São Vicente
Cadeia das Mónicas
Convento do século XVI feito cadeia de mulheres. Era sobretudo uma prisão de delito comum, mas recebeu presas políticas — e serviu de castigo a mulheres da oposição, como Isabel Aboim Inglez, mandada para aqui pelo Tribunal Plenário.
O Convento de Santa Mónica, na Graça, data do fim do século XVI. Extintas as ordens religiosas, foi casa de correção de menores e, desde o princípio do século XX, prisão de mulheres; segundo a Wikipédia em inglês, que cita o inventário do património arquitetónico, um decreto de 16 de abril de 1918 criou aqui a Cadeia Civil de Mulheres de Lisboa.1
Era sobretudo uma cadeia de delito comum, mas recebeu presas políticas: o projeto Memória Comum conta as Mónicas, «residualmente», entre os lugares onde a polícia política impôs a incomunicabilidade.2 Em junho de 1937 chegaram aqui dez mulheres da Ribeira Brava, presas depois da «revolta do leite» na Madeira.3 A partir de maio de 1938, a prisão política das mulheres passou a ser o Reduto Norte do Forte de Caxias.4
As Mónicas serviram também de castigo. Isabel Aboim Inglez, chamada a depor como testemunha de defesa no Tribunal Plenário, enfrentou o juiz presidente, que a mandou prender três dias por «falta de respeito ao tribunal» e a mandou para aqui. À saída, disse que tinha aprendido com as outras presas e feito ali um «estudo sociológico».5
Magda Fonseca, da União de Resistentes Antifascistas Portugueses, lembra as visitas que fazia em criança, antes de 1946, à tia Dalila, militante comunista presa várias vezes: as «apalpadeiras» à entrada, a revista ao pão e às marmitas, uma rede a meia altura a separar presas e visitas. Políticas e comuns tinham a mesma hora de visita e distinguiam-se pela farda — «quadradinhos azuis e brancos, para as políticas, e encarnados e brancos para as presas comuns». Os bilhetes passavam muitas vezes escondidos na roupa interior da criança.6
A partir de 1953, as reclusas foram sendo transferidas para a nova prisão de Tires.1 Na mesma travessa, no n.º 57, viveu Sophia de Mello Breyner Andresen, que descrevia a casa com um lado virado «para a Travessa das Mónicas, onde havia uma prisão».7 Em 2021 foi noticiado um projeto de hotel para o antigo convento, contestado por um movimento de cidadãos.8
Nos percursos
Onde fica
Mapa com a localização de Cadeia das Mónicas.
Datas
16 de abril de 1918
Um decreto cria aqui a Cadeia Civil de Mulheres de Lisboa.
junho de 1937
Chegam dez mulheres da Ribeira Brava, presas depois da «revolta do leite».
maio de 1938
A prisão política das mulheres passa para o Reduto Norte de Caxias.
1953
Começa a transferência das reclusas para Tires.
maio de 2021
Notícia de um projeto de hotel para o antigo convento.
6 ago. 1936
«Revolta do Leite» na Madeira; dez presas enviadas para Lisboa
Pessoas ligadas a este lugar
Perto daqui

30 m · 5 min a pé
Casa de Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen viveu no 1.º andar do n.º 57 de 1951 até morrer, em 2004. Uma casa de portas abertas à oposição, com um lado virado para o rio e outro para a travessa da cadeia de mulheres das Mónicas.
Cultura e censuraOposiçãoMulheres
90 m · 5 min a pé
A Voz do Operário
Hoje: Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário
Nasceu em 1879 como jornal dos operários tabaqueiros e tornou-se a maior escola popular de Lisboa. Em 1949, a oposição fez aqui comícios pela candidatura de Norton de Matos, com Maria Lamas, Isabel Aboim Inglez e Cesina Bermudes.
TrabalhoOposiçãoMulheres
110 m · 5 min a pé
Botequim
Hoje: Bar Botequim (reaberto em 2010 por novos proprietários)
O bar que Natália Correia abriu em 1971 no Largo da Graça, com três amigas, e para onde passou a tertúlia que reunia em casa — onde se discutia, nas palavras de um roteiro da Universidade Nova, «em liberdade literatura, política e feminismo».
Cultura e censuraMulheresOposição
480 m · 5 min a pé
Casa onde morreu Angelina Vidal (Rua de São Gens, 41)
Hoje: Uma pequena vivenda térrea
Nesta casa térrea da Rua de São Gens viveu Angelina Vidal, professora, jornalista e propagandista republicana e socialista, que defendeu as operárias e a educação das mulheres. Morreu aqui, «quase na miséria», a 1 de agosto de 1917.
MulheresRepúblicaTrabalho
Notas sobre as fontes7
- As datas institucionais (1918, 1953) vêm da Wikipédia em inglês, que cita o SIPA; o SIPA estava indisponível na consulta.
- A data em que a cadeia fechou (1989, segundo a Wikipédia em português) não foi confirmada noutra fonte.
- Uso atual do edifício e estado do projeto de hotel; se o espaço se pode visitar.
- O nome completo de Dalila, a tia de Magda Fonseca, e as datas das suas prisões.
- Outras presas políticas nas Mónicas referidas em blogues (Aida Paulo, transferida em 1939; Carolina Loff da Fonseca) — sem confirmação em fonte institucional.
- A data em que Isabel Aboim Inglez foi mandada para as Mónicas.
- O uso atual do antigo convento.
Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.
Fontes
- 1Monastery of the Mónicas. Wikipedia (en) (ponto de partida; cita o SIPA) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 27. Isolamento e «celas disciplinares». Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
- 3“Revolta do Leite” da Madeira. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 4Cárceres do império. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
- 5Isabel Aboim Inglez. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 6Mónicas (testemunho de Magda Fonseca). URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses — consultado a 2 de outubro de 2026
- 7Sophia de Mello Breyner Andresen – Lisboa (exposição virtual). Biblioteca Nacional de Portugal — consultado a 2 de outubro de 2026
- 8Antigo Convento das Mónicas, na Graça, vai ser transformado em hotel (Susete Francisco, 20/5/2021). Diário de Notícias — consultado a 2 de outubro de 2026
- 9Convento das Mónicas. Wikipédia (português) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 10Graça em estado de graça (roteiro, 20/4/2017). FCSH+Lisboa – NOVA FCSH — consultado a 2 de outubro de 2026
- 11Nominatim – OpenStreetMap (geocodificação). OpenStreetMap contributors (ODbL) — consultado a 2 de outubro de 2026
Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.