do Paço, no Carmo, no Rossio, no Martim Moniz e em Alcântara, e a polícia de choque, a GNR, a PIDE e a Legião Portuguesa reprimem até à noite.13 Junto ao Largo do Caldas, uma rajada de metralhadora da polícia mata o tipógrafo Estêvão Giro, de 25 anos.152 No Rossio, a polícia entrou no Café Gelo e espancou quem lá estava.64
Rossio (Praça de D. Pedro IV) · Largo do Caldas / Rua da Madalena · Café Gelo · Terreiro do Paço (Praça do Comércio) · Estêvão Giro

9 de maio de 1962
Greve de fome na Cantina da Cidade Universitária
Por proposta de Eurico de Figueiredo, 81 estudantes começam uma greve de fome na cantina da Cidade Universitária, e cerca de 1500 colegas ficam com eles, em solidariedade.12 Na madrugada de 11 de maio, a polícia de choque cerca a cantina e prende-os um a um, apesar da mediação de professores como Luís Lindley Cintra; alguns seguem para Caxias, onde um grupo de estudantes presas continua a recusar a comida.23
Cantina da Cidade Universitária · Cidade Universitária de Lisboa (Estádio Universitário e faculdades) · Forte de Caxias — a prisão política · Eurico de Figueiredo · Luís Filipe Lindley Cintra

15 de maio de 1962· mulheres
Escritores da SPE solidarizam-se com os estudantes
Membros da Sociedade Portuguesa de Escritores — entre eles Sophia de Mello Breyner Andresen, José Cardoso Pires, José Saramago e Aquilino Ribeiro — assinaram um abaixo-assinado de solidariedade com as associações de estudantes em luta.12 Três anos depois, o Governo extinguiria a SPE.1
Sociedade Portuguesa de Escritores (sede) · Sophia de Mello Breyner Andresen

28 de maio de 1962
Prisão de Eurico de Figueiredo
Presidente da Comissão Pró-Associação dos Estudantes de Medicina, já expulso da universidade, Eurico de Figueiredo é preso e levado para o Aljube.1 A prisão motiva um forte movimento de solidariedade estudantil, com manifestações reprimidas pela polícia, até à sua libertação.1 No mesmo dia, alguém fotografou da varanda da Casa dos Estudantes do Império um camião da polícia de choque.2
Cadeia do Aljube · Casa dos Estudantes do Império (CEI) · Eurico de Figueiredo
junho de 1962 a 3 de dezembro de 1969· mulheres
Exílio de Maria Lamas em Paris
Perseguida, Maria Lamas exila-se em Paris, onde apoia os refugiados portugueses que lá chegam e mantém a atividade nos congressos internacionais de mulheres e da paz.541 Regressa a Portugal a 3 de dezembro de 1969 e vai viver para Évora, com a filha.1

4 de junho de 1962
Carga policial na Faculdade de Medicina; Lindley Cintra agredido
A polícia de choque carregou sobre estudantes e professores à entrada da Faculdade de Medicina.2 O filólogo Luís Lindley Cintra, professor de Letras que tentava dialogar com a polícia, foi agredido e assistido no hospital; a agressão valeu-lhe a solidariedade dos colegas, e os estudantes ofereceram-lhe depois um quadro do pintor Fernando Azevedo.1
Cidade Universitária de Lisboa (Estádio Universitário e faculdades) · Luís Filipe Lindley Cintra

15 de junho de 1962
Plenário no Técnico suspende o luto académico
Com a época de exames à porta, um plenário no Instituto Superior Técnico votou por maioria a suspensão do luto académico; a contestação continuou em torno da prisão dos dirigentes, sobretudo de Eurico de Figueiredo, e dos processos disciplinares.1 No fim de junho, um despacho ministerial expulsou 21 grevistas, por 30 meses, de todas as escolas de Lisboa.2

20 de junho de 1962
Manifestação pela libertação do estudante Eurico de Figueiredo
Uma manifestação de apoio ao dirigente estudantil Eurico de Figueiredo, preso no Aljube, devia terminar junto à cadeia, mas uma carga da polícia de choque perto da Sé dispersa-a; os estudantes seguem para a Baixa gritando «Liberdade! Autonomia!».1
Sé Patriarcal de Lisboa · Cadeia do Aljube · Eurico de Figueiredo

dezembro de 1962
Fundada a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN)
Setores da oposição criam a Frente Patriótica de Libertação Nacional, um movimento unitário com delegação no exterior instalada na Argélia, onde funcionará até ao 25 de Abril.12 Humberto Delgado assumiria a sua presidência em 1964, para romper com ela meses depois.1
1963

janeiro de 1963
Nasce a revista «O Tempo e o Modo»
Fundada por católicos progressistas como António Alçada Baptista, seu primeiro diretor, e João Bénard da Costa, com socialistas laicos como Mário Soares e jovens vindos das lutas estudantis de 1962, a revista «O Tempo e o Modo» torna-se um dos principais espaços de debate e de oposição à ditadura.1

23 de janeiro de 1963
Começa a luta armada do PAIGC na Guiné
O PAIGC, dirigido por Amílcar Cabral, inicia a luta armada contra o colonialismo português na Guiné, menos de quatro anos depois do massacre de Pidjiguiti.12
18 de março de 1963· mulheres
Fim da proibição do casamento das enfermeiras
O Decreto-Lei n.º 44 923, de 18 de março, passa a admitir na enfermagem hospitalar mulheres casadas e viúvas com filhos, «quando as necessidades de serviço aconselhem essa admissão».2 Caía, depois de uma luta de 25 anos, a regra imposta em 1938 e reafirmada em 1942, que só aceitava solteiras ou viúvas sem filhos.13 Mas o próprio diploma repetia que o lugar da mulher casada era o lar, «onde lhe está reservada a mais nobre missão».2
1964

1 de maio de 1964
Morte de David Almeida Reis junto ao Elevador da Glória
Durante a manifestação do 1.º de Maio, o trabalhador David Almeida Reis é morto por agentes da PIDE em frente ao então café Palladium, junto ao Elevador da Glória, nas imediações do Palácio Foz.1
Palácio Foz – Secretariado de Propaganda Nacional / Secretariado Nacional de Informação (SPN/SNI)

julho de 1964· mulheres
Prisão de Maria Lourença Cabecinha
A funcionária clandestina do PCP Maria Lourença Cabecinha, trabalhadora rural alentejana, é presa e levada para Caxias, onde sofre interrogatórios penosos e tortura psicológica; na prisão aprende Matemática e Geografia com Maria Alda Nogueira.1 Condenada em janeiro de 1965 a dois anos e dez meses de prisão maior e a medidas de segurança, só sai em setembro de 1969.1
Forte de Caxias — a prisão política · Maria Lourença Cabecinha · Maria Alda Nogueira
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Três mulheres do campo — Eulália Miranda, Hermínia Vicente e Maria Lourença Cabecinha — num testemunho conjunto recolhido pelo Museu do Aljube a 19 de outubro de 2016. Segundo as palavras-chave do museu, falam da luta pelas 8 horas de trabalho, da clandestinidade no PCP, dos filhos de clandestinos, da prisão e dos interrogatórios em Caxias.
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
25 de setembro de 1964
Começa a luta armada da FRELIMO em Moçambique
A FRELIMO inicia a luta armada em Moçambique, a terceira frente da guerra colonial, depois de Angola e da Guiné.1 Mueda, onde em 1960 as autoridades tinham aberto fogo sobre os macondes, é lembrada como o prenúncio desta guerra.1
1965

26 de janeiro de 1965
Manifestação frente ao Aljube pela libertação de estudantes
A 21 de janeiro a PIDE prende cerca de meia centena de dirigentes estudantis da Universidade de Lisboa e fecha-os nos «curros» do Aljube; no Dia da Universidade, uma mãe interrompe o reitor a gritar «Libertem o meu filho».1 A 26, familiares e estudantes manifestam-se à porta da cadeia e são carregados pela polícia de choque.1 Meses depois, a cadeia do Aljube seria encerrada.1

13 de fevereiro de 1965· mulheres
PIDE assassina Humberto Delgado e Arajaryr Campos
O general Humberto Delgado e a sua secretária, Arajaryr Campos, são assassinados por uma brigada da PIDE numa emboscada em Espanha, perto de Badajoz: era a «Operação Outono», preparada desde o golpe de Beja.4153 Os corpos só foram encontrados em abril, em Villanueva del Fresno, perto da fronteira.42 Em 1990, os restos do general foram trasladados para o Panteão Nacional.6
Igreja de Santa Engrácia – Panteão Nacional · Humberto Delgado · Arajaryr Campos
- 1Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Frente Patriótica de Libertação Nacional
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 3Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Candidatura de Humberto Delgado – uma jornada de resistência
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Humberto da Silva Delgado (biografia)
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Arajaryr Canto Moreira Campos (biografia)
- 6Panteão Nacional – Museus e Monumentos de Portugal

21 de abril de 1965· mulheres
Prisão e tortura de Conceição Matos
Às quatro da manhã, a PIDE, com a GNR, entra na casa do Montijo onde vivia na clandestinidade Conceição Matos; horas depois prende também o companheiro, Domingos Abrantes, que fugira de Caxias em 1961.13 Levada para a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, e depois para Caxias, passa ano e meio presa; nos interrogatórios é espancada, despida e humilhada, sem nunca falar.123
Sede da PVDE / PIDE / DGS · Forte de Caxias — a prisão política · Conceição Matos · Domingos Abrantes
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Conceição Matos e Domingos Abrantes contam juntos, num testemunho recolhido pelo museu a 7 de outubro de 2015, a clandestinidade, as prisões e a tortura. As palavras-chave do museu incluem a prisão do Aljube, Caxias, os interrogatórios da PIDE e a fuga de Caxias.
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21 de maio de 1965, 22h00
Extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores e assalto à sede
Depois de a Sociedade Portuguesa de Escritores premiar «Luuanda», de Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, o ministro da Educação Nacional extinguiu-a por despacho.23 Nessa noite, pelas 22 horas, a sede, na Rua da Escola Politécnica, foi assaltada e saqueada por «desconhecidos» apoiados pela PIDE, que deixaram o letreiro «Agência dos terroristas na Metrópole».1 Todo o júri foi interrogado pela PIDE — incluindo Fernanda Botelho, a única mulher — e três jurados, Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira e Manuel da Fonseca, ficaram detidos.14
Sociedade Portuguesa de Escritores (sede) · Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde) · José Luandino Vieira · Fernanda Botelho

agosto de 1965
Fecha a cadeia política do Aljube
Depois de protestos nacionais e internacionais contra as condições dos «curros» — entre eles a visita, em 1963, do deputado britânico Lord Russell of Liverpool —, a cadeia política do Aljube é encerrada e os presos passam para Caxias, onde o Reduto Norte é ampliado para os receber.143 Meses antes, a manifestação à porta da cadeia pela libertação dos estudantes ali presos fora carregada pela polícia.2

6 de setembro de 1965
Encerramento da Casa dos Estudantes do Império
O ministro da Educação Nacional dissolve a Casa dos Estudantes do Império, a pretexto de não estar ligada a nenhuma instituição de ensino; a PIDE interroga a direção, instala-se nos edifícios e confisca arquivos, biblioteca e mobiliário.13 Terminavam vinte e um anos de uma casa por onde tinham passado Agostinho Neto, Amílcar Cabral e muitos outros futuros dirigentes dos movimentos de libertação.4
Casa dos Estudantes do Império (CEI) · Agostinho Neto · Amílcar Cabral

4 de outubro de 1965
Manifesto dos «101 católicos» contra a política colonial
É publicado o manifesto dos «101 católicos contra a política colonial da ditadura», que reúne figuras como Alçada Baptista, Helena Cidade Moura, João Bénard da Costa, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner Andresen e Nuno Teotónio Pereira.12 O manifesto marca o apoio declarado de setores católicos à oposição e denuncia abertamente Salazar e o regime.1
1966

1966· mulheres
Natália Correia publica a «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», que a censura apreende
A poeta Natália Correia, apoiante de Humberto Delgado, publica pela Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello, a «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», dos cancioneiros medievais à atualidade, com ilustrações de Cruzeiro Seixas; a censura apreende-a e abre-se um longo processo judicial, cuja primeira peça tem data de 17 de janeiro de 1966.32 A sentença só viria a 21 de março de 1970, no fim do julgamento no Tribunal Plenário.3 Mais tarde, como diretora literária da Estúdios Cor, Natália seria processada pela publicação das «Novas Cartas Portuguesas».1
25 de novembro de 1966· mulheres
Novo Código Civil mantém o marido como «chefe da família»
O Decreto-Lei n.º 47 344 aprova o novo Código Civil, que entra em vigor a 1 de junho de 1967. O artigo 1674.º, «Poder marital», diz que «o marido é o chefe da família, competindo-lhe nessa qualidade representá-la e decidir em todos os actos da vida conjugal comum».1 À mulher cabe o governo doméstico; fora das profissões liberais e da função pública, se não tiver dado o seu consentimento, o marido pode fazer cessar a qualquer altura o contrato de trabalho da mulher.2 Para a jurista Elina Guimarães, o Código restabelecia em abstrato o poder marital, ainda que alargasse na prática a capacidade da mulher casada.2 O «chefe de família» só desapareceu com a revisão de 1977.3
1967
17 de maio de 1967
LUAR assalta o Banco de Portugal na Figueira da Foz
Na «Operação Mondego», dirigida por Palma Inácio — o mesmo que em 1961 desviara um avião da TAP —, a LUAR assalta a agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz para financiar a luta contra a ditadura.123 Os assaltantes fogem de avioneta, fingem rumar ao Norte de África e chegam, por Espanha, a França.1

junho de 1967· mulheres
Prisão de Helena Pato
Helena Pato, ativa no PCP e na Comissão de Socorro aos Presos Políticos, é presa e levada para Caxias.1 Suspeita de ligações à luta armada, sofre um longo isolamento, agressões e tortura do sono, até ser libertada em novembro.1
Forte de Caxias — a prisão política · Helena Pato
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Helena Pato conta, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 30 de setembro de 2015, a prisão pela PIDE, os interrogatórios, a tortura e o isolamento em Caxias. As palavras-chave do museu apontam também as mulheres, a solidariedade e o socorro aos presos políticos.
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25–26 de novembro de 1967
Cheias na região de Lisboa expõem a miséria escondida pelo regime
Na noite de 25 para 26 de novembro, uma tromba de água arrasa bairros pobres e de lata da Grande Lisboa: oficialmente 462 mortos, talvez 700.12 A censura manda calar as mortes e a ação dos estudantes, que se mobilizam no socorro — entre eles José António Ribeiro Santos — e publicam o jornal «Solidariedade Estudantil»; vozes como a do arquiteto Nuno Teotónio Pereira apontam o desordenamento como causa da tragédia.13

10 de dezembro de 1967
Imprensa britânica revela o escândalo «Ballet Rose»
Jornais britânicos noticiam uma rede de prostituição e abuso de menores — crianças de nove e dez anos vindas das zonas mais pobres do país — que envolvia altas figuras do regime.1 Salazar e o diretor da PIDE, Silva Pais, abafam o caso; Mário Soares, acusado de ser a fonte das notícias, é preso, passa o Natal isolado em Caxias e é deportado para São Tomé.1
Forte de Caxias — a prisão política · Mário Soares · Silva Pais
1968
1968· mulheres
Fundado o Movimento Democrático de Mulheres
O Movimento Democrático de Mulheres nasce numa assembleia na Padaria do Povo, em Lisboa, e junta herdeiras do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, como Maria Alda Nogueira; Isabel do Carmo está entre as fundadoras.43 No ano seguinte organiza ações no Dia Internacional da Mulher em Lisboa, Porto, Setúbal e Évora; a 21 de outubro de 1973 faz o 1.º Encontro Nacional, na Cova da Piedade, com 250 mulheres, presidido por Luísa Amorim, Helena Neves e Berta Monteiro.14 Depois de 1974, Maria Lamas será a sua presidente honorária.25
Cooperativa «A Padaria do Povo» · Isabel do Carmo · Maria Lamas · Maria Alda Nogueira · Helena Neves
- 1Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Dia Internacional da Mulher
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Maria Lamas
- 3Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Isabel do Carmo (testemunho e biografia)
- 4MDM – Movimento Democrático de Mulheres: A nossa história – MDM 1968-2023
- 5MDM – Movimento Democrático de Mulheres: Maria Lamas
- 6Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Helena Pato (testemunho e biografia)
1–3 de julho de 1968
«Greve da Mala» na Carris de Lisboa
1968–1974
O marcelismo
Marcelo Caetano sucede a Salazar e promete abrir. A guerra continua, a polícia muda de nome, e nasce o Movimento dos Capitães.
1968

27 de setembro de 1968
Marcelo Caetano sucede a Salazar na chefia do Governo
Afastado Salazar por doença, Marcelo Caetano é nomeado presidente do Conselho e o novo governo toma posse no Palácio de Belém; no dia seguinte, Caetano faz uma declaração ao país no palácio da Assembleia Nacional.124 A sua chegada traz uma «tímida abertura», que a ditadura logo se apressou a conter.3
Palácio de Belém · Palácio de São Bento · Marcelo Caetano · António de Oliveira Salazar

8 de dezembro de 1968
A PIDE invade a Associação de Estudantes do Técnico
A PIDE invade a Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, apreende documentos, identifica estudantes e suspende os dirigentes; a associação e o IST são encerrados até ao fim das férias, e a academia de Lisboa decreta «luto académico».123 Segue-se a invasão da Cidade Universitária pela polícia — uma intimidação que se tornaria recorrente.1
Instituto Superior Técnico · Cidade Universitária de Lisboa (Estádio Universitário e faculdades)
26 de dezembro de 1968· mulheres
Lei iguala pela primeira vez os requisitos de voto de mulheres e homens
A Lei n.º 2137, de 26 de dezembro, considera eleitores da Assembleia Nacional todos os cidadãos portugueses, maiores ou emancipados, que saibam ler e escrever português — sem distinguir homens e mulheres —, e ainda os que já tinham sido recenseados ao abrigo da Lei n.º 2015, de 1946.4 Era a primeira vez que homens e mulheres votavam com os mesmos requisitos, mas a exigência de saber ler e escrever afastava muito mais mulheres: no início dos anos 70, uma em cada três não sabia ler.123

31 de dezembro de 1968 a 1 de janeiro de 1969· mulheres
Vigília pela paz na Igreja de São Domingos
Na noite de 31 de dezembro, depois da missa do cardeal Cerejeira, mais de cem católicos ficaram em vigília na Igreja de São Domingos até às 6 da manhã de 1 de janeiro, o Dia Mundial da Paz, denunciando o «compromisso político da Igreja frente ao Estado» e a guerra colonial.3 Estavam lá Nuno Teotónio Pereira, em casa de quem a vigília fora combinada, e Francisco de Sousa Tavares, entre outros.31 Cantou-se a «Cantata da Paz», que Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu para essa noite — «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar» —, musicada por Francisco Fernandes e cantada por Francisco Fanhais.32
Igreja de São Domingos · Sophia de Mello Breyner Andresen · Nuno Teotónio Pereira
1969

1969· mulheres
Sophia de Mello Breyner e Maria Barroso candidatas pela oposição
Nas eleições de 1969 para a Assembleia Nacional, Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Barroso candidatam-se a deputadas pela CEUD.1 No mesmo ano constitui-se a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, de que Sophia foi membro.12
8 de março de 1969· mulheres
Mulheres reúnem-se na Serra de Sintra no Dia da Mulher
Um ano depois da fundação do MDM, largas dezenas de mulheres de Lisboa e arredores juntam-se na Serra de Sintra e, apesar da presença intimidatória da polícia, distribuem 5 mil exemplares do manifesto «A Mulher na Luta».1 No Porto, comissões de operárias concentram-se contra o aumento do custo de vida e entregam as suas reivindicações no governo civil.1
17 de abril de 1969
Começa a crise académica de 1969 em Coimbra
Em Coimbra desencadeia-se a crise universitária de 1969, que leva à greve às aulas e, depois, ao boicote aos exames de junho.1 Vinha de trás: em dezembro de 1968, quando a PIDE invadiu a Associação de Estudantes do Técnico, Coimbra solidarizara-se, e em fevereiro a lista do Conselho das Repúblicas ganhara a Associação Académica.2

15–17 de maio de 1969
II Congresso Republicano de Aveiro
Cerca de 1500 participantes debatem no Teatro Aveirense, entre outros temas, a igualdade de direitos das mulheres, o fim da censura e a guerra colonial; mandam mensagens Maria Lamas e Aida Magro, e entre os congressistas estão Virgínia Moura, Mário Soares e Emídio Santana.12 O I Congresso reunira em 1957.1
Maria Lamas · Aida Magro · Virgínia Moura · Mário Soares · Emídio Santana

3 de junho de 1969 a 21 de março de 1970· mulheres
Natália Correia julgada no Tribunal Plenário pela Antologia
Começa no Tribunal Plenário Criminal de Lisboa o julgamento da «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», organizada por Natália Correia e apreendida em 1966.1 A 21 de março de 1970, Natália e o editor, Fernando Ribeiro de Mello, são condenados a 90 dias de prisão substituídos por multa; Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Ary dos Santos e Melo e Castro, a 45 dias.1
outubro de 1969
Campanha da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Lisboa
Para as eleições de outubro para a Assembleia Nacional, a Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Lisboa publica o boletim «Movimento Democrático», cujo n.º 1 sai a 9 de outubro.1 Integra a CDE de Lisboa, entre outras, Isabel do Carmo; Emídio Santana fala de questões sindicais em comícios da CDE e da CEUD.23
25 de outubro de 1969· mulheres
Mulher casada deixa de precisar de autorização do marido para o passaporte
O Decreto n.º 49 317, de 25 de outubro, acaba com a autorização do marido para que a mulher casada tenha passaporte: o próprio Governo reconhecia que ela já não precisava dessa autorização para «tomar decisões bem mais importantes».2 A exigência, lembrou Elina Guimarães, levava muitos maridos separados a negá-la ou a fazer chantagem; no mesmo ano, a nova lei do contrato de trabalho manteve ao marido o direito de se opor ao trabalho da mulher.1
26 de outubro de 1969
Eleições de 1969 para a Assembleia Nacional
A oposição concorre dividida — a CDE e a CEUD —, sob repressão e com os habituais atropelos à lei, e a Ação Nacional Popular, o partido do regime, vence.12 Nas suas listas entra a chamada «ala liberal» (Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Miller Guerra, entre outros), muitos dos quais acabariam por renunciar ao mandato depois da revisão constitucional de 1971.13
RTP Arquivos: Primeira conferência de imprensa da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática
24 de novembro de 1969
A PIDE passa a chamar-se Direção-Geral de Segurança
O Decreto-Lei n.º 49 401 extingue a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, criada em 1945, e cria no Ministério do Interior a Direção-Geral de Segurança (DGS), que lhe sucede como polícia política.32 A DGS seria extinta a 25 de abril de 1974.1
4–15 de dezembro de 1969· mulheres
Greve das operárias da Penteadora, em Unhais da Serra
Na fábrica de lanifícios Penteadora, em Unhais da Serra (Covilhã), onde trabalhavam cerca de 500 pessoas, sobretudo mulheres dos 14 aos 30 anos, as operárias recusam operar o dobro das máquinas — 800 fusos em vez de 400 — e fazem greve de braços caídos.1 A 12 de dezembro, a GNR aponta-lhes metralhadoras e há despedimentos; as trabalhadoras acabam por vencer e continuam com 400 fusos.1

27 de dezembro de 1969· mulheres
Professoras primárias deixam de precisar de autorização para casar
O Decreto-Lei n.º 49 473, assinado por Marcelo Caetano e pelo ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva, revoga o artigo 9.º do decreto de 1936, que fazia depender o casamento das professoras primárias de autorização do ministro. O Governo reconhecia que a exigência estava «desde há muito convertida em formalidade burocrática que dificulta o casamento das professoras».1
1970

1970· mulheres
Pintasilgo lidera o primeiro grupo de trabalho sobre a mulher
Com as relações internacionais tensas pela recusa de dar a independência às colónias, o regime propõe-se conhecer a situação das mulheres portuguesas.14 O Ministério das Corporações e da Previdência Social convida Maria de Lourdes Pintasilgo, que ali era consultora, e nasce o Grupo de Trabalho para a Definição de uma Política Nacional Global acerca da Mulher, embrião da futura Comissão da Condição Feminina.14

janeiro de 1970· mulheres
Prisão de Diana Andringa
A jornalista Diana Andringa é presa na empresa de publicidade onde trabalhava, depois da prisão em Angola de militantes anticoloniais com quem tinha contacto, e passa dois meses e meio em isolamento em Caxias.1 Seria julgada no Tribunal Plenário em 1971.1
Forte de Caxias — a prisão política · Diana Andringa
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Testemunho de Diana Andringa recolhido pelo Museu do Aljube a 19 de abril de 2017. Segundo as palavras-chave do museu, fala do movimento estudantil, do apoio aos presos políticos, da ligação ao MPLA e à luta de libertação, da prisão e dos interrogatórios em Caxias e do julgamento no Tribunal Plenário.
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27 de julho de 1970
Morre Salazar
Ao fim de cerca de ano e meio de doença, que o afastara da chefia do Governo, António de Oliveira Salazar morre em Lisboa.1

agosto de 1970· mulheres
Maria Teresa Lobo, primeira mulher num governo português
Marcello Caetano nomeia Maria Teresa Cárcomo Lobo subsecretária de Estado da Saúde e Assistência: é a primeira mulher a integrar um governo em Portugal.1 Toma posse no Palácio de Belém e fica até à remodelação de novembro de 1973.1 A 20 de agosto de 1970, o vespertino «A Capital» dava a notícia: «Uma senhora (pela primeira vez) membro do Governo».12
1 de outubro de 1970
Criada a Intersindical
É criada a Intersindical, a primeira central sindical portuguesa.1

2 de outubro de 1970· mulheres
Suicídio de Albina Fernandes
Dois anos depois de sair de Caxias, com o sistema nervoso destruído por seis anos e sete meses de prisão, Albina Fernandes suicida-se.1 A Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos — num telegrama a Marcelo Caetano subscrito, entre outros, por Cecília Areosa Feio, Maria Eugénia Varela Gomes e Sophia de Mello Breyner Andresen — responsabiliza o Governo, e o funeral transforma-se numa manifestação de protesto.1 Sofia Ferreira acusaria o médico da PIDE de lhe ter negado assistência na prisão.1
Forte de Caxias — a prisão política · Albina Fernandes · Sofia Ferreira · Sophia de Mello Breyner Andresen

26 de outubro de 1970
ARA sabota o navio Cunene na doca de Alcântara
A Acção Revolucionária Armada, braço armado do PCP, reivindica a primeira ação: duas explosões no navio Cunene, que levava armamento e mercadorias para as tropas coloniais, deixado «alagado e imobilizado» na doca de Alcântara.12 A ação fora estudada e decidida no comando central da ARA por Jaime Serra, Francisco Miguel e Raimundo Narciso.12
20 de novembro de 1970
Três bombas da ARA em Lisboa
A ARA faz rebentar de madrugada três engenhos, cada um contra uma frente da sua luta: junto à escola técnica da PIDE, na Estrada de Benfica, em Sete Rios (a repressão); no Centro Cultural dos Estados Unidos, na Avenida Duque de Loulé (o imperialismo); e no Cais da Fundição, onde a carga destinada ao navio «Niassa», pronto a levar material de guerra, rebentou no armazém (a guerra colonial).123 A bomba da escola da PIDE, deixada na rua, matou um rapaz de 15 anos que voltava de uma noite de trabalho: foi a única vítima mortal das ações da ARA.13

21 de novembro de 1970
Operação Mar Verde: invasão de Conacri
António de Spínola, que Marcelo Caetano escolhera para a Guiné, dá luz verde à invasão da Guiné-Conacri por forças portuguesas, para depor Sékou Touré, capturar Amílcar Cabral, libertar cerca de vinte portugueses ali presos e destruir alvos militares.12 A operação, proposta por Alpoim Calvão, fracassa, viola o direito internacional e é condenada na ONU; Portugal nunca a reconheceu.12
1971
1971· mulheres
Maria Teresa Horta publica «Minha Senhora de Mim»
Maria Teresa Horta publica «Minha Senhora de Mim», poemas que recorrem às cantigas de amigo para desafiar o pensamento patriarcal e defender o direito da mulher a viver em pleno a sua sexualidade.2 Como «Maina Mendes» (1969), de Maria Velho da Costa, e «Os Outros Legítimos Superiores» (1970), de Maria Isabel Barreno, o livro desafiava os papéis que a ditadura atribuía às mulheres.1 A PIDE apreende-o por ofensa «da moral tradicional da nação», a editora, Snu Abecassis, é ameaçada com o fecho da Dom Quixote se voltar a publicar a autora, e Maria Teresa Horta é espancada na rua por três homens.2 Foi então, em maio de 1971, que as três decidiram escrever juntas as «Novas Cartas Portuguesas»: «Se uma mulher sozinha causa toda esta confusão, este burburinho, este escândalo, o que aconteceria se fôssemos três?», perguntou Maria Velho da Costa.2
Maria Isabel Barreno · Maria Teresa Horta · Maria Velho da Costa
RTP Arquivos: Lançamento de “Minha Senhora de Mim” de Maria Teresa Horta

1971· mulheres
Natália Correia abre o Botequim, na Graça
No rés-do-chão da Vila Sousa, no Largo da Graça, Natália Correia abre o Botequim com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta.16 Para lá passa a tertúlia que reunira em casa nas décadas de 1950 e 1960.6 Nas de 1970 e 1980, o bar, onde Natália cantou durante muitos anos, foi ponto de encontro de escritores e políticos, com tertúlias, convívios literários e café-concerto, e lugar para discutir em liberdade literatura, política e feminismo.514 Helena Roseta geriu-o entre 1991 e 1993, e o Botequim fechou depois da morte de Natália, em 1993.71
Botequim · Casa de Natália Correia · Natália Correia · Helena Roseta
- 1FCSH+Lisboa – NOVA FCSH: Natália Correia: todas as personalidades num botequim (19/4/2017)
- 2Museu do Aljube – Resistência e Liberdade
- 3Imprensa Nacional, 2024
- 4FCSH+Lisboa – NOVA FCSH: Graça em estado de graça (roteiro, 20/4/2017)
- 5RTP Ensina
- 6Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 7Assembleia da República

1971
A DGS concentra os interrogatórios no Reduto Sul de Caxias
A DGS passa os interrogatórios — e, com eles, a tortura sistemática — para o Reduto Sul de Caxias, mesmo ao lado dos presos em isolamento no Reduto Norte, que assim podiam ser interrogados a qualquer hora.12 As seis salas de interrogatório ganham gravadores e um sistema que permitia gravar o que ali se passava e também injetar sons.1

fevereiro de 1971 a março de 1971· mulheres
Julgamento de Diana Andringa no Tribunal Plenário
Diana Andringa, presa em janeiro de 1970, é julgada no Tribunal Plenário de Lisboa entre fevereiro e março de 1971 e condenada a 20 meses de prisão; sai em liberdade em setembro e volta ao jornalismo.1
Tribunal da Boa-Hora · Diana Andringa
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Testemunho de Diana Andringa recolhido pelo Museu do Aljube a 19 de abril de 2017. Segundo as palavras-chave do museu, fala do movimento estudantil, do apoio aos presos políticos, da ligação ao MPLA e à luta de libertação, da prisão e dos interrogatórios em Caxias e do julgamento no Tribunal Plenário.
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
8 de março de 1971
ARA destrói helicópteros na Base Aérea de Tancos

maio de 1971· mulheres
Grupo de Trabalho para a Participação das Mulheres na Vida Económica e Social
O grupo dirigido por Maria de Lourdes Pintasilgo passa a chamar-se Grupo de Trabalho para a Participação das Mulheres na Vida Económica e Social; a equipa cresce e o âmbito da sua intervenção alarga-se.1
3 de junho de 1971
ARA corta as telecomunicações de Lisboa durante a reunião da NATO
Durante a conferência ministerial da NATO em Lisboa, três operacionais da ARA disfarçados de operários entram na central de telecomunicações com duas cargas explosivas.1 A explosão corta todas as comunicações de Lisboa com o exterior durante seis horas, causa «grande embaraço» ao regime e é noticiada no estrangeiro.12
26–30 de julho de 1971
Bancários manifestam-se na Baixa de Lisboa
Durante cinco dias, bancários de Lisboa e do Porto manifestam-se e exigem a libertação do dirigente sindical Daniel Cabrita; a repressão policial na Baixa de Lisboa faz nove feridos.1

16 de agosto de 1971
Revisão constitucional de 1971 promete «maior autonomia» às colónias
Numa tentativa de aparentar abertura, a Assembleia Nacional aprova uma revisão constitucional que preconiza «maior autonomia» para as províncias ultramarinas, enquanto Portugal continuava a ignorar as recomendações da ONU sobre os territórios africanos.1 A revisão deixa intacta a concentração de poderes no Presidente do Conselho e no Presidente da República, e muitos dos deputados da «ala liberal» acabariam por renunciar ao mandato.2
7 de novembro de 1971· mulheres
Primeira ação armada das Brigadas Revolucionárias
As Brigadas Revolucionárias, nascidas de uma cisão do PCP protagonizada por Isabel do Carmo e Carlos Antunes em torno da luta armada, fazem a sua primeira ação: uma bomba na base da NATO na Fonte da Telha, onde um dos fundadores trabalhava como operário da construção civil.123
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Isabel do Carmo, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 24 de abril de 2019. As palavras-chave do museu incluem o movimento estudantil, a clandestinidade, a luta armada, a prisão, a tortura e o isolamento em Caxias, e a prisão depois do 25 de Abril.
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1972

abril de 1972· mulheres
Publicadas as «Novas Cartas Portuguesas»
A Estúdios Cor, com direção literária de Natália Correia, que se recusou a cortar partes do texto, edita na íntegra o livro escrito a três por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa: uma denúncia da condição das mulheres, da guerra colonial e do sistema judicial.15 Três dias depois do lançamento, a censura recolhe e destrói a primeira edição, e o regime processa as autoras e o editor, Romeu de Melo, por um livro de «conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública».124
Maria Isabel Barreno · Maria Teresa Horta · Maria Velho da Costa · Natália Correia

julho de 1972
Brigadas Revolucionárias largam porcos «almirantes» no Rossio
A 11 de julho de 1972, as Brigadas Revolucionárias destroem quinze camiões Berliet do Exército destinados à guerra colonial, com explosivos roubados um mês antes numa pedreira de Boliqueime, no Algarve: foi a primeira ação das BR a atingir diretamente o aparelho colonial.1 Depois da reeleição de Américo Tomás, a 25 de julho, largam em pleno Rossio e em Alcântara dois porcos vestidos de almirante, enquanto petardos espalham panfletos contra a «farsa eleitoral», «uma fantochada maior e uma porcaria».12

12 de outubro de 1972
Estudante Ribeiro Santos morto a tiro pela PIDE/DGS no ISCEF
Num «meeting contra a repressão» no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, os estudantes retêm um desconhecido que tomam por informador da DGS; chamados para o identificar, dois agentes dizem não o conhecer, mas querem levá-lo.384 Na confusão, o agente António Gomes da Rocha dispara: atinge pelas costas José António Ribeiro Santos, estudante de Direito ligado ao MRPP, que morre pouco depois, e fere José Lamego; na sala estava Aurora Rodrigues.846 Nessa noite, trezentos estudantes reunidos no Técnico decidem paralisar a universidade, e na vaga de prisões que se segue é presa, entre outros, Isabel do Carmo.87 O agente nunca foi julgado.18
ISCEF, no Quelhas · Instituto Superior Técnico · José António Ribeiro Santos · Aurora Rodrigues · Isabel do Carmo
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Aurora Rodrigues, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 12 de outubro de 2016. As palavras-chave do museu incluem o movimento estudantil, o assassinato de Ribeiro Santos, o MRPP, a prisão, os interrogatórios e a tortura em Caxias.
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso: Ribeiro Santos
- 1Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 3Museu do Aljube Resistência e Liberdade: José António Leitão Ribeiro Santos (biografia)
- 4Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos
- 5Seara Nova (10/8/2023)
- 6Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Aurora Rodrigues (testemunho e biografia)
- 7Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Isabel do Carmo (testemunho e biografia)
- 8Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 9Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso
- 10Toponímia de Lisboa – CML (24/3/2014)

14 de outubro de 1972
Funeral de Ribeiro Santos
Dois dias depois do assassinato, milhares de pessoas, sobretudo estudantes, juntam-se à porta do prédio onde José António Ribeiro Santos vivia, na Calçada do Largo de Santos — hoje Calçada Ribeiro Santos —, de onde parte o cortejo para o cemitério da Ajuda.32 Entre gritos de «assassinos» e «viva a liberdade», há cargas policiais durante o cortejo e no cemitério, e cerca de vinte pessoas são presas: é uma das maiores manifestações contra a ditadura na sua fase final.21
2 de novembro de 1972
ONU reconhece a legitimidade da luta armada contra Portugal
A Assembleia Geral da ONU reconhece a «legitimidade da luta armada contra Portugal, em África».1
16 de dezembro de 1972
Massacre de Wiriyamu, em Moçambique
Na «Operação Marosca», aviação, comandos e agentes da DGS atacam cinco aldeias na região de Tete; terão morrido 385 pessoas, cerca de um terço dos habitantes, entre elas muitas mulheres e crianças.12 O padre Domingos Ferrão e Domingo Kansande apuraram a lista das vítimas e fizeram-na chegar a padres espanhóis e holandeses; o padre inglês Adrian Hastings revelou o massacre no «The Times» a 10 de julho de 1973, dias antes da visita de Marcelo Caetano a Londres.1 Portugal nunca o assumiu oficialmente.1

30–31 de dezembro de 1972· mulheres
Vigília da Capela do Rato contra a guerra colonial
Cristãos e não cristãos começam na Capela do Rato uma vigília de 48 horas pela paz, com greve de fome; abre-a Maria da Conceição Moita, que lê a declaração ao microfone.13 A 31, aprovam uma moção contra a «guerra criminosa» e a «cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica»; ao fim do dia, a polícia interrompe a vigília e leva os participantes para a esquadra do Largo do Rato, e alguns, como Nuno Teotónio Pereira, seguem para Caxias.135 Os funcionários públicos presentes são alvo de processos de demissão, e os abaixo-assinados de solidariedade juntam nomes como Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Isabel Barreno e Isabel do Carmo.137
Capela do Rato · Forte de Caxias — a prisão política · Largo do Rato (antiga Praça do Brasil) · Maria da Conceição Moita · Sophia de Mello Breyner Andresen · Isabel do Carmo · Nuno Teotónio Pereira · Maria Isabel Barreno
Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso: A Paz é Obrigatória
1973
1973· mulheres
Prisão de Violante Saramago Matos com a filha de 18 meses
Presa em 1973, Violante Saramago Matos teve consigo na cela a filha de dezoito meses, que aprendeu a andar na prisão: «Força, filha, força nas perninhas», dizia-lhe todos os dias, na cela e no recreio.1 No mesmo ano a polícia política prendeu também Helena Roseta, futura deputada constituinte.2

20 de janeiro de 1973
Amílcar Cabral assassinado em Conacri
Já de noite, ao chegar a casa em Conacri com a mulher, Ana Maria, o líder do PAIGC, Amílcar Cabral, é morto a tiro por um grupo de homens armados.12 A autoria continua controversa: tudo aponta para uma ação conjunta de dissidentes do PAIGC, autoridades da Guiné-Conacri, PIDE/DGS e setores militares portugueses.1 Dois anos antes, a Operação Mar Verde tentara capturá-lo.3

4 de abril de 1973
III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro
Quatro anos depois do II Congresso, o III Congresso da Oposição Democrática aprova em Aveiro como objetivos imediatos o fim da guerra colonial, a luta contra o poder absoluto do capital monopolista e a conquista das liberdades democráticas; fica marcado por uma violentíssima repressão policial.142 Maria Barroso foi a única mulher a intervir na sessão de abertura.3

3 de maio de 1973· mulheres
Prisão de Aurora Rodrigues
Aurora Rodrigues, estudante de Direito, que assistira ao assassinato de Ribeiro Santos e aderira depois ao MRPP, é presa a seguir a uma reunião de estudantes.2 Em Caxias, em rigoroso isolamento, sofre a «estátua», dezasseis dias seguidos de tortura do sono, espancamentos e a simulação de afogamento, com a cabeça mergulhada à força num lavatório; nunca fala.2 É libertada três meses depois, sem acusação, sem julgamento e sem ter podido falar com um advogado.21
Forte de Caxias — a prisão política · Aurora Rodrigues
Ver no arquivo: Museu do Aljube Resistência e Liberdade
Aurora Rodrigues, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 12 de outubro de 2016. As palavras-chave do museu incluem o movimento estudantil, o assassinato de Ribeiro Santos, o MRPP, a prisão, os interrogatórios e a tortura em Caxias.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial do Museu do Aljube
Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
junho de 1973· mulheres
As Três Marias, primeira causa feminista internacional
Numa conferência da National Organization for Women, em Boston, o caso das Três Marias é votado como a primeira causa feminista internacional.1 Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing, Iris Murdoch e Stephen Spender lideraram a campanha de solidariedade com Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, e houve ações feministas junto de várias embaixadas de Portugal; ainda a 17 de maio de 1974 se manifestava gente em Nova Iorque a favor das três.21
Maria Isabel Barreno · Maria Teresa Horta · Maria Velho da Costa
13 de julho de 1973
Decreto-Lei n.º 353/73 lança a contestação dos capitães
Para responder à falta de capitães do quadro permanente nas frentes africanas, o ministro do Exército, Sá Viana Rebelo, faz aprovar um decreto-lei que permite substituir os quatro anos da Academia Militar por um curso intensivo de dois semestres.12 O decreto e o retificativo de 20 de agosto (Decreto-Lei n.º 409/73) foram o detonador da contestação que levaria ao 25 de Abril: a 9 de setembro os capitães reuniam-se em Alcáçovas, e a 12 de outubro uma circular do Ministério do Exército suspendia os dois diplomas, antes de o ministro ser exonerado.123

15 de julho de 1973
Caetano em Londres sob a denúncia de Wiriyamu
Dias depois de o «The Times» revelar o massacre de Wiriyamu, Marcelo Caetano visita Londres e é recebido com hostilidade e com uma manifestação contra a política colonial junto à embaixada portuguesa, rodeada por um cordão policial.123

9 de setembro de 1973
Reunião no Monte do Sobral (Alcáçovas): nasce o Movimento dos Capitães
Contra a legislação com que o Governo queria suprir a falta de oficiais na guerra em África, 136 oficiais reúnem-se clandestinamente no Monte do Sobral, em Alcáçovas, e assinam um abaixo-assinado a Marcelo Caetano a pedir a revogação dos decretos.51 Nasce o Movimento dos Capitães, depois Movimento das Forças Armadas.5164 Em agosto já se tinham reunido oficiais em Bissau.13
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 2Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: A Reunião de Óbidos
- 3Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Fita do Tempo
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: O 25 de abril
- 5Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: O Encontro de Alcáçovas
- 6Associação 25 de Abril
24 de setembro de 1973
PAIGC proclama unilateralmente a independência da Guiné-Bissau
Reunida numa colina da região do Boé, em zona libertada pelo PAIGC, a Assembleia Nacional Popular proclama unilateralmente o Estado da Guiné-Bissau.123 A 2 de novembro, por 93 votos contra 7, a Assembleia Geral da ONU felicita-se «pelo recente acesso à independência do povo da Guiné-Bissau» e condena a «presença ilegal de Portugal».3

outubro de 1973· mulheres
Prisão e tortura de Maria José Morgado
A estudante de Direito Maria José Morgado, militante do MRPP e clandestina desde os 19 anos, é presa na casa onde se escondia, perto da Feira da Ladra.1 No quarto andar da sede da PIDE, onde decorriam os interrogatórios, é esbofeteada várias vezes; em Caxias sofre cinco dias de tortura do sono e espancamentos com cavalo-marinho.1
Sede da PVDE / PIDE / DGS · Forte de Caxias — a prisão política · Maria José Morgado

25 de outubro de 1973, 10h00· mulheres
Começa o julgamento das Três Marias, à porta fechada
No Tribunal Correcional da Boa-Hora começa o julgamento das autoras e do editor das «Novas Cartas Portuguesas».1 O juiz declara a audiência secreta e manda sair dezenas de assistentes — jornalistas portugueses e estrangeiros, observadoras do movimento feminista, gente do PEN Club —, e a censura impõe aos jornais silêncio absoluto sobre o processo.12 Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa tinham sido interrogadas por um agente da Polícia Judiciária especializado em processos de prostituição.52 Entre as testemunhas de defesa estariam Natália Correia, Fernanda Botelho e Maria Lamas, que depôs a 1 de março de 1974; a campanha internacional de apoio fez do processo a «primeira causa feminista internacional».486
Tribunal da Boa-Hora · Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974) · Maria Isabel Barreno · Maria Teresa Horta · Maria Velho da Costa · Natália Correia · Maria Lamas · Fernanda Botelho
Hemeroteca Municipal de Lisboa: «Novas Cartas Portuguesas» – Julgamento secreto
RTP Arquivos: Entrevista às “Três Marias”
- 1Hemeroteca Municipal de Lisboa – Livros que foram notícia: «Novas Cartas Portuguesas» – Julgamento secreto (Diário de Lisboa, 25/10/1973)
- 2Hemeroteca Municipal de Lisboa – Livros que foram notícia: «As Três Marias foram absolvidas» / «Absolvição para as Novas Cartas Portuguesas» (Diário de Lisboa, 8 de maio de 1974)
- 3Museu do Aljube – Resistência e Liberdade
- 4Wikipédia (ponto de partida)
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 6Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 7Museu do Aljube Resistência e Liberdade
- 8RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa

6 de novembro de 1973
Padre Felicidade Alves e Nuno Teotónio Pereira julgados no Plenário
O padre José Felicidade Alves, o cónego Abílio Tavares Cardoso, o arquiteto Nuno Teotónio Pereira e Manuel Mendes Mourão são julgados no Tribunal Plenário de Lisboa, acusados de «atos contra a segurança do Estado» pelos Cadernos GEDOC.1 Lançados em fevereiro de 1969, os onze números dos cadernos, até 1970, criticavam a hierarquia católica, a guerra colonial e a situação política do país.1

24 de novembro de 1973· mulheres
Processo da DGS contra o grupo anticolonial e as Brigadas Revolucionárias
É autuado em Caxias o processo da DGS contra as Brigadas Revolucionárias e um «agrupamento» anticolonial, que apanha muitas das pessoas ligadas à vigília da Capela do Rato.12 Maria da Conceição Moita é esbofeteada até desmaiar e sujeita várias vezes à tortura do sono — a primeira durante sete dias e oito noites — e a catorze horas de «estátua»; Maria Luísa Sarsfield Cabral sofre quatro dias e quatro noites de tortura do sono; Nuno Teotónio Pereira é espancado e privado do sono.1
Forte de Caxias — a prisão política · Capela do Rato · Maria da Conceição Moita · Nuno Teotónio Pereira

1 de dezembro de 1973
Reunião de Óbidos alarga a Comissão Coordenadora
Sob o pretexto de um magusto, cerca de 180 delegados do Movimento dos Capitães reúnem-se na Casa do Povo de Óbidos.1 A hipótese do golpe de Estado é discutida, mas vence, por prudência, a via legalista; a Comissão Coordenadora passa a ter 19 membros — entre eles Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia —, o movimento é rebatizado MOFA e escolhe como chefes prestigiados Costa Gomes e António de Spínola.123
Otelo Saraiva de Carvalho · Salgueiro Maia · Costa Gomes · António de Spínola

6 de dezembro de 1973 a 26 de abril de 1974· mulheres
Prisão de Maria da Conceição Moita
Maria da Conceição Moita, organizadora da vigília da Capela do Rato e militante das Brigadas Revolucionárias, a quem dava apoio logístico, é presa pela DGS quando se preparava para fugir para Paris, depois da prisão de vários companheiros, entre eles o irmão, Luís Moita.13 Torturada e mantida em isolamento, fica em Caxias até depois do 25 de Abril e só sai a 26 de abril de 1974.13 No fim de 1973 também Nuno Teotónio Pereira foi preso, e ficou em Caxias até ao 25 de Abril.23
Forte de Caxias — a prisão política · Maria da Conceição Moita · Nuno Teotónio Pereira
1974

22 de fevereiro de 1974
Spínola publica «Portugal e o Futuro»
No livro «Portugal e o Futuro», o general António de Spínola, vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, defende que a solução para a guerra colonial é política e não militar.13 O livro, que tivera parecer do chefe do Estado-Maior-General, Costa Gomes, vende cerca de 350 mil exemplares em poucos meses e mina as relações entre o regime e as Forças Armadas.34 Seguem-se a cerimónia da «Brigada do Reumático» e a demissão dos dois generais.2

1 de março de 1974· mulheres
Maria Lamas testemunha de defesa no processo das Três Marias
Maria Lamas, então com 80 anos, depõe como testemunha de defesa de Maria Isabel Barreno no processo das «Novas Cartas Portuguesas», em Lisboa.1 O julgamento decorria à porta fechada no Tribunal da Boa-Hora desde outubro de 1973.2 A sentença só seria lida depois do 25 de Abril.3
Tribunal da Boa-Hora · Maria Lamas · Maria Isabel Barreno
- 1RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa
- 2Hemeroteca Municipal de Lisboa – Livros que foram notícia: «Novas Cartas Portuguesas» – Julgamento secreto (Diário de Lisboa, 25/10/1973)
- 3Hemeroteca Municipal de Lisboa – Livros que foram notícia: «As Três Marias foram absolvidas» / «Absolvição para as Novas Cartas Portuguesas» (Diário de Lisboa, 8 de maio de 1974)

5 de março de 1974
Reunião de Cascais: o golpe torna-se irreversível
Cerca de duzentos oficiais, em representação de mais de seiscentos, reúnem-se clandestinamente no ateliê do arquiteto Braula Reis, em Cascais; o plano inicial era fazê-lo no Edifício Franjinhas, em Lisboa.13 Os capitães assumem como irreversível a opção pelo golpe de Estado e aprovam «O Movimento, as Forças Armadas e a Nação», documento apresentado por Melo Antunes.342

14 de março de 1974
«Brigada do Reumático» e demissão de Spínola e Costa Gomes
No Palácio de São Bento, oficiais-generais dos três ramos das Forças Armadas prestam solidariedade ao regime e à sua política colonial, numa cerimónia a que a oposição chamou, com ironia, «Brigada do Reumático».12 Marcelo Caetano agradece, certo de que o país «conta com as suas Forças Armadas».3 A pretexto de terem faltado, os generais Costa Gomes e António de Spínola são afastados de chefe e vice-chefe do Estado-Maior-General; a demissão acelera os planos dos capitães e precipita o levantamento das Caldas.13
Palácio de São Bento · Costa Gomes · António de Spínola · Marcelo Caetano

16 de março de 1974
Levantamento das Caldas da Rainha
Dois dias depois da demissão de Costa Gomes e Spínola, os capitães do Regimento de Infantaria 5 tomam o comando do quartel das Caldas da Rainha e avançam de madrugada sobre Lisboa, sob o comando do capitão Armando Ramos.2 É a única unidade a sair; o golpe falha e cerca de duzentos militares são presos.12 Os que estavam detidos no RAL 1 e na Casa de Reclusão da Trafaria só seriam libertados a 25 de Abril.34
Quartel do Regimento de Artilharia Ligeira n.º 1 (RAL 1, depois RALIS) · Costa Gomes · António de Spínola

24 de março de 1974
Última reunião da Comissão Coordenadora do Movimento
Em casa do capitão Candeias Valente, a última reunião clandestina da Comissão Coordenadora do Movimento decidiu derrubar o regime.2 Otelo Saraiva de Carvalho ficou encarregado de elaborar o plano de operações e Vítor Alves da direção política, e o golpe foi marcado para o período de 22 a 29 de abril; suspenderam-se ainda as circulares e as reuniões da Comissão.1

29 de março de 1974
I Encontro da Canção Portuguesa no Coliseu
Sob forte aparato policial, o Coliseu dos Recreios encheu-se para o I Encontro da Canção Portuguesa, com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, José Jorge Letria e Ary dos Santos, entre outros.14 O público cantou «Grândola, Vila Morena» em coro e, no fim, milhares de pessoas gritaram «abaixo a repressão!».1 Um mês depois, os capitães escolheriam essa canção para senha da revolução.2
Coliseu dos Recreios · José Afonso (Zeca Afonso)
Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso: I Encontro da Canção Portuguesa

22–24 de abril de 1974
Montagem do Posto de Comando da Pontinha e da rede de escutas
Nas noites de 22 e 23 de abril, o MFA montou clandestinamente em Lisboa cerca de 4 km de cabo telefónico aéreo para ligar a central telefónica do Exército ao Regimento de Engenharia n.º 1, na Pontinha.1 A 23, Otelo Saraiva de Carvalho, Garcia dos Santos e Jaime Neves reuniram-se no quartel e o Posto de Comando ficou pronto.2 Às 21h00 de 24, a Escola Prática de Transmissões começou a escutar as redes da GNR, da Legião, da DGS e da PSP.13
Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha) · Otelo Saraiva de Carvalho

23–24 de abril de 1974
A «Grândola» é escolhida como senha no programa «Limite»
A 23 de abril, Álvaro Guerra, enviado de Almada Contreiras, pediu a Carlos Albino — ambos jornalistas do República — que passasse «Venham Mais Cinco», de José Afonso, no programa «Limite»; como a canção estava proibida pela censura interna da Rádio Renascença, Albino propôs alternativas, à cabeça «Grândola».14 Na manhã de 24 a escolha ficou fechada, para as 00h20 de 25.52 Carlos Albino e o sonoplasta Manuel Tomás combinaram os pormenores ajoelhados na Igreja de São João de Brito e gravaram um alinhamento com a voz de Leite de Vasconcelos, que desconhecia o objetivo.356
Rádio Renascença (estúdios da Rua Capelo) · Sede do jornal República (Rua da Misericórdia) · Carlos Albino · Leite de Vasconcelos · José Afonso (Zeca Afonso)
- 1Associação 25 de Abril: Preparativos para a transmissão da senha, 23/04/1974 (cronologia)
- 2Associação 25 de Abril: Preparativos para a transmissão da senha, 24/04/1974 (cronologia)
- 3Associação 25 de Abril: Preparativos para a transmissão da senha, 24/04/1974 – Igreja de S. João de Brito (cronologia)
- 4Associação 25 de Abril: MFA – Preparativos para a Acção, 23/04/1974 (Limite)
- 5Associação 25 de Abril: MFA – Preparativos para a Acção, 24/04/1974 (escolha da Grândola)
- 6Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril

23 de abril de 1974, 18h00
Otelo entrega as «Instruções Finais» no Parque Eduardo VII
A partir das 18h00, Otelo Saraiva de Carvalho entregou aos oficiais de ligação, no Parque Eduardo VII, as «Instruções Finais» e o «Anexo de Transmissões», em envelopes fechados escondidos no jornal «A Época».13 As instruções marcavam o início das operações para as 03h00 de 25 de abril e fixavam a senha «Coragem» e a contrassenha «Pela vitória».2

24 de abril de 1974, 22h00
Otelo instala o posto de comando do MFA na Pontinha
Às 22h00, Otelo Saraiva de Carvalho e outros cinco oficiais do MFA estão no Regimento de Engenharia n.º 1, na Pontinha, onde desde a véspera fora preparado clandestinamente o posto de comando das operações contra o regime.42 Num anexo do quartel, de janelas tapadas por cobertores militares, Otelo afixa cartas topográficas de Lisboa para seguir os movimentos das unidades.2
Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha) · Otelo Saraiva de Carvalho

24 de abril de 1974, 22h55
«E Depois do Adeus»: primeira senha da revolução
Nos Emissores Associados de Lisboa, na Avenida Elias Garcia, o locutor João Paulo Diniz põe no ar «E Depois do Adeus», canção de José Niza interpretada por Paulo de Carvalho: é a senha para o início das operações militares.325 À 00h20, a «Grândola» confirmaria que as operações estavam em marcha e eram irreversíveis.6
Emissores Associados de Lisboa (estúdio da Avenida Elias Garcia) · João Paulo Diniz · Paulo de Carvalho
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 3Associação 25 de Abril: Emissores Associados de Lisboa (Lugares de Abril)
- 4Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 5Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 6Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra
1974–1976
A Revolução
Do 25 de Abril à Constituição: a liberdade, o fim da guerra, as independências, o voto de todas as mulheres e todos os homens.
1974

25 de abril de 1974
A Assembleia Nacional reúne pela última vez, sem quórum
Na manhã de 25 de Abril, a Assembleia Nacional do Estado Novo reúne-se pela última vez, sem quórum, no Palácio de São Bento.12 A Lei n.º 2/74, de 14 de maio, extinguiria a Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa.3

25 de abril de 1974
Decreto-Lei n.º 171/74 extingue a DGS, a Legião e a Mocidade Portuguesa
Logo no dia 25, a Junta de Salvação Nacional, presidida por António de Spínola e de que fazia parte Costa Gomes, extingue a Direção-Geral de Segurança, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Feminina.12 A investigação dos crimes contra a segurança do Estado passa para a Polícia Judiciária; no ultramar, a DGS seria saneada e reorganizada como Polícia de Informação Militar.14
Sede da PVDE / PIDE / DGS · Comando da Legião Portuguesa · Palácio da Independência – sede da Mocidade Portuguesa · António de Spínola · Costa Gomes

25 de abril de 1974· mulheres
Celeste Caeiro e os cravos
O restaurante Sir, no Edifício Franjinhas, fazia um ano e não abriu; os cravos comprados para os clientes foram dados aos empregados.12 Celeste Caeiro levava um ramo quando, na Rua do Carmo, um soldado lhe pediu um cigarro; não fumava e deu-lhe um cravo, que ele pôs no cano da espingarda.31 O gesto repetiu-se no Rossio e o cravo tornou-se o símbolo da revolução.56
Edifício Franjinhas — o restaurante dos cravos · Rua do Carmo — os cravos de Celeste Caeiro · Rossio (Praça de D. Pedro IV) · Celeste Caeiro
Ver no arquivo: Câmara Municipal de Lisboa
Descerramento, no fim da Rua do Carmo, junto ao Rossio, de uma placa com o poema «Celeste em Flor», de Rosa Guerreiro Dias, no lugar onde Celeste Caeiro deu um cravo a um soldado que lhe pedira um cigarro. A placa assinala o gesto 51 anos depois.
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Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
RTP Arquivos: Entrevista a Celeste Caeiro, Garcia dos Santos, Carlos Cedoura e Pena Madeira

25 de abril de 1974, 00h20
«Grândola, Vila Morena» na Rádio Renascença confirma a revolução
No programa «Limite», da Rádio Renascença, passa «Grândola, Vila Morena», de José Afonso: é a senha que confirma que as operações militares estão em marcha e são irreversíveis.124 Ouve-se a primeira quadra na voz de Leite de Vasconcelos, gravada na véspera sem que ele soubesse para quê; na cabine, o sonoplasta Manuel Tomás, cúmplice de Carlos Albino, garante que a bobine arranca à hora certa.57
Rádio Renascença (estúdios da Rua Capelo) · José Afonso (Zeca Afonso) · Leite de Vasconcelos · Carlos Albino
Ver no arquivo: Wikimedia Commons
O coro da Casa da Achada e quem passava cantam a «Grândola, Vila Morena» na rua, em Lisboa, no dia 25 de abril de 2023. Quase meio século depois de ter servido de senha à revolução, a canção de José Afonso continua a ser cantada em coro em cada 25 de Abril.
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Wikimedia Commons, no Wikimedia Commons. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): 25 de Abril de 1974
- 3Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Zeca Afonso
- 4Associação 25 de Abril: Rádio Renascença, 25/04/1974, 00:20 (Movimentações do dia 25 de Abril)
- 5Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 6Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora
- 7Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A
- 8Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril

25 de abril de 1974, 03h15
Ocupação da Emissora Nacional
Uma força do Campo de Tiro da Serra da Carregueira, sob os capitães Oliveira Pimentel e Frederico Morais, desarmou a guarda da PSP e ocupou os estúdios da Emissora Nacional, na Rua do Quelhas, para servirem de emissora de reserva do MFA.12 Frederico Morais comunicou ao Posto de Comando: «ocupámos TÓQUIO sem qualquer incidente».1
25 de abril de 1974, 03h20
Ocupação do Rádio Clube Português
Um grupo de oficiais do MFA, apoiado por uma companhia do Batalhão de Caçadores 5, ocupou sem incidentes os estúdios do Rádio Clube Português, na Rua Sampaio e Pina, que se tornou a emissora do Movimento.13 O capitão Santos Coelho comunicou ao Posto de Comando: «MÉXICO ocupado sem incidentes».2 Dali seria lido, pouco depois, o primeiro comunicado do MFA.4
Rádio Clube Português (estúdios da Rua Sampaio e Pina)
- 1Associação 25 de Abril: Rádio Clube Português (Lugares de Abril)
- 2Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 3Associação 25 de Abril: Quartel do Batalhão de Caçadores n.º 5 (Lugares de Abril)
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 5Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra
25 de abril de 1974, 03h59
Ocupação dos estúdios da RTP no Lumiar
Cerca de cem militares da Escola Prática de Administração Militar, comandados pelo capitão Teófilo Bento, entraram nos estúdios da RTP, na Alameda das Linhas de Torres, desarmaram a PSP e comunicaram: «Acabamos de ocupar MÓNACO sem incidentes».123 Pouco depois afastaram com rajadas para o ar elementos da PSP e da DGS que rondavam o edifício.1 Seria dali que a Junta de Salvação Nacional se apresentaria ao país, na madrugada de 26.1
RTP Arquivos: Ocupação militar na RTP e a Revolução de 25 abril no Largo do Carmo

25 de abril de 1974, 04h25
Ocupação do aeroporto e encerramento do espaço aéreo
Cerca de duzentos militares da Escola Prática de Infantaria, sob o capitão Rui Rodrigues, ocuparam o aeroporto da Portela; o capitão da Força Aérea José Costa Martins mandou interditar o espaço aéreo e desviar o tráfego para Madrid e Las Palmas.12 A mensagem «NOVA IORQUE foi ocupada» abriu caminho à leitura do primeiro comunicado.1
25 de abril de 1974, 04h26
Rádio Clube Português lê o primeiro comunicado do MFA
Pelos microfones do Rádio Clube Português, o jornalista Joaquim Furtado lê o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas, seguido do Hino Nacional e de marchas militares.145 Durante a madrugada e a manhã são ocupados a RTP, a Emissora Nacional, o aeroporto, o Quartel-General, o Banco de Portugal e a Marconi.23
Rádio Clube Português (estúdios da Rua Sampaio e Pina) · Joaquim Furtado
RTP Arquivos: Primeiro Comunicado do MFA
- 1Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 3Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 4Associação 25 de Abril: Rádio Clube Português (Lugares de Abril)
- 5Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 6Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra

25 de abril de 1974, 05h00
Silva Pais avisa Caetano: «a Revolução está na rua»
O diretor da PIDE/DGS, Silva Pais, telefonou a Marcelo Caetano: «a Revolução está na rua!» — os revoltosos tinham ocupado as emissoras, a televisão e o Quartel-General da Região Militar de Lisboa.12 Numa segunda chamada aconselhou-o a ir para o Quartel do Carmo, «que a GNR está fixe»; Caetano instalou-se lá com o seu adjunto militar, o comandante Coutinho Lanhoso.13
Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Silva Pais · Marcelo Caetano

25 de abril de 1974, 06h00
A coluna de Salgueiro Maia ocupa o Terreiro do Paço
Saída de Santarém às 03h30 sob o comando de Salgueiro Maia, a coluna da Escola Prática de Cavalaria chegou à Baixa e ocupou o Terreiro do Paço, o Banco de Portugal e a Rádio Marconi — «Toledo, Bruxelas e Viena», no código do MFA.314 As primeiras forças enviadas pelo regime — chaimites do Regimento de Cavalaria 7 e a Polícia Militar que guardava o Ministério do Exército — puseram-se às ordens do MFA.34

25 de abril de 1974, 07h30
A fragata «Almirante Gago Coutinho» no Tejo
A fragata recebeu ordem para se colocar em frente ao Terreiro do Paço e abrir fogo sobre os blindados do MFA.21 A ordem não foi cumprida e, por volta do meio-dia, o navio retirou para o Mar da Palha; a artilharia do MFA junto ao Cristo-Rei tinha ordem para o afundar se abrisse fogo.3

25 de abril de 1974, 08h30
Ministros fogem por uma parede aberta à picareta
Ao ver o Terreiro do Paço ocupado, o ministro do Exército mandou abrir à picareta uma parede de tijolo para a biblioteca do Ministério da Marinha.12 Antes das 10h00 fugiram por ali ministros e chefes militares, que instalaram o posto de comando das forças leais ao regime no Regimento de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda.31
Terreiro do Paço (Praça do Comércio) · Quartel de Lanceiros 2 / Regimento de Polícia Militar (Calçada da Ajuda)

25 de abril de 1974, 10h00
Ribeira das Naus: os soldados recusam disparar
O brigadeiro Junqueira dos Reis ordenou ao aspirante Fernando Sottomayor, e depois aos apontadores dos carros M47, que disparassem sobre Salgueiro Maia, que avançava de lenço branco pela Avenida da Ribeira das Naus; todos recusaram.13 O major Pato Anselmo rendeu-se e os carros passaram para o MFA — «Foi ali que se ganhou o 25 de Abril», diria Maia.15
Rua do Arsenal e Avenida da Ribeira das Naus · Junqueira dos Reis · Fernando Sottomayor · Salgueiro Maia
Ver no arquivo: Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
Segundo capítulo do filme feito com as fotografias que Alfredo Cunha tirou em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, com música de Rodrigo Leão e realização de Miguel Brugo, publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024. Segue o livro do mesmo nome, em que esta parte tem texto de Adelino Gomes e imagens da Ribeira das Naus, da Rua do Arsenal e do Largo do Carmo.
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Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
- 1Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Operação Viragem Histórica
- 2Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 3Associação 25 de Abril: Ribeira das Naus, 25/04/1974, 07:00–10:30 (Movimentações do dia 25 de Abril)
- 4Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra
- 5Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Salgueiro Maia

25 de abril de 1974, 10h45
Rua do Arsenal: o brigadeiro agride o tenente Assunção
Na Rua do Arsenal, os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva e o furriel Nunes tentaram negociar com Junqueira dos Reis, que voltou a ordenar fogo e voltou a não ser obedecido.13 Exasperado, o brigadeiro deu três murros no tenente Assunção, que lhe fez continência e se retirou.1
Rua do Arsenal e Avenida da Ribeira das Naus · Junqueira dos Reis · Alfredo Assunção
Ver no arquivo: Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
Segundo capítulo do filme feito com as fotografias que Alfredo Cunha tirou em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, com música de Rodrigo Leão e realização de Miguel Brugo, publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024. Segue o livro do mesmo nome, em que esta parte tem texto de Adelino Gomes e imagens da Ribeira das Naus, da Rua do Arsenal e do Largo do Carmo.
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Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

25 de abril de 1974, 11h00
Lisboa desobedece ao MFA e sai à rua
Pelas 11h00, Salgueiro Maia põe a coluna em marcha do Terreiro do Paço para o Quartel do Carmo.2 Desobedecendo aos apelos do MFA para ficar em casa, a população sai à rua em apoio aos militares.21 Ao longo do dia, a Legião Portuguesa seria a primeira força paramilitar a render-se.1
Terreiro do Paço (Praça do Comércio) · Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Salgueiro Maia

25 de abril de 1974, 11h00
O Programa do MFA é entregue no jornal República
O comandante Martins Guerreiro entregou na sede do República, na Rua da Misericórdia, o Programa do MFA aprovado pela comissão de redação.1 Não seria essa a versão apresentada ao país: o texto foi alterado nessa noite, na Pontinha, depois de uma reunião dos responsáveis do Movimento com os generais António de Spínola e Costa Gomes.12
Sede do jornal República (Rua da Misericórdia) · Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha) · António de Spínola · Costa Gomes

25 de abril de 1974, 12h30
A coluna da EPC sobe ao Carmo e cerca o quartel da GNR
Saindo do Terreiro do Paço, a coluna de Salgueiro Maia atravessou o Rossio, onde uma companhia do Regimento de Infantaria 1 enviada para a travar se juntou ao MFA, e subiu pela Rua do Carmo entre milhares de pessoas que gritavam «Vitória!».351 Às 12h30 cercou o Quartel do Carmo; uma tentativa de contra-cerco pela GNR e pelos restos das forças de Junqueira dos Reis desfez-se com a chegada do Regimento de Cavalaria 3, de Estremoz.142
Rossio (Praça de D. Pedro IV) · Rua do Carmo — os cravos de Celeste Caeiro · Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Salgueiro Maia · Junqueira dos Reis
- 1Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 2Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 3Associação 25 de Abril: Rossio – participação popular (Lugares de Abril)
- 4Associação 25 de Abril: Largo e Quartel do Carmo (Lugares de Abril)
- 5Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra

25 de abril de 1974, 13h30
Rendição do comando da Legião Portuguesa
Uma força da Escola Prática de Cavalaria comandada pelo major Jaime Neves cerca o comando da Legião Portuguesa, na Penha de França, e dá quinze minutos para a rendição; o general Pereira de Castro e o estado-maior rendem-se.12 Nesse mesmo dia, a Junta de Salvação Nacional extinguia a Legião.3

25 de abril de 1974, 14h30· mulheres
Uma voz de mulher lê o comunicado do cerco ao Carmo
Pelas 14h30, o Rádio Clube Português emite um comunicado do MFA que anuncia os objetivos já conquistados e o cerco a Marcelo Caetano e a membros do Governo no Quartel do Carmo.1 Lê-o Clarisse Guerra — «agora lido por uma mulher», sublinha a Comissão Comemorativa dos 50 anos.2
Rádio Clube Português (estúdios da Rua Sampaio e Pina) · Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Clarisse Guerra · Marcelo Caetano

25 de abril de 1974, 15h10
Ultimato e rajadas contra a fachada do Quartel do Carmo
Por megafone, Salgueiro Maia deu dez minutos à GNR para render o Quartel do Carmo, findos os quais abriria fogo.12 Às 15h25, esgotado o prazo, o tenente Santos Silva disparou rajadas da metralhadora da chaimite contra a parte superior da fachada, partindo vidraças; no interior, o efeito psicológico foi enorme.12
Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Salgueiro Maia
- 1Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 2Associação 25 de Abril
- 3Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 5Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora

25 de abril de 1974, 16h00
Emissários de Spínola entram no Carmo; Caetano aceita render-se
Quando Salgueiro Maia contava para disparar com um blindado, o tenente Alfredo Assunção trouxe-lhe Pedro Feytor Pinto e Nuno Távora, portadores de uma mensagem do general Spínola.13 Recebidos por Marcelo Caetano no Quartel do Carmo, ouviram-no decidir render-se — «assim o poder não cai na rua» — e saíram com uma nota: «O Presidente do Conselho está pronto a entregar o Governo ao General António de Spínola».2
Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Alfredo Assunção · Marcelo Caetano · António de Spínola · Salgueiro Maia

25 de abril de 1974, 19h30
Spínola no Carmo; Caetano sai na chaimite «Bula»
Ao fim da tarde, o general Spínola entra no Quartel do Carmo, mandatado pelo MFA, e recebe o poder das mãos de Marcelo Caetano, que pedira um oficial-general para que o poder não caísse «na rua».742 Entre a multidão, Salgueiro Maia faz entrar a chaimite «Bula», que leva Caetano e dois ministros para o posto de comando da Pontinha; às 19h30 o cerco é levantado.431
Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha) · António de Spínola · Marcelo Caetano · Salgueiro Maia
Ver no arquivo: Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
Segundo capítulo do filme feito com as fotografias que Alfredo Cunha tirou em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, com música de Rodrigo Leão e realização de Miguel Brugo, publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024. Segue o livro do mesmo nome, em que esta parte tem texto de Adelino Gomes e imagens da Ribeira das Naus, da Rua do Arsenal e do Largo do Carmo.
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RTP Arquivos: Acontecimentos no Largo do Carmo
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
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- 3Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 5Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A
- 6Associação 25 de Abril: Largo e Quartel do Carmo (Lugares de Abril)
- 7Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora

25 de abril de 1974, 20h00
Disparos da PIDE/DGS matam quatro pessoas na Rua António Maria Cardoso
Da sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, agentes da polícia política disparam sobre a multidão que cercava o edifício: morrem Fernando Giesteira, José Barneto, Fernando Reis e João Arruda, e há cerca de 45 feridos.1125 Depois do tiroteio, muitos correram ao Largo do Carmo a pedir auxílio às tropas do MFA.12 O diretor da polícia, Silva Pais, só renderia a sede na manhã seguinte.11
Sede da PVDE / PIDE / DGS · Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Fernando Giesteira · José Barneto · Fernando Reis · João Arruda · Silva Pais
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 3Associação 25 de Abril: Sede da Pide/DGS (Locais de Abril)
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade: João Guilherme Rego Arruda (biografia)
- 5Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Fernando Carvalho Giesteira (biografia)
- 6Museu do Aljube Resistência e Liberdade: José James Harteley Barneto (biografia)
- 7Museu do Aljube Resistência e Liberdade: Fernando Luís Barreiros dos Reis (biografia)
- 8Comissão Portuguesa de História Militar / Ministério da Defesa (jun. 2024)
- 9Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra
- 10Associação 25 de Abril: Movimentações do dia 25 de Abril
- 11Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 12Esquerda.net
25 de abril de 1974, 20h00
Proclamação do MFA no Rádio Clube Português
O Rádio Clube Português emitiu a Proclamação do Movimento das Forças Armadas, que anunciava à Nação um programa «de salvação do País e da restituição ao Povo Português das liberdades cívicas de que vem sendo privado».12

25 de abril de 1974, 23h00
Paraquedistas seguem para a prisão de Caxias
Duas companhias de paraquedistas vindas de Tancos aterraram no aeroporto da Portela; uma delas seguiu para o forte de Caxias, onde a DGS continuava a resistir, sob o comando dos capitães José Brás e Mário Pinto.12 Tomariam a prisão na manhã seguinte, antes da libertação dos presos.3
Forte de Caxias — a prisão política · Aeroporto de Lisboa (Portela)

26 de abril de 1974
Rendição e ocupação da sede da DGS
Na manhã de 26, a sede da DGS rende-se, depois de uma conversa telefónica entre Spínola e o diretor, Silva Pais, e é ocupada por fuzileiros e por militares do Regimento de Cavalaria 3, de Estremoz.451 Silva Pais declarou que a polícia aderia ao Movimento; perguntado por que estavam ainda na parede os retratos dos dirigentes do regime, pediu uma cadeira e tirou ele próprio uma das fotografias.3

26 de abril de 1974
Assalto popular à sede da censura
Depois de o República ter saído a 25 de abril com a frase «Este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura», os censores abandonam a sede do Exame Prévio, do outro lado da Rua da Misericórdia.2 Na manhã de 26 a sede é assaltada pela população; pouco antes, o último censor-mor, Mário Bento, aconselhara um coronel a ficar «quieto e calado».13
Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974) · Sede do jornal República (Rua da Misericórdia)

26 de abril de 1974
Amnistia dos crimes políticos
A Junta de Salvação Nacional amnistia, com efeito imediato, os crimes políticos e as infrações disciplinares da mesma natureza, e permite a reintegração dos servidores do Estado, militares e civis, afastados por motivos políticos.21 Foi este diploma que permitiu a libertação dos presos políticos de Caxias e de Peniche.1
Forte de Caxias — a prisão política · Fortaleza de Peniche — a cadeia política

26 de abril de 1974, 01h30
A Junta de Salvação Nacional apresenta-se ao país
Em direto e a cores dos estúdios do Lumiar, o general Spínola leu a proclamação da Junta de Salvação Nacional, ladeado por Costa Gomes, Rosa Coutinho, Pinheiro de Azevedo, Silvério Marques e Galvão de Melo.12 Prometeu «plena expressão a todas as correntes de opinião» e a eleição, por sufrágio direto, de uma Assembleia Constituinte e do Presidente da República.1
Estúdios da RTP no Lumiar · António de Spínola · Costa Gomes · Pinheiro de Azevedo

26 de abril de 1974, 07h00
Caetano e Tomás partem para o Funchal
Depois de uma noite detidos no posto de comando da Pontinha, Marcelo Caetano e os ex-ministros Silva Cunha e Moreira Baptista embarcaram com Américo Tomás, escoltados por forças do MFA, num avião da Força Aérea que partiu do aeroporto de Lisboa para o Funchal, onde ficaram com residência vigiada.312
Aeroporto de Lisboa (Portela) · Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha) · Marcelo Caetano
- 1Associação 25 de Abril
- 2Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora
- 3Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra: Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A

26 de abril de 1974, 07h30
Divulgado o Programa do MFA
Depois de uma noite de negociações com Spínola e Costa Gomes, o major Vítor Alves leu aos jornalistas, na sala de operações do quartel da Pontinha, o Programa do Movimento das Forças Armadas — o programa dos três «D»: descolonizar, democratizar, desenvolver.12 Não era o texto entregue na véspera no República; previa o restabelecimento das liberdades fundamentais, a amnistia dos presos políticos e a eleição, em doze meses, de uma Assembleia Constituinte por sufrágio universal, direto e secreto.13
Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha) · António de Spínola · Costa Gomes

26–27 de abril de 1974, 08h30· mulheres
Tomada de Caxias e libertação dos presos políticos
Os paraquedistas tomaram a prisão de Caxias às 08h30 de 26 de abril, mas a Junta quis separar os presos «ideológicos» dos acusados de crimes comuns; os presos responderam «ou todos ou ninguém».12 O coronel Dias de Lima foi consultar a Junta à Cova da Moura e voltou às 23h55 com a ordem de libertação total, ao abrigo da amnistia.1 Entre as 00h30 e a 01h00 de 27 saíram 78 presos e quatro do hospital-prisão, entre eles Palma Inácio e as jornalistas Helena Neves e Elvira Nereu.1
Forte de Caxias — a prisão política · Palácio da Cova da Moura · Helena Neves
Ver no arquivo: Câmara Municipal de Lisboa
Fernanda Gonçalves conta como soube da revolução em Aveiro, chegou no dia seguinte a Santa Apolónia num comboio cheio de amigos e seguiu para Caxias, onde milhares de pessoas esperavam a saída dos presos políticos. Lembra o corredor que a multidão mantinha aberto para as negociações com a PIDE, lá dentro.
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Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
RTP Arquivos: Libertação dos Presos Políticos
- 1Esquerda.net
- 2Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 3Associação 25 de Abril
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade
- 5Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra
- 6Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Cronologia Ilustrada – 1974
- 7Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 8Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Amnistia dos crimes políticos (Dec.-Lei 173/74 de 26 de Abril)
- 9Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos
- 10Museu do Aljube Resistência e Liberdade (26/4/2019)
- 11URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses

27 de abril de 1974
Libertados os presos políticos do Forte de Peniche
Os agentes da PIDE/DGS só se rendem no Forte de Peniche na manhã de 26; perante a concentração popular, a ação do MFA e a decisão dos presos de saírem «todos ou nenhum», todos são libertados na madrugada de 27 de abril.15 O primeiro a sair, Dinis Miranda, deixou o forte 23 minutos depois da meia-noite; os últimos, às 3 horas.3
Fortaleza de Peniche — a cadeia política
Ver no arquivo: Museu Nacional Resistência e Liberdade (Peniche)
Vídeo publicado pelo museu da Fortaleza de Peniche a 27 de abril de 2020, no 46.º aniversário da libertação dos presos políticos da cadeia do forte, a 27 de abril de 1974.
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Museu Nacional Resistência e Liberdade (Peniche), no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
27 de abril de 1974
O 1.º de Maio passa a feriado nacional
O Decreto-Lei n.º 175/74 institui o 1.º de Maio, «Dia do Trabalhador», como feriado nacional obrigatório — a primeira conquista legal depois da revolução.12 Quatro dias depois, Lisboa viveria o primeiro 1.º de Maio em liberdade.4
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – O «Dia do Trabalhador» (Dec.-Lei 175/74 de 27 de Abril)
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 3Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Cronologia Ilustrada – 1974
- 4Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril

28 de abril de 1974
Mário Soares chega do exílio a Santa Apolónia
Acompanhado por Maria Barroso, também fundadora do PS, o secretário-geral do partido, Mário Soares, chegou de comboio a Santa Apolónia, onde uma multidão o esperava; falou da varanda da estação, de altifalante na mão, e seguiu para o Palácio da Cova da Moura para se encontrar com Spínola.12 Dois dias depois chegaria Álvaro Cunhal.1
Estação de Santa Apolónia · Palácio da Cova da Moura · Mário Soares · Maria Barroso · António de Spínola

30 de abril de 1974
Álvaro Cunhal chega do exílio ao aeroporto
Depois de 14 anos de exílio, o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, foi recebido no aeroporto por uma multidão emocionada; Mário Soares esperava-o junto ao avião. Cunhal falou à multidão de cima de uma chaimite.12 No mesmo dia, um comunicado da Junta de Salvação Nacional autorizou o regresso de todos os exilados políticos.3
Aeroporto de Lisboa (Portela) · Álvaro Cunhal · Mário Soares

1 de maio de 1974
Primeiro 1.º de Maio em liberdade
Uma semana depois da revolução, cerca de meio milhão de pessoas enche Lisboa: a Alameda D. Afonso Henriques é ponto de encontro e o comício decorre no estádio da FNAT, logo rebatizado Estádio 1.º de Maio, sob o lema «Paz, Pão e Liberdade».124 No comício falam, entre outros, Nuno Teotónio Pereira, pelos católicos progressistas, Mário Soares e Álvaro Cunhal, que se abraçam.4 É a maior manifestação de sempre no país.2
Alameda D. Afonso Henriques e Fonte Luminosa · Estádio da FNAT (rebatizado Estádio 1.º de Maio) · Mário Soares · Álvaro Cunhal · Nuno Teotónio Pereira
Ver no arquivo: Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
Terceiro capítulo do filme de Alfredo Cunha (música de Rodrigo Leão, realização de Miguel Brugo), publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024, com fotografias dos meses que se seguiram à revolução. No livro, esta parte tem texto de Fernando Rosas e inclui o comício do primeiro 1.º de Maio em liberdade, no estádio da FNAT.
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Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

1 de maio de 1974
Libertação dos presos do Tarrafal
Reaberto em 1961 para presos dos movimentos de libertação de Angola, da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, o campo do Tarrafal guardava ainda, à data da revolução, 50 angolanos e 14 cabo-verdianos.31 A 1 de maio, militantes e simpatizantes do PAIGC dirigem-se ao campo e libertam os presos angolanos, guineenses e cabo-verdianos.12

7 de maio de 1974· mulheres
As «Três Marias» são absolvidas
Marcada para 18 de abril, a leitura da sentença só acontece na tarde de 7 de maio, na pequena sala do 6.º Juízo Correcional da Boa-Hora: o juiz Acácio Lopes Cardoso declara que as «Novas Cartas Portuguesas» não são pornográficas nem imorais, mas «obra de arte, de elevado nível», e absolve Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e o editor, Romeu de Melo.51114 As escritoras têm cravos vermelhos ao peito; a sala, cheia de feministas portuguesas e estrangeiras, grita «Mulheres unidas jamais serão vencidas».43 Nessa noite nasce o Movimento de Libertação das Mulheres.3
Tribunal da Boa-Hora · Maria Isabel Barreno · Maria Teresa Horta · Maria Velho da Costa
Hemeroteca Municipal de Lisboa: As Três Marias foram absolvidas
RTP Arquivos: Entrevista às “Três Marias”
- 1Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): “As três Marias foram absolvidas”
- 2Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC): Processo “Novas Cartas Portuguesas”
- 3Esquerda.net
- 4Hemeroteca Municipal de Lisboa – Livros que foram notícia
- 5Malomil (blogue)
- 6Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 7Wikipédia (ponto de partida)
- 8Museu do Aljube – Resistência e Liberdade
- 9Observador
- 10CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
- 11Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso (arquivo Ruella Ramos)
7 de maio de 1974· mulheres
Nasce o Movimento de Libertação das Mulheres (MLM)
Na noite da absolvição das «Três Marias», um grupo de mulheres reúne-se em casa de Maria Isabel Barreno, no Areeiro, para discutir a criação de um movimento feminista: surge o Movimento de Libertação das Mulheres, para «lutar pela igualdade e pela libertação das mulheres», nas palavras de Maria Teresa Horta.13 Entre as fundadoras estava Madalena Barbosa.4 Foi, segundo a historiadora Manuela Tavares, a primeira associação feminista a pôr na agenda política o aborto, as sexualidades e a violência contra as mulheres.3
Maria Isabel Barreno · Madalena Barbosa · Maria Teresa Horta

14 de maio de 1974
Extintas a Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa
A Lei n.º 2/74 extingue a Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa.1 A Lei n.º 3/74 define a estrutura constitucional transitória: a Constituição de 1933 mantém-se naquilo que não contrariar o Programa do MFA, e uma Assembleia Constituinte, eleita por sufrágio universal, direto e secreto até 31 de março de 1975, fará a nova.2 No mesmo dia, o Decreto-Lei n.º 199/74 extingue as comissões de censura aos espetáculos.3
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Extinção da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa (Lei 2/74 de 14 de Maio)
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Estrutura constitucional transitória (Lei 3/74 de 14 de Maio)
- 3Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Extinção da censura a espectáculos (Dec.-Lei 199/74 de 14 de Maio)

15 de maio de 1974
Spínola toma posse como Presidente da República
Proclamado Presidente da República pela Junta de Salvação Nacional, com poderes semelhantes aos da Constituição então em vigor e até às eleições, o general António de Spínola toma posse no Palácio de Queluz, saudado em nome da Junta por Costa Gomes.21 A escolha de Adelino da Palma Carlos para primeiro-ministro do I Governo Provisório é vista como uma vitória spinolista.1

16 de maio de 1974
Toma posse o I Governo Provisório, de Palma Carlos
Toma posse o I Governo Provisório, presidido por Adelino da Palma Carlos, com Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro, entre outros.21 Maria de Lourdes Pintasilgo é secretária de Estado da Segurança Social.3
17 de maio de 1974
Sai o primeiro «Avante!» legal
Depois de 43 anos de publicação clandestina — o primeiro número saíra em fevereiro de 1931 —, o jornal do PCP sai pela primeira vez legalmente.1
27 de maio de 1974
Fixado o primeiro salário mínimo nacional
O Decreto-Lei n.º 217/74 garante a todos os trabalhadores por conta de outrem, incluindo os funcionários públicos, uma remuneração não inferior a 3300$00 — o primeiro salário mínimo nacional, que beneficiava cerca de metade da população ativa.21 Ficavam de fora, para já, os militares, os trabalhadores rurais, os empregados domésticos e os menores de vinte anos.2 Vivia-se um período de grandes conflitos laborais, em empresas como a Lisnave, a Timex e os CTT, e de ocupações de casas desabitadas.1
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Cronologia Ilustrada – 1974
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Primeiras medidas económicas do Governo Palma Carlos: salário mínimo nacional e congelamento de rendas (Dec.-Lei 217/74 de 27 de Maio)

28 de maio de 1974
Artistas tapam a estátua de Salazar no Palácio Foz
Uma centena de artistas reunidos pelo Movimento Democrático dos Artistas Plásticos, nascido a 8 de maio na Sociedade Nacional de Belas Artes, entra no pátio do Palácio Foz, antiga sede da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, e tapa com um pano preto e uma faixa verde e vermelha a estátua de Salazar, obra de Francisco Franco. Querem-na guardada num museu: «A arte fascista faz mal à vista», dizia o pintor Vespeira.1
Palácio Foz – Secretariado de Propaganda Nacional / Secretariado Nacional de Informação (SPN/SNI) · Sociedade Nacional de Belas-Artes · António de Oliveira Salazar
12 de junho de 1974· mulheres
Decreto-Lei n.º 251/74 abre às mulheres a magistratura
O Decreto-Lei n.º 251/74 declara contrária aos princípios democráticos qualquer discriminação baseada no sexo e abre a todos os cidadãos, «independentemente do seu sexo», os cargos de juiz, do Ministério Público e dos quadros dos funcionários de justiça.21 Até ao fim de 1977, as mulheres até aos 45 anos de idade podiam concorrer a juiz e a delegado do procurador da República.2 Semanas depois, o Decreto-Lei n.º 308/74 abriria às mulheres a carreira diplomática.3

6 de julho de 1974· mulheres
Decreto-Lei n.º 308/74: as mulheres entram na carreira diplomática
Assinado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, o diploma dá nova redação à lei orgânica do ministério e deixa de exigir que os candidatos ao serviço diplomático sejam «do sexo masculino».21 O primeiro concurso aberto a mulheres abre a 13 de novembro de 1974: elas são logo 25% das candidaturas e 11 dos 43 admitidos.1

18 de julho de 1974· mulheres
Maria de Lourdes Pintasilgo, Ministra dos Assuntos Sociais
Secretária de Estado da Segurança Social no I Governo Provisório, Maria de Lourdes Pintasilgo assume no II, de Vasco Gonçalves, o Ministério dos Assuntos Sociais, que mantém no III, até 25 de março de 1975.125 Introduz o princípio da universalidade das prestações sociais do Estado e faz nascer a Comissão da Condição Feminina.54
RTP Arquivos: Conferência de Imprensa de Melo Antunes
- 1Governo da República Portuguesa – Arquivo Histórico: Governo Provisório II – Composição
- 2Governo da República Portuguesa – Arquivo Histórico: Governo Provisório III – Composição
- 3Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 4Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG)
- 5Arquivo Maria de Lourdes Pintasilgo / Fundação Cuidar o Futuro
- 6RTP Ensina

27 de julho de 1974
Lei n.º 7/74 reconhece o direito das colónias à independência
27 de agosto de 1974
Decreto-Lei n.º 392/74 regula o direito à greve
Revogando a proibição da greve e do lock-out do Estatuto do Trabalho Nacional de 1933, o diploma garante aos trabalhadores o direito à greve, com exceção das forças militares e militarizadas, dos magistrados, das polícias, dos guardas prisionais e dos bombeiros.1

7 de setembro de 1974
Acordo de Lusaka marca a independência de Moçambique para 25 de junho de 1975
Assinado em Lusaka pela FRELIMO, de Samora Machel, e por uma delegação portuguesa de que fazia parte Mário Soares, o acordo prevê a transferência progressiva de poderes, com um Alto-Comissário e um Governo de Transição, e a independência de Moçambique a 25 de junho de 1975, aniversário da FRELIMO.1 O cessar-fogo começa às zero horas de 8 de setembro.1

10 de setembro de 1974
Portugal reconhece a independência da Guiné-Bissau
Cumprindo o protocolo assinado em Argel a 26 de agosto com o PAIGC, o Presidente Spínola declara que Portugal reconhece solenemente a independência da República da Guiné-Bissau, que o PAIGC proclamara unilateralmente em setembro de 1973.124
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Declaração sobre a independência da Guiné-Bissau
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Acordo entre o Governo Português e o PAIGC
- 3Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Cronologia Ilustrada – 1974
- 4Associação 25 de Abril

28 de setembro de 1974
A «maioria silenciosa» e as barricadas
Spínola e setores conservadores convocaram para 28 de setembro, em Belém, uma manifestação de apoio ao Presidente que legitimasse o reforço dos seus poderes.12 Sindicatos, comissões de moradores e partidos de esquerda levantaram barricadas nos acessos a Lisboa e por todo o país; o COPCON, de Otelo Saraiva de Carvalho, prendeu organizadores, Spínola desconvocou a manifestação e o MFA proibiu-a.1325 A 30 de setembro, Spínola renunciou e Costa Gomes sucedeu-lhe.4
Palácio de Belém · António de Spínola · Otelo Saraiva de Carvalho · Costa Gomes
RTP Arquivos: Liberdade é Nome de Mulher
- 1Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: 28 de Setembro
- 2Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Apelos à «maioria silenciosa»
- 3Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Detenções do 28 de setembro
- 4RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola)
- 5Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra

30 de setembro de 1974
Spínola renuncia; Costa Gomes é Presidente
Numa reunião do Conselho de Estado, em intervenção transmitida pela RTP, o general Spínola anuncia a renúncia à Presidência da República, dois dias depois do fracasso da «maioria silenciosa».12 Sucede-lhe o general Costa Gomes e toma posse o III Governo Provisório, de novo chefiado por Vasco Gonçalves; reforça-se o domínio político dos militares e da esquerda.43
15 de novembro de 1974· mulheres
Lei eleitoral consagra o sufrágio universal aos 18 anos
O Decreto-Lei n.º 621-A/74, que aprova a parte da lei eleitoral relativa ao recenseamento, define como eleitores da Assembleia Constituinte «os cidadãos portugueses de ambos os sexos, maiores de 18 anos», e reconhece o direito de voto aos analfabetos.1 Pela primeira vez, as mulheres votam nas mesmas condições que os homens.24 O recenseamento começa a 9 de dezembro e inscreve mais de 6,2 milhões de eleitores, 53% dos quais mulheres, para as eleições de 25 de abril de 1975.32
- 1Diário da República Eletrónico
- 2Assembleia da República
- 3Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 4Ordem dos Advogados
- 5Wikipédia (português)
- 6RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Eleições para a Assembleia Constituinte
- 7RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): A eleição da Assembleia Constituinte

21 de novembro de 1974
Humberto Delgado reintegrado a título póstumo
Considerando que «a Nação sente como seu dever o reconhecimento público das virtudes e do valor» do general Humberto Delgado, o Decreto-Lei n.º 647/74 reintegra-o a título póstumo no seu posto da Força Aérea.1 Assassinado em 1965 perto de Olivença, Delgado seria trasladado para Lisboa em 1975 e para o Panteão Nacional em 1990.2
1975

1975· mulheres
Maria Lamas volta à «Modas e Bordados», como diretora honorária
Afastada d'O Século em 1947, quando a polícia fechou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, Maria Lamas é convidada por Maria Antónia Fiadeiro, chefe de redação, para diretora honorária da revista onde trabalhara mais de vinte anos.1 Fiadeiro dedica-lhe um número especial, e a revista passa a chamar-se «Mulher – Modas e Bordados», com uma linha editorial feminista.2
O Século — a redação de «Modas e Bordados» · Maria Lamas · Maria Antónia Fiadeiro

13 de janeiro de 1975· mulheres
Manifestação feminista do MLM atacada no Parque Eduardo VII
Cerca de quinze militantes do Movimento de Libertação das Mulheres, entre elas Maria Teresa Horta, preparam no Parque Eduardo VII uma ação simbólica: queimar «símbolos da opressão» — os códigos Civil e Penal, revistas pornográficas, panos do pó —, com uma noiva, uma dona de casa e uma vamp a encarnar os estereótipos femininos.21 Atraída por uma notícia do Expresso que anunciava um «strip-tease», uma multidão de homens insulta, apalpa e agride as mulheres; só a noiva não é tocada.23 Muitas refugiam-se em casa de Madalena Barbosa, junto ao parque.3 «Dez mulheres apenas bastaram para pôr o centro da cidade em polvorosa. Que poderão fazer cem mil?», perguntou Maria Antónia Palla no «Século Ilustrado».1
Parque Eduardo VII · Madalena Barbosa · Maria Antónia Palla · Maria Teresa Horta
RTP Arquivos: Boicote à manifestação do Movimento de Libertação das Mulheres
15 de janeiro de 1975
Acordo do Alvor fixa a independência de Angola

1 de fevereiro de 1975· mulheres
Criada a Comissão da Condição Feminina
Por iniciativa de Maria de Lourdes Pintasilgo, ministra dos Assuntos Sociais, o Decreto-Lei n.º 47/75 dá autonomia administrativa e põe em regime de instalação a Comissão da Condição Feminina (CCF), herdeira da comissão para a política relativa à mulher que ela presidia desde 1973.513 Antecessora da atual CIG, a CCF começa o levantamento das discriminações legais contra as mulheres e as primeiras propostas de mudança no direito da família e do trabalho.1
15 de fevereiro de 1975· mulheres
Protocolo Adicional à Concordata abre caminho ao divórcio dos casamentos católicos
No Vaticano, Portugal e a Santa Sé assinam um Protocolo Adicional que dá nova redação ao artigo XXIV da Concordata de 1940: os tribunais civis deixam de estar impedidos de decretar o divórcio dos casamentos católicos, e a Santa Sé limita-se a lembrar aos católicos o «grave dever» de não recorrerem a ele.31 Assinou-o pelo Estado português o ministro da Justiça, Salgado Zenha.1 Abria caminho à nova lei do divórcio, de maio.4

março de 1975 a 7 de novembro de 1975
O «caso Renascença»
Depois do 11 de Março, uma comissão de trabalhadores ocupa os estúdios de Lisboa da Rádio Renascença, propriedade do Episcopado.12 A 18 de junho, uma manifestação de apoio aos trabalhadores cruza-se com uma contramanifestação de católicos, que se refugiam no Patriarcado.1 O primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo manda encerrar a emissora a 29 de setembro; reocupada a 21 de outubro, o conflito só acaba com a destruição à bomba dos emissores da Buraca, por ordem do Governo, a 7 de novembro.1
Rádio Renascença (estúdios da Rua Capelo) · Pinheiro de Azevedo
8 de março de 1975· mulheres
Primeiro Dia Internacional da Mulher celebrado em liberdade
Depois de comemorações clandestinas e reprimidas — em Lisboa, em 1953, no Porto, em 1962, na Serra de Sintra, em 1969 —, o 8 de Março é pela primeira vez celebrado em Portugal em liberdade.1 É o Ano Internacional da Mulher, proclamado pela ONU.2
RTP Arquivos: Comemorações do Dia Internacional da Mulher em Lisboa

11 de março de 1975
Golpe spinolista de 11 de Março falha
A ala spinolista tenta um golpe: aviões da Base Aérea n.º 3 atacam o quartel do RAL 1, em Lisboa, e paraquedistas de Tancos cercam-no; morre o soldado Joaquim Carvalho Luís.531 No Quartel do Carmo, oficiais da GNR prendem o comandante-geral; o COPCON ocupa o aeroporto, a 5.ª Divisão a Emissora Nacional, e o emissor do Rádio Clube Português em Porto Alto é atacado.536 O golpe falha ao princípio da tarde e Spínola foge de helicóptero para Espanha; seguem-se a criação do Conselho da Revolução e a nacionalização da banca e dos seguros.62
Quartel do Regimento de Artilharia Ligeira n.º 1 (RAL 1, depois RALIS) · Largo do Carmo e Quartel do Carmo · Aeroporto de Lisboa (Portela) · Emissora Nacional (Rua do Quelhas) · Rádio Clube Português (estúdios da Rua Sampaio e Pina) · António de Spínola
RTP Arquivos: Intentona de 11 de Março
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Cronologia Ilustrada – 1975
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Instituição do Conselho da Revolução (Lei 5/75 de 14 de Março)
- 3Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 4Ler História, n.º 69 (OpenEdition Journals)
- 5RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): RAL 1 – Lisboa
- 6RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Os acontecimentos do 11 de Março de 1975
- 7RTP Ensina
14 de março de 1975
Criação do Conselho da Revolução e nacionalização da banca
A Lei Constitucional n.º 5/75 extingue a Junta de Salvação Nacional e o Conselho de Estado e cria o Conselho da Revolução e a Assembleia do MFA, que assim se institucionaliza depois do 11 de Março.41 No mesmo dia, o Decreto-Lei n.º 132-A/75 nacionaliza a banca comercial; a 15 de março as nacionalizações estendem-se aos seguros.2
- 1Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Institucionalização do MFA
- 2Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Reformas económicas
- 3RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola)
- 4Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – Instituição do Conselho da Revolução (Lei 5/75 de 14 de Março)
- 5Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra: Legislação 25A – As jornadas de Março segundo a Imprensa; Costa Gomes dá posse ao Conselho da Revolução (20/3/75)

25 de abril de 1975· mulheres
Primeiras eleições livres e por sufrágio universal
Um ano depois da revolução, 91,7% dos eleitores votam nas primeiras eleições livres, para a Assembleia Constituinte; o recenseamento passara de cerca de 1,8 milhões de eleitores, em 1973, para mais de 6,2 milhões, 53% dos quais mulheres.214 O PS vence com 37,9%, seguido do PPD (26,4%) e do PCP (12,5%).2 São eleitas 20 deputadas em 250, cerca de 8%.1
Ver no arquivo: Assembleia da República
Documentário curto do Parlamento sobre as eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de abril de 1975, o primeiro sufrágio livre e universal do país. Votaram cerca de 92 % dos eleitores inscritos, quase seis milhões de pessoas.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Assembleia da República
Assembleia da República, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
RTP Arquivos: Eleições para a Assembleia Constituinte em Lisboa
- 1Assembleia da República
- 2Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 3Comissão Nacional de Eleições
- 4Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC)
- 5RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Eleições para a Assembleia Constituinte
- 6RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Resultado das eleições
- 7Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
- 8Assembleia da República – Comunicar
- 9Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra

25 de abril de 1975· mulheres
Eleição da Assembleia Constituinte: 20 deputadas
Nas eleições para a Assembleia Constituinte são eleitas 20 mulheres num total de 250 deputados.2 Com renúncias e substituições, 27 deputadas exercem funções até 2 de abril de 1976 — 16 do PS, cinco do PCP, cinco do PPD e uma do CDS —, entre elas Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Alda Nogueira e Helena Roseta.12 Na Câmara tratavam-nas por «minha senhora», e os risos com que foi recebida a proposta de um artigo sobre a igualdade da mulher justificavam, para Alda Nogueira, que o princípio ficasse na Constituição.2
Palácio de São Bento · Sophia de Mello Breyner Andresen · Maria Alda Nogueira · Helena Roseta
Ver no arquivo: Assembleia da República
Peça curta da série «Cápsula do Tempo», do Parlamento, dedicada às mulheres na Assembleia Constituinte de 1975–1976.
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19 de maio de 1975
Começa o «caso República»
Os trabalhadores do República afastam o diretor, Raul Rêgo, o diretor-adjunto e o chefe de redação, acusando-os de serem porta-vozes do PS; Rêgo e os jornalistas solidários ficam retidos nas instalações até o ministro da Comunicação Social os mandar libertar.21 O caso torna-se um dos principais confrontos da revolução: quando o jornal volta a sair, em julho, sob direção militar, os ministros do PS, de Mário Soares, saem do Governo.23
Sede do jornal República (Rua da Misericórdia) · Mário Soares
27 de maio de 1975· mulheres
Decreto-Lei n.º 261/75 permite o divórcio dos casados pela Igreja
Aplicando o Protocolo Adicional à Concordata, o IV Governo Provisório altera o Código Civil: o casamento católico passa a reger-se, nos seus efeitos, pela lei do Estado e pode ser dissolvido nos tribunais civis «nos mesmos termos e com os mesmos fundamentos» que o civil.12 O diploma, do ministro da Justiça Salgado Zenha, institui também o divórcio por mútuo consentimento.1
27 de maio de 1975· mulheres
Nova lei do divórcio
Promulgado a 22 de maio, o Decreto-Lei n.º 261/75 ficou conhecido como a nova lei do divórcio.13 Desde a Concordata de 1940, os tribunais civis não podiam decretar o divórcio dos casamentos católicos — uma solução que, notava o diploma, só vigorava em Portugal e na República Dominicana.3 Para os historiadores das «Memórias da Revolução», da RTP, até ao 25 de Abril as mulheres estavam impedidas de se divorciar e de viajar para o estrangeiro sem o consentimento do marido.2
- 1RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Nova lei do divórcio
- 2RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Direitos das mulheres
- 3Diário da República Eletrónico
- 4Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – Análise Social

2 de junho de 1975· mulheres
Sessão inaugural da Assembleia Constituinte
Com um discurso do Presidente Costa Gomes, abre em São Bento a Assembleia Constituinte, que trabalhará dez meses.31 Das 27 deputadas que ali tiveram assento, só seis participaram em comissões e apenas Sophia de Mello Breyner Andresen presidiu a uma, a da redação do preâmbulo da Constituição; Maria Alda Nogueira foi a única mulher da 1.ª Comissão.1
Palácio de São Bento · Costa Gomes · Sophia de Mello Breyner Andresen · Maria Alda Nogueira
Ver no arquivo: Assembleia da República
Evocação, pelo Parlamento, da sessão inaugural da Assembleia Constituinte, aberta às 16h12 de 2 de junho de 1975 pelo presidente interino Henrique de Barros. Acompanha os trabalhos até à aprovação da Constituição, a 2 de abril de 1976.
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RTP Arquivos: Abertura solene da Assembleia Constituinte
- 1Assembleia da República
- 2RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): A eleição da Assembleia Constituinte
- 3RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Abertura solene da Assembleia Constituinte
25 de junho de 1975
Independência de Moçambique
Moçambique torna-se independente, na data fixada pelo Acordo de Lusaka: o aniversário da fundação da FRELIMO.123

5 de julho de 1975
Independência de Cabo Verde
É proclamada na cidade da Praia a independência de Cabo Verde.12 O PAIGC, partido da independência da Guiné e de Cabo Verde, fora fundado em 1959 por Amílcar Cabral e outros; Cabral fora assassinado em Conacri em 1973.3
12 de julho de 1975
Independência de São Tomé e Príncipe
São Tomé e Príncipe torna-se independente.12 Em novembro, a poeta Alda do Espírito Santo, depois ministra da Educação e Cultura, escreve a letra do hino nacional, «Independência Total».3
13 de julho de 1975
Assalto à sede do PCP em Rio Maior abre o «Verão Quente»

19 de julho de 1975
Comício do PS na Fonte Luminosa
Na Alameda D. Afonso Henriques, junto à Fonte Luminosa, o PS reuniu uma multidão; Mário Soares atacou diretamente o PCP, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves e a Intersindical e exigiu a demissão do chefe do Governo.12 É considerado um dos momentos decisivos do Verão Quente.21

agosto de 1975 a outubro de 1975
A «ponte aérea» traz de Angola mais de 228 mil pessoas
Entre agosto e outubro de 1975, a «ponte aérea» organizada pelo Governo entre Luanda e o aeroporto de Lisboa transporta 228 471 passageiros, parte deles em aviões cedidos por outros países, antes da independência de Angola, marcada para 11 de novembro.1 Estima-se que cerca de meio milhão de pessoas, que ficaram conhecidas como «retornados», tenham chegado das antigas colónias, sobretudo no verão e no outono de 1975.2 Os caixotes com os seus haveres cobriram durante meses o cais da Gare Marítima de Alcântara.3

8 de agosto de 1975
O «Documento dos Nove»
Um grupo de oficiais do MFA — entre os subscritores estava Salgueiro Maia — assina o «Documento dos Nove», contra a orientação do primeiro-ministro Vasco Gonçalves.13 A 13 de agosto, o COPCON, de Otelo Saraiva de Carvalho, responde com a sua «autocrítica revolucionária», o «Documento do COPCON»: o MFA parte-se em três campos — os «Nove», próximos do PS, os «gonçalvistas», ligados ao PCP, e a linha de Otelo.2
27 de setembro de 1975
Manifestantes destroem a Embaixada de Espanha em Lisboa
12 de outubro de 1975· mulheres
2.º Encontro Nacional do MDM no Liceu D. Filipa de Lencastre
Sob o lema «Mulher: Portugal novo também é teu filho», o Movimento Democrático de Mulheres reúne-se no Liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, num encontro presidido por Maria Lamas e outras dirigentes.1 Elege Maria Lamas presidente honorária, aprova os primeiros estatutos e envia ao presidente da Assembleia Constituinte uma moção contra o facto de ainda não ter sido aprovada «qualquer medida referente à igualdade de direitos entre a mulher e o homem».1

7 de novembro de 1975
Militares fazem explodir os emissores da Rádio Renascença
Por ordem do Governo, o Agrupamento Militar de Intervenção faz explodir os emissores da Rádio Renascença, na Buraca, pondo fim ao conflito com os trabalhadores que ocupavam a emissora.12 A 27 de novembro, a Rádio Renascença seria devolvida à Igreja.1

11 de novembro de 1975
Independência de Angola
Depois de as autoridades portuguesas se retirarem a 10 de novembro, é proclamada a independência de Angola, fixada pelo Acordo do Alvor; o MPLA, de Agostinho Neto, assume sozinho o poder em Luanda, e o país mergulha numa longa guerra civil.123

12 de novembro de 1975
Trabalhadores da construção civil cercam a Assembleia Constituinte
Em luta pelo contrato coletivo de trabalho, uma manifestação de operários da construção civil — cerca de 100 mil pessoas, segundo a imprensa da época — cerca o Palácio de São Bento e impede os deputados constituintes de sair durante 36 horas.31 Na residência oficial, ao lado, fica retido o primeiro-ministro, Pinheiro de Azevedo, que só na madrugada de 14 fecha um acordo com os sindicatos; os deputados saem ao fim da manhã de 13, entre alas de manifestantes.356 Entre eles estavam Sophia de Mello Breyner Andresen, que respondeu «Fascista, eu?», e Helena Roseta, que protestaria na Constituinte contra o «espetáculo de manipulação».23
Palácio de São Bento · Pinheiro de Azevedo · Sophia de Mello Breyner Andresen · Helena Roseta
RTP Arquivos: Sessão na Assembleia Constituinte
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 2Assembleia da República
- 3Assembleia da República – Comunicar: O cerco ao Palácio de São Bento (12/13 de novembro)
- 4RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Cerco à Assembleia Constituinte – Parte 1
- 5RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): Cerco à Assembleia Constituinte – Parte 2
- 6RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): A eleição da Assembleia Constituinte
- 7Assembleia da República – Comunicar: A construção da democracia (1974-1976)

16 de novembro de 1975
Manifestação unitária no Terreiro do Paço
Quatro dias depois do cerco a São Bento, realizou-se no Terreiro do Paço uma grande manifestação unitária contra a «viragem à direita» do VI Governo Provisório; os deputados do PS, do PPD e do CDS tinham partido para o Porto, por entenderem não haver segurança em Lisboa.1 Na Constituinte, o deputado comunista Octávio Pato evocou-a como «um marco no combate pela revolução democrática, rumo ao socialismo».1
Terreiro do Paço (Praça do Comércio)
RTP Arquivos: Manifestação de trabalhadores da cintura industrial de Lisboa I

25 de novembro de 1975
25 de Novembro: fim do período revolucionário
De madrugada, paraquedistas da Base-Escola de Tancos ocupam bases aéreas e o Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto; forças do RALIS, o antigo RAL 1, tomam posições e a Escola Prática de Administração Militar ocupa os estúdios da RTP.24 No Palácio de Belém, o Presidente Costa Gomes chama Álvaro Cunhal para desmobilizar os militantes do PCP e decreta o estado de sítio na região de Lisboa; os Comandos da Amadora, dos militares do «Grupo dos Nove», respondem.21 A Emissora Nacional é ocupada pela Polícia Militar e o Rádio Clube Português deixa de emitir; a 26, o ataque dos Comandos ao Regimento da Polícia Militar, na Calçada da Ajuda — o quartel de Lanceiros 2 —, faz três mortos.21 Otelo Saraiva de Carvalho é afastado do comando do COPCON.1
Palácio de Belém · Quartel de Lanceiros 2 / Regimento de Polícia Militar (Calçada da Ajuda) · Estúdios da RTP no Lumiar · Emissora Nacional (Rua do Quelhas) · Rádio Clube Português (estúdios da Rua Sampaio e Pina) · Quartel do Regimento de Artilharia Ligeira n.º 1 (RAL 1, depois RALIS) · Costa Gomes · Otelo Saraiva de Carvalho · Álvaro Cunhal
- 1Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 2Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: 25 de Novembro de 1975
- 3RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): 25 de Novembro
- 4RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola): O desencadear do 25 de Novembro
- 5Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril: Salgueiro Maia
7 de dezembro de 1975
A Indonésia invade Timor
1976

4 de fevereiro de 1976· mulheres
RTP emite «O Aborto não é um Crime», de Maria Antónia Palla
Na série «Nome Mulher», que fazia com Antónia de Sousa, a jornalista Maria Antónia Palla mostra a prática do aborto clandestino numa reportagem realizada por Monique Rutler, da cooperativa Cinequipa.12 Perante os protestos, a série é suspensa e, depois de uma queixa da direção da Maternidade Alfredo da Costa por «exercício ilegal da medicina», o Ministério Público acusa Palla de atentado público ao pudor e incitamento ao crime.21 O julgamento começa a 16 de maio de 1979 no Tribunal da Boa-Hora, com a advogada Lia Viegas na defesa; Palla defende então que é urgente legalizar o aborto, para acabar com «esse negócio escandaloso que é o aborto clandestino».12 Acaba absolvida.2
Tribunal da Boa-Hora · Maria Antónia Palla

2 de abril de 1976· mulheres
Assembleia Constituinte aprova a Constituição da República
Depois de dez meses de trabalhos no Palácio de São Bento, a Assembleia Constituinte lê na íntegra o texto da Constituição a partir das 9h45 e aprova-o à tarde, com os votos contra do CDS; cerca das 22h00, o Presidente Costa Gomes assina o decreto de promulgação.109 O artigo 13.º proíbe privilegiar ou prejudicar alguém em razão do sexo e o artigo 36.º dá aos cônjuges «iguais direitos e deveres», o que obriga a rever o Código Civil.62 Das 27 deputadas que passaram pela Constituinte, só Sophia de Mello Breyner Andresen presidiu a uma comissão, a da redação do preâmbulo.1 A Constituição entra em vigor a 25 de abril de 1976, o dia das primeiras eleições legislativas.610
Palácio de São Bento · Costa Gomes · Sophia de Mello Breyner Andresen
Ver no arquivo: Assembleia da República
Evocação, pelo Parlamento, da sessão inaugural da Assembleia Constituinte, aberta às 16h12 de 2 de junho de 1975 pelo presidente interino Henrique de Barros. Acompanha os trabalhos até à aprovação da Constituição, a 2 de abril de 1976.
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RTP Arquivos: Aprovação da Constituição da República Portuguesa 1976
- 1Assembleia da República: As mulheres na Constituinte de 1975-1976
- 2Assembleia da República: A revisão do Código Civil e os Direitos das Mulheres (1977)
- 3Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra
- 4Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG)
- 5Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – Análise Social
- 6Assembleia da República: Constituição da República Portuguesa – texto originário, aprovado em 2 de abril de 1976
- 7Assembleia da República – Comunicar: O cerco ao Palácio de São Bento (12/13 de novembro)
- 8Assembleia da República – Comunicar: A construção da democracia (1974-1976)
- 9RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola)
- 10Assembleia da República – Comunicar: Sessão de encerramento da Assembleia Constituinte (1976)
1976–hoje
Depois de 1976
A democracia constitucional — e a luta das mulheres pela igualdade na lei e na vida, que não acabou em 1976.
1976

25 de abril de 1976
Primeiras eleições legislativas
No dia em que a nova Constituição entra em vigor, os portugueses elegem pela primeira vez os 263 deputados da Assembleia da República, um ano depois das eleições para a Constituinte.52 O PS de Mário Soares vence com 34,88% e 107 deputados, à frente do PPD (24,35%), do CDS (15,97%) e do PCP (14,39%); a abstenção duplica, de 8,34% para 16,47%.51 A campanha decorre num clima de violência política: a 2 de abril, uma bomba colocada no automóvel em que seguiam vitima o padre Maximino de Sousa, candidato da UDP por Vila Real, e uma jovem de 19 anos.5

29 de abril de 1976· mulheres
O Conselho da Revolução extingue «O Século — Hoje», de Natália Correia
Desde 20 de abril, Natália Correia dirigia «O Século — Hoje», suplemento político diário d'O Século, a convite do diretor do jornal, João Gaspar Simões; o primeiro número trazia como editorial a Declaração Universal dos Direitos do Homem, e o de 24 de abril, véspera de eleições, saiu com «Visado pela Comissão de Reflexão» a vermelho na primeira página. A 29 de abril, sob proposta do Presidente Costa Gomes, o Conselho da Revolução extingue-o por publicar artigos «ofensivos e caluniosos para o Conselho da Revolução e para as Forças Armadas». O nono e último número sai no dia seguinte.1
O Século — a redação de «Modas e Bordados» · Natália Correia · Costa Gomes

27 de junho de 1976
Ramalho Eanes eleito primeiro Presidente constitucional
António Ramalho Eanes é o primeiro Presidente da República eleito ao abrigo da Constituição de 1976, com 61,5% dos votos, à frente de Otelo Saraiva de Carvalho (16,5%), de Pinheiro de Azevedo (14,4%) e de Octávio Pato (7,5%).1 No mesmo dia elegem-se as assembleias regionais dos Açores e da Madeira.2 Só depois desta eleição toma posse o I Governo Constitucional.3

23 de julho de 1976
Toma posse o I Governo Constitucional, de Mário Soares
Toma posse o I Governo Constitucional, só do PS e chefiado por Mário Soares, que venceu as eleições de abril sem maioria absoluta e cumpre a promessa de governar sozinho; acaba a fase dos governos provisórios.134 Na composição do Governo, ao longo de 1976 a 1978, há uma só mulher: Manuela Morgado, secretária de Estado do Tesouro e depois das Finanças.1
1977

novembro de 1977· mulheres
Revisão do Código Civil acaba com o «chefe de família»
Em janeiro de 1977 toma posse, perante o ministro da Justiça, Almeida Santos, a comissão que revê o Código Civil, presidida por Isabel de Magalhães Colaço, a primeira mulher a doutorar-se em Direito em Portugal; dela faz parte Maria da Nazareth Lobato Guimarães, a primeira a ensinar Direito na Universidade de Coimbra.1 A 12 de julho, a Assembleia da República autoriza o Governo a legislar, só com os votos contra do CDS; Alda Nogueira, do PCP, saúda uma proposta que «reintegra a mulher no lugar que lhe compete» na família, «como o ser de iguais direitos e deveres que é».1 O Decreto-Lei n.º 496/77, promulgado a 6 de outubro e publicado a 25 de novembro, entra em vigor a 1 de abril de 1978: acaba o poder marital, e o casamento passa a assentar na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges.41 A Comissão da Condição Feminina esteve muito envolvida nestas alterações.3
Palácio de São Bento · Maria Alda Nogueira
Ver no arquivo: Assembleia da República
Peça do Parlamento sobre a revisão do Código Civil de 1977, que entrou em vigor a 1 de abril de 1978 e mudou os direitos das mulheres na família e no trabalho.
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17 de novembro de 1977· mulheres
Decreto-Lei n.º 485/77 institucionaliza a Comissão da Condição Feminina
Em regime de instalação desde 1975, a Comissão da Condição Feminina ganha lei orgânica: o Decreto-Lei n.º 485/77 integra-a na Presidência do Conselho de Ministros, na dependência do primeiro-ministro, para «apoiar todas as formas de consciencialização das mulheres portuguesas e a eliminação das discriminações contra elas praticadas».21 O seu conselho consultivo tem uma secção interministerial e outra de organizações não governamentais de mulheres, que Maria de Lourdes Pintasilgo já chamara a trabalhar com a comissão.21 A CIG, sua herdeira, festeja nesta data o aniversário institucional.1
25 de novembro de 1977· mulheres
Decreto-Lei n.º 496/77: reforma do Código Civil
Publicado num suplemento do Diário da República, o Decreto-Lei n.º 496/77 reescreve o direito da família para cumprir a Constituição de 1976, que impõe «a plena igualdade de direitos e deveres dos cônjuges».1 Desaparece o poder marital: a orientação da vida familiar cabe aos dois, a residência da família escolhe-se por acordo, a mulher casada deixa de ter por domicílio legal o do marido e cada cônjuge pode exercer qualquer profissão sem o consentimento do outro.1 A idade para casar passa a ser de 16 anos para a mulher como para o homem, a maioridade desce para os 18 anos e acaba a discriminação dos filhos nascidos fora do casamento.1 Promulgado a 6 de outubro, o diploma entra em vigor a 1 de abril de 1978 e fecha a revisão preparada ao longo de 1977.12
Ver no arquivo: Assembleia da República
Peça do Parlamento sobre a revisão do Código Civil de 1977, que entrou em vigor a 1 de abril de 1978 e mudou os direitos das mulheres na família e no trabalho.
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1978

18 de fevereiro de 1978
Lisboa acompanha a trasladação dos mortos do Tarrafal
Debaixo de chuva forte, milhares de pessoas percorrem Lisboa a acompanhar os restos mortais dos presos que morreram no campo de concentração do Tarrafal, aos gritos de «Tarrafal nunca mais» e «Fascismo nunca mais».1 No Cemitério do Alto de São João é inaugurado um mausoléu, erguido por subscrição pública, com os nomes das 32 vítimas e a dedicatória «Aos que na longa noite do fascismo foram portadores da liberdade e pela liberdade morreram no Campo de Concentração do Tarrafal».1 Os 32 morreram entre 1936 e o primeiro encerramento do campo, em 1954.2
Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde)
RTP Arquivos: Funeral e trasladação das vítimas do Campo de Concentração do Tarrafal
1979

1 de agosto de 1979· mulheres
Maria de Lourdes Pintasilgo, primeira mulher primeira-ministra
Convidada pelo Presidente Ramalho Eanes para chefiar um governo de gestão, Maria de Lourdes Pintasilgo toma posse no Palácio da Ajuda à frente do V Governo Constitucional, que dura até janeiro de 1980.134 É a primeira mulher a chefiar um governo em Portugal e a segunda na Europa, depois de Margaret Thatcher.35 No seu Governo há mais duas mulheres, as secretárias de Estado Teresa Santa Clara Gomes e Gabriela Guedes Salgueiro, e a escritora Maria Velho da Costa é adjunta do secretário de Estado da Cultura, Hélder Macedo.28
20 de setembro de 1979· mulheres
Decreto-Lei n.º 392/79: igualdade no trabalho e no emprego
O diploma garante às mulheres igualdade de oportunidades e de tratamento com os homens no trabalho e no emprego, proíbe anúncios de emprego com preferências de sexo e revoga as normas que lhes vedavam o acesso a qualquer emprego ou profissão; junto do Ministério do Trabalho cria a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE).1 No preâmbulo, o Governo reconhece que a igualdade «não será alcançada por mera obra da lei».1 Foi aprovado em Conselho de Ministros a 31 de julho de 1979, ainda pelo Governo de Carlos Mota Pinto, e promulgado pelo Presidente Ramalho Eanes a 31 de agosto.1
1980

25 de abril de 1980
Placa de cidadãos na antiga sede da PIDE
No sexto aniversário da revolução, um grupo de cidadãos coloca na fachada da antiga sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, uma placa: «Aqui, na tarde de 25 de Abril de 1974, a PIDE abriu fogo sobre o povo de Lisboa e matou», seguida dos nomes de Fernando Giesteira, José Barneto, Fernando Reis e João Arruda — dois deles grafados com erro, «Fernando C. Gesteira» e «José Guilherme R. Arruda».1234 Retirada nas obras que fizeram do edifício um condomínio de luxo, a placa só foi reposta no fim de 2009, depois de uma queixa do movimento Não Apaguem a Memória, e num canto inferior quase invisível para quem passa.1 Roubada no fim de março de 2014, foi substituída pela Câmara de Lisboa por uma réplica, no mesmo lugar, em abril desse ano.5 Em 2010, a Câmara pusera ali outra placa, sobre a história do lugar.3
Sede da PVDE / PIDE / DGS · Fernando Giesteira · José Barneto · Fernando Reis · João Arruda
26 de julho de 1980· mulheres
Portugal ratifica a Convenção CEDAW sem reservas
A Lei n.º 23/80, aprovada pela Assembleia da República a 27 de junho e promulgada pelo Presidente Ramalho Eanes a 14 de julho, aprova para ratificação a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 18 de dezembro de 1979.452 Portugal, que a assinara a 24 de abril, entrega a ratificação a 30 de julho de 1980, sem reservas.5 Foi um dos primeiros países a fazê-lo, graças à revisão global da legislação feita depois do 25 de Abril, com a Comissão da Condição Feminina a levantar as discriminações nas leis.23
- 1Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG): Legislação (base de dados)
- 2Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG): História da CIG
- 3Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG): Igualdade entre Mulheres e Homens – Enquadramento
- 4Diário da República Eletrónico
- 5Nações Unidas – United Nations Treaty Collection
1982

2 de março de 1982· mulheres
Primeiro debate parlamentar sobre o aborto e o poema de Natália Correia
No primeiro debate parlamentar sobre a legalização do aborto, depois de Zita Seabra apresentar o projeto de lei n.º 309/II, do PCP, o deputado do CDS João Morgado pergunta se a mulher não é um objeto «quando se desliga a sua função materna da prática do acto sexual» e lembra que a Igreja proíbe o aborto porque, «quando se pratica o acto sexual», é «para se ver o nascimento de um filho»; a versão que ficou na memória, «o acto sexual é para fazer filhos», negou-a ele dias depois.21 Natália Correia, que faltou à sessão, responde-lhe com um poema satírico manuscrito em papel timbrado da Assembleia, que faz circular entre os deputados mas nunca lê em plenário: «Já que o coito – diz Morgado – tem como fim cristalino, preciso e imaculado fazer menina ou menino…».12 O projeto é rejeitado a 11 de novembro de 1982; Natália é a única deputada do PSD a votar a favor.1
1984
24 de março de 1984· mulheres
Lei n.º 3/84 sobre educação sexual e planeamento familiar
A Lei n.º 3/84 garante o direito à educação sexual, como parte do direito à educação, e o livre acesso às consultas de planeamento familiar, que nos serviços públicos são gratuitas, tal como os contracetivos que estes fornecem.3 Os programas escolares devem ensinar anatomia, fisiologia, genética e sexualidade humanas e contribuir para «a superação das discriminações em razão do sexo e da divisão tradicional de funções entre mulher e homem».3 A lei chama a Comissão da Condição Feminina, que fazia do planeamento familiar uma das suas áreas de trabalho, a colaborar nas campanhas de divulgação dos métodos contracetivos.32
5 de abril de 1984· mulheres
Lei n.º 4/84: proteção da maternidade e da paternidade
A Lei n.º 4/84 reconhece a maternidade e a paternidade como «valores sociais eminentes» e garante aos pais, «em condições de igualdade», a realização profissional e a participação na vida cívica.2 As trabalhadoras passam a ter direito a uma licença de maternidade de 90 dias, 60 dos quais logo a seguir ao parto, e a duas pausas diárias de até uma hora para amamentar, até o filho fazer um ano; o pai só pode gozar parte da licença se a mãe ficar incapacitada ou morrer.2 As faltas por maternidade não fazem perder direitos e contam como trabalho efetivo, salvo quanto à remuneração.21

11 de maio de 1984· mulheres
Lei n.º 6/84 despenaliza a interrupção da gravidez em alguns casos
Aprovada pela Assembleia da República a 14 de fevereiro e publicada a 11 de maio, a Lei n.º 6/84 altera o Código Penal: o aborto feito por médico, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher, deixa de ser punível quando é o único meio de afastar perigo de morte ou de lesão grave e irreversível para ela e, dentro de prazos, para evitar perigo grave para a sua saúde (12 semanas), em caso de doença grave ou malformação incurável do feto (16 semanas) ou de gravidez resultante de violação (12 semanas).4 Fora destes casos, o aborto continua a ser crime, punido com prisão até três anos, também para a mulher; a despenalização a pedido da mulher só chega em 2007.43 Feministas como Madalena Barbosa, porta-voz da Campanha Nacional pelo Aborto e Contraceção em 1979, lutavam pela despenalização; no ano da lei, a jornalista Maria Antónia Fiadeiro publica «Aborto, o crime está na lei».3
Palácio de São Bento · Maria Antónia Fiadeiro · Madalena Barbosa
1985
1985· mulheres
Leonor Beleza, primeira mulher Ministra da Saúde
Leonor Beleza, que fora membro da Comissão da Condição Feminina de 1975 a 1982 e presidira, no Conselho da Europa, ao Comité para a Igualdade entre as Mulheres e os Homens, torna-se no governo de Cavaco Silva a primeira mulher ministra da Saúde, cargo que ocupa até 1990.1 Antes fora secretária de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e da Segurança Social.1
1986

26 de janeiro de 1986· mulheres
Pintasilgo, primeira mulher candidata à Presidência da República
Nas eleições presidenciais de 26 de janeiro de 1986, Maria de Lourdes Pintasilgo é a primeira mulher a candidatar-se a Presidente da República, como candidata independente.32 Obtém 418 961 votos (7,38%) e fica em quarto lugar, atrás de Freitas do Amaral, Mário Soares e Salgado Zenha; a segunda volta disputa-se entre os dois primeiros.4 Na noite eleitoral, o seu diretor de campanha, Sousa e Castro, diz à RTP que esperava uma percentagem maior.1
1989
1989· mulheres
Assunção Esteves, primeira mulher juíza do Tribunal Constitucional
Formada em Direito e Ciências Jurídico-Políticas, Assunção Esteves é eleita juíza do Tribunal Constitucional aos 33 anos — a primeira mulher no cargo.1 Eleita deputada pela primeira vez em 1987, viria a ser, em 2011, a primeira mulher a presidir à Assembleia da República.1
1990

5 de outubro de 1990
Humberto Delgado no Panteão Nacional
Com honras de Panteão concedidas pela Assembleia da República em 1988, os restos mortais de Humberto Delgado — assassinado perto de Olivença em 1965, sepultado em Espanha e trazido para Lisboa em 1975 — entram no Panteão Nacional.13 Na cerimónia, com guarda de honra e aviões militares a sobrevoar o Panteão, discursam Emídio Guerreiro, da comissão de honra da homenagem, e o Presidente Mário Soares, diante do primeiro-ministro Cavaco Silva e de Maria Barroso.2
Igreja de Santa Engrácia – Panteão Nacional · Humberto Delgado · Mário Soares · Maria Barroso
RTP Arquivos: Trasladação dos restos mortais de Humberto Delgado
1991
9 de maio de 1991· mulheres
Comissão da Condição Feminina passa a CIDM
O Decreto-Lei n.º 166/91 transforma a Comissão da Condição Feminina em Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres (CIDM).21 No preâmbulo, o Governo dá por alcançada uma «legislação globalmente igualitária» e explica o novo nome: a comissão deve passar da «denúncia de discriminação das mulheres» ao «desenvolvimento de acções para a construção de uma verdadeira igualdade de oportunidades».2 Entre os seus objetivos está conseguir «a corresponsabilidade efectiva das mulheres e dos homens» na vida familiar, profissional e política.2
1997
1997· mulheres
Revisão constitucional faz da igualdade entre mulheres e homens tarefa do Estado
A quarta revisão constitucional — a Lei Constitucional n.º 1/97, aprovada pela Assembleia da República a 3 de setembro e publicada a 20 de setembro — acrescenta às tarefas fundamentais do Estado, no artigo 9.º, «promover a igualdade entre homens e mulheres».3 O artigo sobre participação política, que passa a ser o 109.º, troca «dos cidadãos» por «de homens e mulheres» e manda a lei promover «a não discriminação em função do sexo no acesso a cargos políticos» — a base da futura Lei da Paridade.31
24 de março de 1997· mulheres
Aprovado o primeiro Plano Global para a Igualdade de Oportunidades
A Resolução do Conselho de Ministros n.º 49/97 aprova o I Plano Global para a Igualdade de Oportunidades, que manda integrar a igualdade entre mulheres e homens em todas as políticas e prevê medidas contra a violência sobre as mulheres e pela igualdade no emprego, na conciliação da vida familiar e profissional, na proteção da maternidade, na saúde e na educação.42 O preâmbulo reconhece que a participação das mulheres nos lugares de decisão política «é muito reduzida», mas o plano não traz medidas para o mudar, nota a Assembleia da República.43
1998
28 de junho de 1998· mulheres
Primeiro referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez
No primeiro referendo nacional, os eleitores respondem à pergunta «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?».2 Votam 31,9% dos inscritos; o «não» vence por pouco, com 1 356 754 votos (50,9%) contra 1 308 130 (49,1%) para o «sim».1 A despenalização a pedido da mulher só chegaria depois do segundo referendo, em 2007.3
1999

1999· mulheres
Maria de Belém, Ministra para a Igualdade
No XIV Governo Constitucional, Maria de Belém Roseira, que depois do 25 de Abril começara como adjunta de Maria de Lourdes Pintasilgo na Secretaria de Estado da Segurança Social, é nomeada Ministra para a Igualdade, cargo que ocupa até 2000.1 Antes fora ministra da Saúde, de 1995 a 1999.1

1999· mulheres
Sophia de Mello Breyner Andresen, primeira mulher portuguesa Prémio Camões
A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, que fora deputada à Assembleia Constituinte e presidira à comissão que redigiu o preâmbulo da Constituição de 1976, torna-se a primeira mulher portuguesa a receber o Prémio Camões.1
2000
27 de maio de 2000· mulheres
A violência doméstica passa a crime público
A Lei n.º 7/2000 reescreve o artigo 152.º do Código Penal e retira-lhe a regra de 1998 que fazia depender de queixa da vítima o processo contra quem maltratasse o cônjuge ou companheiro: os maus tratos físicos ou psíquicos na vida conjugal passam a crime público, e a lei estende-os a quem agrida o pai ou a mãe de um filho comum.451 O agressor pode ser proibido de contactar a vítima e afastado da residência dela até dois anos; a vítima pode pedir a suspensão provisória do processo.4 A CIG assinalou os 25 anos do crime público em 2025.1
- 1Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG): 25 anos de crime público: compromisso renovado no combate à violência contra as mulheres e à violência doméstica
- 2Procuradoria-Geral Regional de Lisboa (PGDL)
- 3Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG): História da CIG
- 4Diário da República Eletrónico: Lei n.º 7/2000, de 27 de maio — Reforça as medidas de proteção a pessoas vítimas de violência (altera o artigo 152.º do Código Penal; Diário da República n.º 123/2000, Série I-A)
- 5Diário da República Eletrónico: Lei n.º 65/98, de 2 de setembro — Altera o Código Penal (redação do artigo 152.º anterior a 2000; Diário da República n.º 202/1998, Série I-A)
2006
21 de agosto de 2006· mulheres
Lei da Paridade: mínimo de 33% de cada sexo nas listas
Depois de um primeiro decreto vetado pelo Presidente Cavaco Silva, que via na rejeição das listas incumpridoras «um regime sancionador excessivo e desproporcionado», a Lei Orgânica n.º 3/2006, reaprovada com alterações a 6 de julho, obriga as listas para a Assembleia da República, o Parlamento Europeu e as autarquias a ter pelo menos 33% de cada sexo, sob pena de cortes nas subvenções públicas das campanhas.13 Chega sete anos depois da primeira proposta do Governo e da rejeição ou caducidade de cinco iniciativas, e nove anos depois de a revisão constitucional de 1997 mandar a lei promover a não discriminação no acesso a cargos políticos.1 Nas legislativas de 2009, as primeiras com a lei, as deputadas passam a 27,4%; o limiar subiria para 40% em 2019.1
2007
2007· mulheres
A CIDM dá lugar à Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género
O Decreto-Lei n.º 164/2007, de 3 de maio, cria a orgânica da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), que sucede à Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres e à Estrutura de Missão contra a Violência Doméstica, ambas extintas.2 O novo nome resulta de uma «revisão conceptual e terminológica» à luz dos avanços em matéria de género; o conselho consultivo mantém a secção das organizações não governamentais e ganha um grupo técnico-científico.21 A CIG é a herdeira da Comissão da Condição Feminina de 1975.1
11 de fevereiro de 2007· mulheres
Segundo referendo: o «sim» à despenalização da IVG vence
Nove anos depois do primeiro referendo, os eleitores voltam a responder à pergunta «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?».2 Votam 43,57% dos inscritos; o «sim» vence com 2 231 529 votos (59,25%), contra 1 534 669 (40,75%) para o «não».1 Dois meses depois é publicada a lei que despenaliza a interrupção a pedido da mulher.3
17 de abril de 2007· mulheres
Lei n.º 16/2007 despenaliza a IVG a pedido da mulher
Na sequência do referendo de fevereiro, a Lei n.º 16/2007, aprovada a 8 de março, acrescenta ao Código Penal um novo caso em que a interrupção da gravidez não é punível: quando é feita «por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas de gravidez», por médico ou sob a sua direção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido.32 A mulher decide depois de uma consulta obrigatória e de um período de reflexão de pelo menos três dias; o Serviço Nacional de Saúde tem de se organizar para a fazer nos prazos, sem que a objeção de consciência dos médicos o impeça.3 A lei revoga a Lei n.º 6/84 e a Lei n.º 90/97, que a alterara.3
2008
2008· mulheres
Manuela Ferreira Leite, primeira mulher a liderar um partido
Primeira mulher a liderar um grupo parlamentar, o do PSD, entre 2001 e 2002, e primeira ministra de Estado e das Finanças, em 2002, Manuela Ferreira Leite torna-se em 2008 a primeira mulher eleita para chefiar um partido político português, o PSD.1 Fora antes secretária de Estado do Orçamento e ministra da Educação.1
2009
16 de setembro de 2009· mulheres
Lei n.º 112/2009 define o regime de proteção das vítimas de violência doméstica
A Lei n.º 112/2009 estabelece o regime jurídico de prevenção da violência doméstica e de proteção e assistência às suas vítimas.21 Cria o estatuto de vítima, atribuído logo que é apresentada a denúncia, prevê a proteção por teleassistência e organiza a rede de apoio, das casas de abrigo aos centros de atendimento.2 Aprovada a 23 de julho, entra em vigor 30 dias depois de publicada, substitui a Lei n.º 107/99 e reforça a proteção das vítimas de um crime que é público desde 2000.23
2010

25 de abril de 2010
Placa municipal sinaliza a antiga sede da PIDE/DGS
Por proposta do movimento Não Apaguem a Memória, nascido a 5 de outubro de 2005, a Câmara Municipal de Lisboa inaugura uma placa vertical junto ao edifício da Rua António Maria Cardoso que assinala a antiga sede da PIDE/DGS.123 Um cortejo de 150 a 200 pessoas parte dos Paços do Concelho; depois do descerramento falam antigos presos políticos — Edmundo Pedro, José Manuel Tengarrinha e Helena Pato — e o presidente da Câmara, António Costa.1 A placa conta a história do lugar e evoca os mortos de 25 de Abril de 1974, juntando-se à que um grupo de cidadãos ali pusera em 1980.4
2011

21 de junho de 2011· mulheres
Assunção Esteves, primeira mulher Presidente da Assembleia da República
Na sessão de abertura da XII Legislatura, no Palácio de São Bento, Assunção Esteves — que em 1989 fora a primeira juíza do Tribunal Constitucional — é eleita a primeira mulher Presidente da Assembleia da República.1 No discurso, dedica o momento «a todas as mulheres», e «sobretudo às mulheres anónimas e oprimidas».1
2013
21 de janeiro de 2013· mulheres
Parlamento aprova a Convenção de Istambul
A Resolução da Assembleia da República n.º 4/2013, aprovada a 14 de dezembro de 2012 e assinada pela presidente da Assembleia, Assunção Esteves, aprova a Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica, adotada em Istambul a 11 de maio de 2011.21
2015

25 de abril de 2015
Abre o Museu do Aljube Resistência e Liberdade
No 41.º aniversário do 25 de Abril, a antiga cadeia política do Aljube, fechada em 1965, abre como Museu do Aljube Resistência e Liberdade, dedicado à memória do combate à ditadura e da resistência, com projeto de recuperação dos arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira.12 A exposição de longa duração mostra o regime ditatorial, a censura, as polícias e os tribunais políticos, as oposições, a luta anticolonial e o 25 de Abril.1
Ver no arquivo: Câmara Municipal de Lisboa
Reportagem da Câmara de Lisboa sobre a abertura do Museu do Aljube, a 25 de abril de 2015, nas instalações da antiga cadeia política. Inclui a frase do presidente da Câmara, Fernando Medina: «Devemos ter consciência do que custou a liberdade».
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Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
2017
1 de agosto de 2017· mulheres
Lei impõe representação equilibrada nos órgãos das empresas
A Lei n.º 62/2017, aprovada a 23 de junho, fixa mínimos para cada sexo nos órgãos de administração e de fiscalização: 33,3% nas empresas do setor público empresarial a partir de 1 de janeiro de 2018; nas empresas cotadas em bolsa, 20% das novas designações a partir da primeira assembleia geral eletiva de 2018 e 33,3% a partir da de 2020.21 No setor público, uma designação que não cumpra é nula; a CIG acompanha a aplicação da lei e faz um relatório anual.2
2019
28 de março de 2019· mulheres
Representação equilibrada no pessoal dirigente da Administração Pública
A Lei n.º 26/2019, aprovada a 8 de fevereiro, fixa em 40% a proporção mínima de cada sexo entre os dirigentes da administração direta e indireta do Estado e nos órgãos das instituições de ensino superior públicas e das associações públicas profissionais; nas listas para órgãos eletivos, os dois primeiros candidatos não podem ser do mesmo sexo.21 No dia seguinte é publicada a Lei Orgânica n.º 1/2019, que leva o mesmo limiar às listas eleitorais.3
- 1Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG)
- 2Diário da República Eletrónico: Lei n.º 26/2019, de 28 de março — Representação equilibrada entre homens e mulheres no pessoal dirigente e nos órgãos da Administração Pública (Diário da República n.º 62/2019, Série I)
- 3Diário da República Eletrónico: Lei Orgânica n.º 1/2019, de 29 de março — Segunda alteração à lei da paridade nos órgãos do poder político (Diário da República n.º 63/2019, Série I)
29 de março de 2019· mulheres
Revisão da Lei da Paridade sobe o limiar para 40%
A Lei Orgânica n.º 1/2019, aprovada a 8 de fevereiro, eleva de 33% para 40% a representação mínima de cada sexo nas listas para a Assembleia da República, o Parlamento Europeu e as autarquias, impede mais de dois candidatos seguidos do mesmo sexo e manda rejeitar a lista que não seja corrigida — a sanção que levara ao veto do primeiro decreto da paridade, em 2006.31 Nas legislativas desse ano são eleitas 89 deputadas, 38,7% do Parlamento.1 Na véspera saíra a Lei n.º 26/2019, com o mesmo limiar para os dirigentes da Administração Pública.4
- 1Assembleia da República
- 2Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG)
- 3Diário da República Eletrónico: Lei Orgânica n.º 1/2019, de 29 de março — Segunda alteração à lei da paridade nos órgãos do poder político (Diário da República n.º 63/2019, Série I)
- 4Diário da República Eletrónico: Lei n.º 26/2019, de 28 de março — Representação equilibrada entre homens e mulheres no pessoal dirigente e nos órgãos da Administração Pública (Diário da República n.º 62/2019, Série I)
25 de abril de 2019
Memorial digital aos Presos e Perseguidos Políticos na estação Baixa-Chiado
Por iniciativa de cidadãos, é inaugurada na estação Baixa-Chiado do Metropolitano de Lisboa a versão digital do Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926-1974), que ali fica um ano; com ela começa o sítio Memória Comum.1 É o primeiro passo do memorial que a Câmara aprovaria em 2021 para o Largo da Boa-Hora.1
2021

19 de maio de 2021
Câmara de Lisboa aprova o Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos no Largo da Boa-Hora
Na sequência de uma proposta de cidadãos, que em 2019 tinham posto a versão digital do memorial na estação Baixa-Chiado do Metro, a Câmara de Lisboa aprova por unanimidade, em reunião extraordinária, a construção do Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926-1974), a instalar no Largo da Boa-Hora.12 O projeto é de Álvaro Siza Vieira, que o entregou à Câmara; em agosto de 2025, depois de cartas, petições e de um grupo de trabalho municipal, a obra ainda não tinha avançado.12
2024

25 de abril de 2024, 15h00
50 anos do 25 de Abril: desfile popular na Avenida da Liberdade
No cinquentenário da revolução, o desfile popular organizado pela Comissão Promotora das Comemorações Populares do 25 de Abril parte às 15h00 do Marquês de Pombal, desce a Avenida da Liberdade e acaba no Rossio, com intervenções e momentos culturais.1 Entre os milhares que descem a Avenida está Celeste Caeiro, a mulher dos cravos.2

27 de abril de 2024
Abre o Museu Nacional Resistência e Liberdade na Fortaleza de Peniche
Cinquenta anos depois da libertação dos presos políticos, a antiga prisão política da Fortaleza de Peniche abre como Museu Nacional Resistência e Liberdade, inaugurado pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, com a exposição «Resistência e Liberdade».12 «Não podemos deixar cair ou prescrever essa memória com o passar dos anos», disse o Presidente; Domingos Abrantes, preso dez anos em Peniche e membro da comissão criada para o museu, lembrou que o país esteve «quase meio século à espera».2 Foi daqui que Álvaro Cunhal se evadiu em 1960, na fuga de Peniche.2
Fortaleza de Peniche — a cadeia política · Domingos Abrantes · Álvaro Cunhal
15 de novembro de 2024· mulheres
Morre Celeste Caeiro, a mulher dos cravos
Celeste Caeiro, que a 25 de Abril de 1974 deu cravos aos soldados e fez deles o símbolo da revolução, morre aos 91 anos no Hospital de Leiria, para onde fora transferida com problemas respiratórios.13 A neta lamentou que nunca tivesse sido homenageada em vida; o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa anunciou uma condecoração a título póstumo.12 Em abril, nos 50 anos da revolução, descera a Avenida da Liberdade com milhares de pessoas, e o deputado Rui Tavares propusera, na sessão solene do parlamento, homenageá-la com uma estátua; em maio, a Câmara de Lisboa aprovara dar-lhe a medalha de honra da cidade.21
2025

7 de março de 2025· mulheres
Parlamento evoca 50 anos do voto universal das mulheres
Por proposta do Livre, a Assembleia da República reúne-se em sessão solene para evocar os 50 anos da «universalização do direito das mulheres ao voto», com intervenções do presidente da Assembleia, José Pedro Aguiar-Branco, e de deputados dos nove partidos representados.1 O caminho começara com o voto de Carolina Beatriz Ângelo em 1911, a que a lei de 1913 respondeu reservando o voto aos homens; passou pelas primeiras deputadas, eleitas em ditadura — Domitila de Carvalho, Maria Cândida Parreira e Maria Guardiola —, e pela lei de 1968, que igualou os requisitos de mulheres e homens.1 Só depois do 25 de Abril o voto se tornou universal, consagrado na Constituição de 1976 para «todos os cidadãos maiores de dezoito anos».1
Palácio de São Bento · Carolina Beatriz Ângelo · Domitila de Carvalho · Maria Cândida Parreira · Maria Guardiola