A Rua do Arsenal, junto aos Paços do Concelho, em 2017.Sam, CC BY 2.0
Santa Maria Maior / Misericórdia
Rua do Arsenal e Avenida da Ribeira das Naus
Na Ribeira das Naus e na Rua do Arsenal, na manhã de 25 de abril de 1974, os soldados das forças fiéis ao regime recusaram as ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis para disparar sobre Salgueiro Maia. «Foi ali que se ganhou o 25 de Abril», diria Maia.
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Na manhã de 25 de abril de 1974, as forças do Movimento das Forças Armadas (MFA) estavam no Terreiro do Paço, sob o comando do capitão Salgueiro Maia. A partir do posto de comando que instalara em Lanceiros 2, o regime lançou a contra-ofensiva: cinco carros de combate M47 e autometralhadoras Panhard do Regimento de Cavalaria 7 saíram da Ajuda, com o brigadeiro Junqueira dos Reis, o coronel Romeiras Júnior, o tenente-coronel Ferrand de Almeida e o major Pato Anselmo.3 Pelas 7h00, na Avenida da Ribeira das Naus, Ferrand de Almeida não conseguiu fazer-se obedecer pelos seus homens e rendeu-se a Maia, debaixo das janelas do Ministério do Exército.34
Às 9h35 chegou o brigadeiro, segundo comandante da Região Militar de Lisboa.4 Pela Ribeira das Naus avançaram dois M47 comandados pelo aspirante Fernando Sottomayor, com atiradores do Regimento de Infantaria 1 e uma pequena força de Lanceiros 2. Salgueiro Maia caminhou ao encontro deles com um lenço branco. O brigadeiro mandou Sottomayor abrir fogo sobre Maia; o aspirante recusou e recebeu ordem de prisão. A mesma ordem foi dada aos apontadores dos carros de combate, que também recusaram.4 O major Pato Anselmo rendeu-se, as torres dos M47 rodaram 180 graus e os carros passaram para o lado do Movimento.3 Maia contaria que, na fotografia em que aparece a morder o lábio, se estava a conter para não chorar: «Foi ali que se ganhou o 25 de Abril».4
Junqueira dos Reis recuou para a Rua do Arsenal, onde estava o resto da coluna, com o coronel Romeiras.3 Os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva, da Escola Prática de Cavalaria, e o furriel Nunes, do Regimento de Cavalaria 7, tentaram negociar com ele, sem resultado. O brigadeiro voltou a ordenar fogo, e outra vez ninguém disparou; exasperado, deu três murros no tenente Assunção, que não ripostou, lhe fez continência e se retirou.4 O coronel Romeiras pôs-se entre as armas e o tenente, a pedir calma.3
À tarde, o brigadeiro ainda tentou cercar a coluna de Maia no Largo do Carmo, a partir do Largo de Camões. Abandonou o local dez minutos depois de chegar o Regimento de Cavalaria 3, de Estremoz, e o que restava das suas forças juntou-se ao Movimento.3
Segundo capítulo do filme feito com as fotografias que Alfredo Cunha tirou em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, com música de Rodrigo Leão e realização de Miguel Brugo, publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024. Segue o livro do mesmo nome, em que esta parte tem texto de Adelino Gomes e imagens da Ribeira das Naus, da Rua do Arsenal e do Largo do Carmo.
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Onde fica
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Rua do Arsenal e Avenida da Ribeira das NausRua do Arsenal / Avenida Ribeira das Naus, 1100-038 Lisboa
A praça dos ministérios, centro do poder do Estado Novo. Ao amanhecer de 25 de abril de 1974 ocupou-a a coluna de Santarém do capitão Salgueiro Maia; as forças mandadas contra ela foram passando para o lado do Movimento, e os ministros fugiram por uma parede aberta à picareta.
Convento feito tribunal em 1843. Aqui reunia o Tribunal Plenário, que julgava os presos políticos — e aqui foram julgadas Maria Alda Nogueira, Natália Correia e as «Três Marias», absolvidas já depois do 25 de Abril.
Nos estúdios da Rádio Renascença, no 2.º andar do n.º 5 da Rua Capelo, foi para o ar às 00h20 de 25 de abril de 1974, no programa «Limite», a primeira quadra de «Grândola, Vila Morena», de José Afonso — a senha que confirmou o avanço das tropas do MFA.
Um anúncio de 1909 situa aqui, no n.º 84 da Rua Nova do Almada, o consultório de Carolina Beatriz Ângelo, ginecologista e primeira cirurgiã portuguesa — dois anos antes de ela se tornar a primeira mulher a votar em Portugal.
MulheresTrabalho
Notas sobre as fontes3
O posto de Fernando Sottomayor: aspirante (Associação 25 de Abril, Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril) ou alferes miliciano (cronologia de Jofre Alves).
As horas: a Associação 25 de Abril situa os confrontos entre as 6h30 ou 7h00 e as 10h30, e a agressão ao tenente Assunção às 10h45, como Jofre Alves; a Comissão Comemorativa põe o confronto da Rua do Arsenal às 10h30.
Se o brigadeiro disparou dois tiros para o ar antes de recuar para a Rua do Arsenal: só a cronologia de Jofre Alves o diz.