Repúblicamédica cirurgiã e ginecologistasufragistaprimeira mulher a votar em Portugaldirigente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesaspresidente da Associação de Propaganda Feminista
Nasceu
16 de abril de 1878, Guarda (freguesia de São Vicente)
Morreu
3 de outubro de 1911, Lisboa
Médica, primeira cirurgiã portuguesa e sufragista. Viúva e «chefe de família», ganhou em tribunal o direito a ser recenseada e, a 28 de maio de 1911, no Clube Estefânia, foi a primeira mulher a votar em Portugal.
Nasceu na Guarda em 1878 e veio para Lisboa estudar: a Escola Politécnica a partir de 1895, depois a Escola Médico-Cirúrgica, onde acabou o curso em 1902. Nesse ano casou com o primo Januário Barreto, médico e republicano; a filha, Maria Emília, nasceu em 1903, o ano em que apresentou a tese, «Prolapsos Genitais».6 Foi a primeira mulher a operar em Portugal, no Hospital de São José, com o cirurgião Sabino Coelho; trabalhou também em Rilhafoles, com Miguel Bombarda, e especializou-se em ginecologia, com consultório no n.º 84 da Rua Nova do Almada.1
Em 1906 aderiu, com outras quatro médicas, entre elas Adelaide Cabete e Domitila de Carvalho, ao comité português de La Paix et le Désarmement par les Femmes. Na maçonaria, foi iniciada na Loja Humanidade com o nome simbólico «Lígia».1 Em 1907 esteve na fundação do Grupo Português de Estudos Feministas, de Ana de Castro Osório, com Maria Veleda, Sofia Quintino e Adelaide Cabete,6 e chegou à direção da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.5 Com Adelaide Cabete, confecionou em segredo as bandeiras verde-rubras da revolução de 5 de Outubro de 1910.62 Januário Barreto morrera nesse ano, a poucos meses da República; o funeral saiu da casa do casal, na Rua do Sol ao Rato, para o Cemitério dos Prazeres.2
A lei eleitoral de 14 de março de 1911 dava o voto aos maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou fossem chefes de família, sem dizer que tinham de ser homens.3 Carolina e Ana de Castro Osório defendiam o voto das mulheres com estudos e que trabalhassem; outras, como Maria Veleda, só o aceitavam sem restrições.4 Dessa divergência dentro da Liga nasceu em 1911 a Associação de Propaganda Feminista, que fundou com Ana de Castro Osório e de que foi presidente.21 Viúva, com uma filha a seu cargo, pediu a inscrição no recenseamento a 1 de abril.6 A comissão de recenseamento e o Ministério do Interior recusaram-na, e ela recorreu ao tribunal. O juiz João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório, deu-lhe razão, numa sentença que o jornal A Capital publicou a 29 de abril:3 excluí-la «só por ser mulher» era «simplesmente absurdo e iníquo».8
A 28 de maio de 1911, na assembleia eleitoral de São Jorge de Arroios, instalada no Clube Estefânia, o presidente ainda consultou a mesa sobre se devia aceitar o voto dela, e um eleitor protestou. À segunda chamada, ouviu-se o seu nome — «Sou eu!», respondeu — e votou, como eleitora n.º 2513, entre palmas. Disse então que, se um dia fosse eleita, saberia cumprir o mandato.24 Foi a primeira mulher a votar em Portugal e no sul da Europa.6 A notícia correu mundo, e vieram jornalistas estrangeiros a Portugal para a entrevistar.4
Morreu poucos meses depois, a 3 de outubro de 1911, com 33 anos: sentiu-se mal no elétrico, quando voltava de uma reunião «de senhoras feministas, a que presidira», e morreu na escada de casa, contou o jornal A Luta. Livre-pensadora, pedira um funeral civil, «e em tudo democrata».5 Em 1913, a nova lei eleitoral passou a exigir aos eleitores o sexo masculino; o voto feminino só voltou em 1931, e as restrições ao voto em razão do sexo só caíram depois do 25 de Abril.3 Em 1988, a Câmara deu o seu nome a uma rua do Bairro de Caselas.1
Escritora, autora do que é tido como o primeiro manifesto feminista português (1905), lançou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e fundou, com Carolina Beatriz Ângelo, a Associação de Propaganda Feminista, que defendia o voto das mulheres instruídas.
Médica republicana que só começou a estudar depois de casar, fundou em 1914 o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidiu-lhe mais de vinte anos e fez do seu consultório nos Restauradores a sede.
Professora e jornalista de Faro, mãe solteira, deu aulas noturnas a mulheres analfabetas e dirigiu a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, defendendo o voto feminino sem restrições.
Primeira mulher a frequentar a Universidade de Coimbra, formou-se em Matemática, Filosofia e Medicina e foi professora e reitora do primeiro liceu feminino. Monárquica e conservadora, apoiante do salazarismo nascente, foi uma das três primeiras deputadas, eleitas em 1934 nas listas da União Nacional.
Uma das primeiras médicas portuguesas, formada em Lisboa em 1905, foi feminista, republicana e livre-pensadora: esteve no Grupo Português de Estudos Feministas e na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
Considerada a primeira jornalista profissional portuguesa, trabalhou em «O Século» e «A Capital», fez campanha pelo divórcio e pelo voto e abriu caminho a outras jornalistas, como Maria Lamas.
Notas sobre as fontes6
O ano do nascimento: 1878 (Dicionário de Médicos Portugueses, Isabel Lousada, FCSH, Wikipédia) ou 1877 (Toponímia de Lisboa).
O dia da morte: 3 de outubro de 1911 (Dicionário de Médicos Portugueses, FCSH, Wikipédia), 2 de outubro (Toponímia de Lisboa) ou 13 de outubro (Assembleia da República). A Wikipédia diz que morreu «pelas 2 horas da manhã», o que pode explicar a data de 2.
O ano em que entrou na Loja Humanidade: 1906 (FCSH, a partir de Isabel Lousada) ou 1907 (Toponímia de Lisboa).
O cargo na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas: vice-presidente (Toponímia de Lisboa) ou vogal suplente da direção (Dicionário de Médicos Portugueses).
Em que tribunal foi julgado o recurso para o recenseamento; nenhuma das fontes diz onde.
Onde está sepultada: num jazigo do Cemitério dos Prazeres, segundo a Wikipédia; nenhuma outra fonte o confirma.