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A Capela do Rato, na Calçada Bento da Rocha Cabral, em 2023. GualdimG, CC BY-SA 4.0

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Edifício comprido e baixo de fachada cor de salmão, com janelas de moldura de pedra, algumas gradeadas, ao longo de uma rua inclinada, sob céu azul.
A Capela do Rato, na Calçada Bento da Rocha Cabral, em 2023. GualdimG, CC BY-SA 4.0

Santo António

Capela do Rato

Na passagem de 1972 para 1973, católicos contra a guerra colonial fizeram aqui uma vigília de 48 horas. Foi uma mulher, Maria da Conceição Moita, quem a anunciou ao microfone; a polícia de choque acabou com ela e levou dezenas de pessoas.

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A 30 de dezembro de 1972, no fim da missa das 19h30, seis pessoas aproximaram-se do altar desta capela. Uma mulher, a educadora Maria da Conceição Moita, foi ao microfone e anunciou, em nome de um grupo de cristãos, uma vigília de 48 horas, em jejum, contra a guerra colonial.1 A vigília fora preparada por católicos ligados ao Boletim Anti-Colonial — ela, Isabel Pimentel, Luís Moita, Nuno Teotónio Pereira — e por estudantes.2

No dia 31, cerca de trezentas pessoas aprovaram uma moção que repudiava a política do Governo de «prosseguir uma guerra criminosa» e denunciava a «cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica». Ao fim da tarde, a capela foi cercada pela polícia de choque, com cães; por volta das 20h45 deram-se dez minutos para sair. Os presentes cantaram, e alguns resistiram sentados. Dezenas de pessoas foram levadas para a esquadra; catorze seguiram para o Governo Civil e, de madrugada, para Caxias.32

Entre as mulheres da vigília, o historiador António de Araújo nomeia, além de Conceição Moita, Isabel Pimentel e a bibliotecária Maria Benedita Galamba de Oliveira, que puxou as orações quando a polícia entrou. Dos onze funcionários públicos que recorreram da demissão decidida pelo Conselho de Ministros, sete eram mulheres.1

A repressão não acabou ali. Num processo da DGS aberto em Caxias em novembro de 1973, Conceição Moita foi esbofeteada até desmaiar e submetida várias vezes à tortura do sono — a primeira durante sete dias e oito noites, com catorze horas de «estátua».1

Sophia de Mello Breyner Andresen subscreveu os abaixo-assinados de solidariedade com a vigília; a sua presença na capela não é confirmada pelos testemunhos.4 Segundo a Wikipédia, a comunidade da Capela do Rato recebeu a Ordem da Liberdade em 2022, e em 2024 inaugurou-se no Jardim das Amoreiras um memorial à vigília, da artista Cristina Ataíde.5

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Onde fica

Mapa com a localização de Capela do Rato.

Capela do RatoCalçada Bento da Rocha Cabral, 1-B, 1257-047 Lisboa

Datas

  1. 30 de dezembro de 1972, 19h30

    Maria da Conceição Moita anuncia ao microfone a vigília de 48 horas contra a guerra colonial.

  2. 31 de dezembro de 1972, 20h45

    A polícia de choque manda evacuar a capela e leva dezenas de pessoas para a esquadra.

  3. 1 de janeiro de 1973

    Catorze detidos seguem do Governo Civil para Caxias.

  4. novembro de 1973

    Processo da DGS em Caxias: Conceição Moita é torturada.

  5. 14 de dezembro de 2022

    A comunidade da Capela do Rato recebe a Ordem da Liberdade (segundo a Wikipédia).

  6. 25 de março de 2024

    Memorial à vigília, de Cristina Ataíde, no Jardim das Amoreiras (segundo a Wikipédia).

  7. 24 nov. 1973

    Processo da DGS contra o grupo anticolonial e as Brigadas Revolucionárias

Pessoas ligadas a este lugar

Perto daqui

  • 70 m · 5 min a pé

    Largo do Rato (antiga Praça do Brasil)

    Hoje: Largo do Rato

    Na revolta de fevereiro de 1927 ergueram-se aqui barricadas, e junto ao chafariz foram fuzilados civis e marinheiros. Em 1931, o largo voltou a ser linha de combate; em 1972, foi para a esquadra do largo que a polícia levou os presos da vigília da Capela do Rato.

    RepúblicaOposiçãoRepressão
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    Última sede do CNMP, fechada pela polícia em 1947

    Em 1946, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Maria Lamas, mudou a sede para esta travessa das Amoreiras. A 28 de junho de 1947, a polícia fechou-a «sem aviso prévio», pondo fim a 33 anos de associação.

    MulheresRepressão
  • 410 m · 5 min a pé

    Edifício Franjinhas — o restaurante dos cravos

    Hoje: Edifício Franjinhas

    Aqui funcionava o Sir, o restaurante onde Celeste Caeiro trabalhava. Fazia um ano a 25 de abril de 1974: não abriu, e os cravos comprados para a festa foram dados às empregadas — os cravos que Celeste levou para a Baixa.

    RevoluçãoMulheresTrabalho
Notas sobre as fontes4
  • Quantas pessoas foram levadas para a esquadra: 91 (António de Araújo, a partir da documentação policial), cerca de 60 (Eloísa Aragão; Wikipédia) ou «cerca de meia centena» (RTP Ensina).
  • O papel das Brigadas Revolucionárias: Carlos Antunes disse que as BR tiveram papel central e que foi ele quem decidiu que Conceição Moita leria a declaração; Isabel do Carmo e os organizadores católicos dizem que a decisão foi dos católicos.
  • A presença de Sophia de Mello Breyner Andresen na capela: uma fonte secundária a favor (João Miguel Almeida, 2008), testemunhos que não a confirmam.
  • A Ordem da Liberdade (2022) e o memorial de 2024 só foram lidos na Wikipédia; o texto da placa municipal de 2022 não foi lido.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1«A paz é possível»: algumas notas sobre o caso da Capela do Rato (António de Araújo). Lusitania Sacra, 2.ª série, 16 (2004), pp. 431-463 – Universidade Católica Portuguesa — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Vigília da Capela do Rato. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Caso da Capela do Rato. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Sophia de Mello Breyner Andresen: militância antifascista a partir da crise do Estado Novo (tese de doutoramento, Eloísa da Silva Aragão, 2017). Universidade de São Paulo — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Vigília da Capela do Rato. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6A vigília na capela do Rato. RTP Ensina — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Maria da Conceição Moita. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Cópia de abaixo-assinado enviado ao Presidente do Conselho sobre os acontecimentos na capela da Calçada Bento da Rocha Cabral (cota 07525.010.001). Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9A Paz é Obrigatória – comunicado sobre a Capela do Rato (cota 07500.021.001). Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso — consultado a 2 de outubro de 2026

Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.