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Resistênciapor Onofriana.pt
A Rua da Misericórdia, entre o Chiado e o Bairro Alto, em novembro de 2025. Vitor Oliveira, CC BY-SA 4.0

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Rua a descer entre prédios altos de fachadas claras e de azulejo, com varandas de ferro e carros estacionados, sob céu azul.
A Rua da Misericórdia, entre o Chiado e o Bairro Alto, em novembro de 2025. Vitor Oliveira, CC BY-SA 4.0

Misericórdia

Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974)

Última sede da censura à imprensa, entre 22/9/1969 e o 25 de Abril de 1974, em frente à redação do jornal República. Os jornais entregavam aqui as provas para o «lápis azul»; a 26 de abril o edifício foi assaltado pela população.

Hoje: Um edifício da Rua da MisericórdiaLocalização aproximadaNum percurso
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A censura prévia à imprensa acompanhou toda a ditadura e mudou várias vezes de casa, sempre no eixo Carmo–Bairro Alto–Restauradores, perto das redações. O investigador Joaquim Cardoso Gomes identificou as sedes sucessivas: Quartel da GNR do Carmo (de 22 de junho de 1926 a 1934); Rua Nova da Trindade, 62, 1.º (1934-1943, edifício desaparecido); Largo Trindade Coelho, 9, 1.º (1943-1947/48); Calçada da Glória, 9, 2.º, no edifício do Palácio Foz (1947/48-1961); Rua de São Pedro de Alcântara, 45, 2.º (11/6/1961-1968, com entrega de provas pela Rua do Diário de Notícias, 150; a JJ ilustra-a com o Palácio Ludovice, onde também funcionou o SPN); Rua de São Pedro de Alcântara, 81, r/c (11/12/1968-1969); e, por fim, Rua da Misericórdia, 125, 1.º, a partir de 22 de setembro de 1969.

Os jornais mandavam as provas de página por estafeta e recebiam-nas de volta carimbadas «Visado pela Censura» — o «lápis azul», como ficou conhecida. A estrutura era pequena — cerca de 70 a 90 censores e 30 auxiliares, um décimo da PIDE/DGS, segundo Cardoso Gomes —, mas condicionava toda a informação. Em 1972 os serviços passaram a chamar-se Exame Prévio, sem mudança de prática.

Muitos textos de mulheres caíram sob este crivo: Diana Andringa, quando trabalhava na Vida Mundial, viu cortado um artigo sobre a guerra colonial em Angola; «Minha Senhora de Mim», de Maria Teresa Horta (1971), foi apreendido pela PIDE; e as «Novas Cartas Portuguesas» (1972) foram retiradas de circulação pouco depois de publicadas e levaram as autoras a tribunal. O silêncio imposto aos jornais sobre esse processo foi tal que, a certa altura, nem a data e hora das audiências podiam ser noticiadas.

Em frente, do outro lado da rua, ficava a redação do República, o diário mais identificado com a oposição. A 25 de Abril de 1974, o jornal saiu com a frase «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura», e os censores abandonaram as instalações à multidão. Na manhã de 26 houve um assalto popular à sede; pouco antes, o último responsável, Mário Bento, aconselhara um coronel a ficar «quieto e calado».

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No arquivo

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Estes só se veem no sítio de cada arquivo.

Onde fica

Mapa com a localização de Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974).

Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974)Rua da Misericórdia, 125, 1.º, Lisboa (entrega de provas pelas traseiras: Rua das Gáveas, 90, 3.º)

Datas

  1. 22 de junho de 1926

    A censura instala-se no Quartel da GNR do Carmo.

  2. 11 de junho de 1961

    Mudança para a Rua de São Pedro de Alcântara, 45 (Palácio Ludovice).

  3. 22 de setembro de 1969

    Mudança para a Rua da Misericórdia, 125.

  4. 1972

    Os serviços de censura passam a chamar-se Exame Prévio.

  5. 25 de abril de 1974

    O República sai sem visto da censura; os censores abandonam as instalações.

  6. 26 de abril de 1974

    Assalto popular à sede da censura, de manhã.

  7. 25 out. 1973

    Começa o julgamento das Três Marias, à porta fechada

Pessoas ligadas a este lugar

Perto daqui

  • 90 m · 5 min a pé

    Sede do jornal República (Rua da Misericórdia)

    No n.º 116 ficava o República, o diário da oposição democrática. Esteve na conspiração do 25 de Abril, saiu nesse dia sem passar pela censura e, em maio de 1975, deu nome a uma das grandes crises da revolução, o «caso República».

    OposiçãoRevoluçãoTrabalho
  • 160 m · 5 min a pé

    Redação do jornal «A Capital» (Rua do Norte, 3)

    No n.º 3 da Rua do Norte, na esquina com a Praça de Luís de Camões, ficava a redação de «A Capital», diário republicano da noite. Virgínia Quaresma, a primeira mulher jornalista em Portugal, escreveu nele e morou mesmo em frente; em 1911, o jornal contou a luta de Carolina Beatriz Ângelo pelo voto.

    MulheresRepúblicaCultura e censura
  • 230 m · 5 min a pé

    Largo do Carmo e Quartel do Carmo

    Hoje: Comando-Geral da GNR e Museu da Guarda Nacional Republicana

    O mais simbólico dos lugares de Abril. No Quartel do Carmo refugiou-se Marcelo Caetano na madrugada de 25 de abril de 1974; cercado pela coluna de Salgueiro Maia e por milhares de pessoas, entregou o poder ao general Spínola ao fim da tarde.

    RevoluçãoRepressão
  • 290 m · 5 min a pé

    Rua do Carmo — os cravos de Celeste Caeiro

    Hoje: Rua do Carmo

    Por esta rua subiu a coluna de Salgueiro Maia, do Rossio para o Largo do Carmo. Foi aqui, no princípio da rua, que Celeste Caeiro deu um cravo a um soldado que lhe pedia um cigarro — e o cravo tornou-se o símbolo da revolução.

    RevoluçãoMulheresTrabalho
Notas sobre as fontes6
  • Coordenadas aproximadas (troço da rua); o n.º 125 não está geocodificado no OpenStreetMap.
  • O FCSH+Lisboa situa a direção-geral da censura na Rua de São Pedro de Alcântara (sem datas); coincide com as sedes de 1961-1969 indicadas por Cardoso Gomes.
  • Sequência de 25-26 de abril: um texto da JJ diz que os censores fugiram da Rua da Misericórdia uma ou duas horas depois de o República sair, a 25; Cardoso Gomes fala de assalto popular na manhã de 26. Ambas as versões podem ser compatíveis.
  • Uso atual do edifício e existência de placa: não verificados.
  • Data da apreensão de «Minha Senhora de Mim» (o Museu do Aljube refere a apreensão pela PIDE, sem data).
  • O uso atual do edifício.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1Os censores da imprensa (Joaquim Cardoso Gomes), JJ – Jornalismo & Jornalistas n.º 57, jan./jun. 2014. Clube de Jornalistas (PDF no Centro de Documentação 25 de Abril, Univ. Coimbra) — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Os censores do 25 de Abril: o pessoal político da censura à imprensa (Joaquim Cardoso Gomes). Media & Jornalismo, CIMJ / FCSH-UNL — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Bairro Alto, coração do jornalismo lisboeta. FCSH+Lisboa (NOVA FCSH) — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4«As Três Marias foram absolvidas» / «Absolvição para as Novas Cartas Portuguesas» (Diário de Lisboa, 8 de maio de 1974). Hemeroteca Municipal de Lisboa – Livros que foram notícia — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Diana Andringa (testemunho e biografia). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Itinerário «Novas Cartas Portuguesas». Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Nominatim – OpenStreetMap (geocodificação). OpenStreetMap contributors (ODbL) — consultado a 2 de outubro de 2026

Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.