Saltar para o conteúdo
Resistênciapor Onofriana.pt
O Terreiro do Paço (Praça do Comércio) vazio, numa manhã de abril de 2020. Jules Verne Times Two, CC BY-SA 4.0

1 de 3

Praça muito ampla e deserta, de chão claro cruzado por faixas brancas, com a estátua equestre ao centro e edifícios amarelos de arcadas a toda a volta.
O Terreiro do Paço (Praça do Comércio) vazio, numa manhã de abril de 2020. Jules Verne Times Two, CC BY-SA 4.0

Santa Maria Maior

Terreiro do Paço (Praça do Comércio)

A praça dos ministérios, centro do poder do Estado Novo. Ao amanhecer de 25 de abril de 1974 ocupou-a a coluna de Santarém do capitão Salgueiro Maia; as forças mandadas contra ela foram passando para o lado do Movimento, e os ministros fugiram por uma parede aberta à picareta.

Hoje: Praça do ComércioHá uma marca no localLocalização aproximadaNum percurso
Ver no mapa

Sob a ditadura, a praça dos ministérios foi também lugar de protesto. Em maio de 1958, no regresso de Humberto Delgado a Lisboa depois da jornada do Porto, uma multidão esperou o general de Santa Apolónia até aqui; a PIDE desviou a caravana e a GNR perseguiu e espancou os seus apoiantes pelo Terreiro do Paço, pelo Rossio e pelos Restauradores.8 No 1.º de Maio de 1962, em plena crise académica, operários e estudantes manifestaram-se na Baixa e houve confrontos no Terreiro do Paço, no Carmo, no Rossio, no Martim Moniz e em Alcântara.9

A 25 de abril de 1974, esta praça era o principal centro do poder político do regime. O Movimento das Forças Armadas pô-la entre os objetivos a ocupar por ser um símbolo do poder a derrubar e porque aqui ficavam os ministérios do Exército e da Marinha, de onde o regime podia interferir nas operações.1 A coluna da Escola Prática de Cavalaria saíra de Santarém às 3h30 — dez viaturas blindadas, doze de transporte, duas ambulâncias e um jipe —, com a missão de controlar os acessos ao Banco de Portugal, à Rádio Marconi e ao Terreiro do Paço.4 Eram cerca de 220 militares, comandados pelo capitão Salgueiro Maia, pelo capitão Mário Tavares de Almeida e pelos tenentes Alfredo Assunção e Rui Santos Silva.1 Por volta das 6h00, Maia comunicou ao Posto de Comando: «Informo que ocupamos Toledo e que controlamos Bruxelas e Viena» — o Terreiro do Paço, o Banco de Portugal e a Rádio Marconi.5

A PSP que cercava a zona não interferiu e ajudou a afastar os civis.4 As forças mandadas pelo regime foram passando para o lado do Movimento: o pelotão de chaimites do Regimento de Cavalaria 7 do alferes miliciano David e Silva, os dois pelotões de Polícia Militar que guardavam o Ministério do Exército e, depois, a força de autometralhadoras Panhard do tenente-coronel Ferrand de Almeida, que não conseguiu fazer-se obedecer e foi preso e desarmado por Maia.56

Das janelas do Ministério do Exército via-se a praça ocupada. Pelas 8h30, o ministro, general Andrade e Silva, mandou abrir à picareta uma parede de tijolo que dava para a biblioteca do Ministério da Marinha. Antes das 10h00 fugiram por ali os ministros da Defesa, da Informação e Turismo e da Marinha, o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o governador militar de Lisboa e o almirante Henrique Tenreiro, entre outros; o posto de comando das forças fiéis ao regime instalou-se no Regimento de Lanceiros 2, na Calçada da Ajuda.5

No rio, a fragata «Almirante Gago Coutinho» recebeu às 7h30 ordem para se pôr em frente ao Terreiro do Paço e, depois, para abrir fogo sobre os blindados. A ordem não foi cumprida.5 A artilharia do MFA instalada junto ao Cristo-Rei tinha ordem para afundar a fragata se ela disparasse; ao meio-dia, o navio retirou-se para o Mar da Palha.6 Às 9h35 chegou pela Ribeira das Naus a força do brigadeiro Junqueira dos Reis; ali, o aspirante Fernando Sottomayor e os apontadores dos carros de combate recusaram-se a disparar sobre Salgueiro Maia, que avançava de lenço branco.5 Perto do meio-dia, com milhares de pessoas na Baixa, Maia saiu daqui com uma coluna para o Largo do Carmo.4

A 16 de novembro de 1975, quatro dias depois do cerco à Assembleia Constituinte em São Bento, a praça encheu-se com uma manifestação contra o Governo. Na Constituinte, o deputado comunista Octávio Pato chamou-lhe «um marco no combate pela revolução democrática».7

Nos percursos

No arquivo

Noutros arquivos

Estes só se veem no sítio de cada arquivo.

Onde fica

Mapa com a localização de Terreiro do Paço (Praça do Comércio).

Terreiro do Paço (Praça do Comércio)Praça do Comércio, 1100-148 Lisboa

Datas

  1. maio de 1958

    A GNR carrega sobre os apoiantes de Humberto Delgado que o esperavam.

  2. 1 de maio de 1962

    Confrontos na manifestação do 1.º de Maio.

  3. 25 de abril de 1974, 06h00

    A coluna da Escola Prática de Cavalaria ocupa a praça («Toledo»).

  4. 25 de abril de 1974, 07h30

    A fragata «Almirante Gago Coutinho» recebe ordem para se pôr em frente à praça.

  5. 25 de abril de 1974, 08h30

    O ministro do Exército manda abrir a parede para o Ministério da Marinha.

  6. 25 de abril de 1974, 09h35

    Chega pela Ribeira das Naus a força do brigadeiro Junqueira dos Reis.

  7. 16 de novembro de 1975

    Manifestação contra o Governo, quatro dias depois do cerco a São Bento.

  8. 16 maio 1958

    Chegada de Humberto Delgado a Santa Apolónia

Pessoas ligadas a este lugar

Perto daqui

  • 180 m · 5 min a pé

    Rua do Arsenal e Avenida da Ribeira das Naus

    Na Ribeira das Naus e na Rua do Arsenal, na manhã de 25 de abril de 1974, os soldados das forças fiéis ao regime recusaram as ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis para disparar sobre Salgueiro Maia. «Foi ali que se ganhou o 25 de Abril», diria Maia.

    Revolução
  • 310 m · 5 min a pé

    Tribunal da Boa-Hora

    Hoje: Antigo tribunal, fechado desde 2009

    Convento feito tribunal em 1843. Aqui reunia o Tribunal Plenário, que julgava os presos políticos — e aqui foram julgadas Maria Alda Nogueira, Natália Correia e as «Três Marias», absolvidas já depois do 25 de Abril.

    RepressãoMulheresCultura e censura
  • 360 m · 5 min a pé

    Consultório de Carolina Beatriz Ângelo (Rua Nova do Almada, 84)

    Hoje: Um prédio com uma loja no rés-do-chão

    Um anúncio de 1909 situa aqui, no n.º 84 da Rua Nova do Almada, o consultório de Carolina Beatriz Ângelo, ginecologista e primeira cirurgiã portuguesa — dois anos antes de ela se tornar a primeira mulher a votar em Portugal.

    MulheresTrabalho
  • 390 m · 5 min a pé

    Rádio Renascença (estúdios da Rua Capelo)

    Hoje: Um hotel, The Ivens

    Nos estúdios da Rádio Renascença, no 2.º andar do n.º 5 da Rua Capelo, foi para o ar às 00h20 de 25 de abril de 1974, no programa «Limite», a primeira quadra de «Grândola, Vila Morena», de José Afonso — a senha que confirmou o avanço das tropas do MFA.

    RevoluçãoCultura e censura
Notas sobre as fontes3
  • A hora da ocupação: 05h50 (Jofre Alves, CD25A), 06h00 (Associação 25 de Abril, «Movimentações», e Comissão Comemorativa) ou 06h10 (a mensagem ao Posto de Comando, nos «Lugares de Abril»).
  • Quem impediu a fragata de disparar: a Associação 25 de Abril atribui-o ao imediato, o primeiro-tenente Fernando Caldeira dos Santos; Jofre Alves chama-lhe Fernando Ferreira dos Santos; a Comissão Comemorativa fala da tripulação, que estava «com o Movimento».
  • Em que ponto da praça está a placa dos «Lugares de Abril».

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1Terreiro do Paço (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Banco de Portugal (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Rio Tejo frente ao Terreiro do Paço (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Movimentações do dia 25 de Abril. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Operação Viragem Histórica. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7O cerco ao Palácio de São Bento (12/13 de novembro). Assembleia da República – Comunicar — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Delgado: Um vendaval varreu o País (João Paulo Guerra). esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Estêvão José Dangues Giro (Alcochete, 1937 – Lisboa, 01-05-1962). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10Lisboa – Lugares de Abril. Associação 25 de Abril — consultado a 3 de outubro de 2026
  11. 11Inauguradas as últimas placas do Projeto «Lugares de Abril». Olhares de Lisboa, 2024 — consultado a 3 de outubro de 2026

Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.