Nos claustros da Sé reuniram-se os conspiradores da «Revolta da Sé», o golpe de civis e militares, de inspiração sobretudo católica, que devia sair na noite de 11 para 12 de março de 1959 e que morreu antes de nascer, porque o Governo já sabia dele.
Depois da burla eleitoral de 1958, que afastou Humberto Delgado, parte da oposição radicalizou-se. Na madrugada de 11 para 12 de março de 1959 devia ter saído para a rua um golpe de civis e militares contra o governo de Salazar, de clara inspiração católica, mas com democratas de outras correntes.2 Ficou conhecido como «Revolta» ou «Golpe da Sé» porque os conspiradores se reuniam aqui, na Sé Patriarcal, a poucos metros da então cadeia do Aljube.12
Segundo o relato da historiadora Irene Flunser Pimentel, feito a partir do processo da PIDE, cerca de cem civis aliciados tinham ordem para se concentrar em leitarias e cafés de vários pontos da cidade, e os chefes dos grupos foram convocados para os claustros da Sé, onde esperariam instruções. Às 23 horas de 11 de março, Manuel Serra — antigo dirigente da juventude católica e «alma civil» da conspiração — distribuía distintivos, cordas e fardas quando chegaram dois oficiais da Junta Militar. Um deles, o major Pastor Fernandes, mandou dispersar e sair depressa da igreja: o Governo já sabia do golpe.2
O golpe morreu antes de nascer. A PIDE prendeu 44 pessoas; a primeira foi Manuel Serra, ao cair da noite de 13 de março. O padre João Perestrelo de Vasconcelos, que facilitara a entrada dos civis nos claustros, foi preso a 18 de março. A sentença, lida a 14 de janeiro de 1961, deu penas de três a vinte e dois meses de prisão.2
Três anos depois, em plena crise académica, a Sé voltou a ver a repressão de perto: a 20 de junho de 1962, uma manifestação de estudantes pela libertação de Eurico Figueiredo, preso no Aljube, devia acabar junto à cadeia, mas foi dispersa por uma carga da polícia de choque perto da Sé. Os estudantes seguiram para a Baixa a gritar «Liberdade! Autonomia!».4
Ao lado da Sé, foi cadeia política de 1928 a 1965 — a das celas de isolamento a que os presos chamavam «curros» ou «gavetas». Desde 2015 é o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade.
Hoje: Clínica de São Cristóvão, da Associação de Socorros Mútuos de Empregados no Comércio de Lisboa
Palácio da Mouraria que pertence desde 1913 à Associação de Socorros Mútuos de Empregados no Comércio de Lisboa. No salão nobre da associação fez-se, em maio de 1924, o I Congresso Feminista e de Educação, o primeiro do país.
A praça dos ministérios, centro do poder do Estado Novo. Ao amanhecer de 25 de abril de 1974 ocupou-a a coluna de Santarém do capitão Salgueiro Maia; as forças mandadas contra ela foram passando para o lado do Movimento, e os ministros fugiram por uma parede aberta à picareta.
Revolução
Notas sobre as fontes3
Que cargo tinha o padre João Perestrelo de Vasconcelos: Irene Pimentel chama-lhe «pároco» da Sé, mas a nota biográfica publicada com o mesmo texto diz que era capelão do Arsenal do Alfeite, e a PIDE foi prendê-lo à sacristia da igreja da Cova da Piedade.
Se o encontro de 11 de março foi nos claustros ou noutra dependência da Sé: Irene Pimentel fala dos claustros e, logo a seguir, da ordem para sair «dessa igreja».
O horário de visita: a página «Horários» da Sé e o rodapé do mesmo sítio dão horários diferentes para os meses de verão.