A praça dos ministérios, centro do poder do Estado Novo. Ao amanhecer de 25 de abril de 1974 ocupou-a a coluna de Santarém do capitão Salgueiro Maia; as forças mandadas contra ela foram passando para o lado do Movimento, e os ministros fugiram por uma parede aberta à picareta.
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Sob a ditadura, a praça dos ministérios foi também lugar de protesto. Em maio de 1958, no regresso de Humberto Delgado a Lisboa depois da jornada do Porto, uma multidão esperou o general de Santa Apolónia até aqui; a PIDE desviou a caravana e a GNR perseguiu e espancou os seus apoiantes pelo Terreiro do Paço, pelo Rossio e pelos Restauradores.8 No 1.º de Maio de 1962, em plena crise académica, operários e estudantes manifestaram-se na Baixa e houve confrontos no Terreiro do Paço, no Carmo, no Rossio, no Martim Moniz e em Alcântara.9
A 25 de abril de 1974, esta praça era o principal centro do poder político do regime. O Movimento das Forças Armadas pô-la entre os objetivos a ocupar por ser um símbolo do poder a derrubar e porque aqui ficavam os ministérios do Exército e da Marinha, de onde o regime podia interferir nas operações.1 A coluna da Escola Prática de Cavalaria saíra de Santarém às 3h30 — dez viaturas blindadas, doze de transporte, duas ambulâncias e um jipe —, com a missão de controlar os acessos ao Banco de Portugal, à Rádio Marconi e ao Terreiro do Paço.4 Eram cerca de 220 militares, comandados pelo capitão Salgueiro Maia, pelo capitão Mário Tavares de Almeida e pelos tenentes Alfredo Assunção e Rui Santos Silva.1 Por volta das 6h00, Maia comunicou ao Posto de Comando: «Informo que ocupamos Toledo e que controlamos Bruxelas e Viena» — o Terreiro do Paço, o Banco de Portugal e a Rádio Marconi.5
A PSP que cercava a zona não interferiu e ajudou a afastar os civis.4 As forças mandadas pelo regime foram passando para o lado do Movimento: o pelotão de chaimites do Regimento de Cavalaria 7 do alferes miliciano David e Silva, os dois pelotões de Polícia Militar que guardavam o Ministério do Exército e, depois, a força de autometralhadoras Panhard do tenente-coronel Ferrand de Almeida, que não conseguiu fazer-se obedecer e foi preso e desarmado por Maia.56
Das janelas do Ministério do Exército via-se a praça ocupada. Pelas 8h30, o ministro, general Andrade e Silva, mandou abrir à picareta uma parede de tijolo que dava para a biblioteca do Ministério da Marinha. Antes das 10h00 fugiram por ali os ministros da Defesa, da Informação e Turismo e da Marinha, o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o governador militar de Lisboa e o almirante Henrique Tenreiro, entre outros; o posto de comando das forças fiéis ao regime instalou-se no Regimento de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda.5
No rio, a fragata «Almirante Gago Coutinho» recebeu às 7h30 ordem para se pôr em frente ao Terreiro do Paço e, depois, para abrir fogo sobre os blindados. A ordem não foi cumprida.5 A artilharia do MFA instalada junto ao Cristo-Rei tinha ordem para afundar a fragata se ela disparasse; ao meio-dia, o navio retirou-se para o Mar da Palha.6 Às 9h35 chegou pela Ribeira das Naus a força do brigadeiro Junqueira dos Reis; ali, o aspirante Fernando Sottomayor e os apontadores dos carros de combate recusaram-se a disparar sobre Salgueiro Maia, que avançava de lenço branco.5 Perto do meio-dia, com milhares de pessoas na Baixa, Maia saiu daqui com uma coluna para o Largo do Carmo.4
A 16 de novembro de 1975, quatro dias depois do cerco à Assembleia Constituinte em São Bento, a praça encheu-se com uma manifestação contra o Governo. Na Constituinte, o deputado comunista Octávio Pato chamou-lhe «um marco no combate pela revolução democrática».7
Na Ribeira das Naus e na Rua do Arsenal, na manhã de 25 de abril de 1974, os soldados das forças fiéis ao regime recusaram as ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis para disparar sobre Salgueiro Maia. «Foi ali que se ganhou o 25 de Abril», diria Maia.
Convento feito tribunal em 1843. Aqui reunia o Tribunal Plenário, que julgava os presos políticos — e aqui foram julgadas Maria Alda Nogueira, Natália Correia e as «Três Marias», absolvidas já depois do 25 de Abril.
Um anúncio de 1909 situa aqui, no n.º 84 da Rua Nova do Almada, o consultório de Carolina Beatriz Ângelo, ginecologista e primeira cirurgiã portuguesa — dois anos antes de ela se tornar a primeira mulher a votar em Portugal.
Nos estúdios da Rádio Renascença, no 2.º andar do n.º 5 da Rua Capelo, foi para o ar às 00h20 de 25 de abril de 1974, no programa «Limite», a primeira quadra de «Grândola, Vila Morena», de José Afonso — a senha que confirmou o avanço das tropas do MFA.
RevoluçãoCultura e censura
Notas sobre as fontes3
A hora da ocupação: 05h50 (Jofre Alves, CD25A), 06h00 (Associação 25 de Abril, «Movimentações», e Comissão Comemorativa) ou 06h10 (a mensagem ao Posto de Comando, nos «Lugares de Abril»).
Quem impediu a fragata de disparar: a Associação 25 de Abril atribui-o ao imediato, o primeiro-tenente Fernando Caldeira dos Santos; Jofre Alves chama-lhe Fernando Ferreira dos Santos; a Comissão Comemorativa fala da tripulação, que estava «com o Movimento».
Em que ponto da praça está a placa dos «Lugares de Abril».