Repressãooperáriamilitante e funcionária clandestina do PCPpresa políticamembro da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos
Nasceu
1936, São Pedro do Sul
Militante comunista presa em 1965 e em 1968, sofreu na sede da PIDE alguns dos métodos de tortura mais cruéis e humilhantes aplicados a uma mulher, e nunca falou. Décadas depois, contou-o publicamente para denunciar a polícia política.
Nasceu em São Pedro do Sul em 1936 e aos três anos foi com a família para o Barreiro, para uma «barraca de madeira» no Bairro das Palmeiras. Começou a militância no MUD Juvenil, levada pelo irmão, Alfredo Matos; nos anos 1950 conheceu Domingos Abrantes, o seu futuro companheiro, e entrou para o PCP.1 Viveram anos na clandestinidade, como funcionários do partido.12
Por volta das quatro da madrugada de 21 de abril de 1965, uma brigada da PIDE acompanhada por guardas da GNR arrombou a porta da casa onde viviam, no Montijo. Conceição teve tempo de queimar os papéis do partido. Ficou presa em casa até à noite, enquanto os agentes esperavam por Domingos, que também acabou preso, e foi depois levada para a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. Aí foi espancada durante vários dias, despida, obrigada a urinar e a defecar na sala de interrogatório e a limpar o chão com a roupa que trazia. A ficha da PIDE regista apenas que «recolheu ao Depósito de Presos de Caxias»: nenhuma palavra sobre a tortura.1
Em Caxias aprendeu a decifrar os toques na parede com que comunicavam os presos das celas vizinhas. Quando lhe perguntaram se tinha falado e respondeu que não, a resposta veio do outro lado: «Coragem hoje, abraços amanhã». Mostraram-lhe uma carta, que diziam escrita por Domingos, a pedir-lhe que falasse; nunca acreditou. «Quem vê aquele processo sabe que eu nunca falei à polícia», disse mais tarde.1 Ficou um ano e meio presa.1 Libertada em 1966, integrou a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos; em setembro de 1968 voltou a ser presa e passou dois meses e alguns dias em isolamento total em Caxias.21
Em 1969 casou-se oficialmente com Domingos Abrantes na cadeia de Peniche. Ele foi libertado em março de 1973 e, em fevereiro de 1974, partiram clandestinos para Paris, para trabalhar na organização do partido na emigração. Regressaram a 30 de abril de 1974, ao lado de Álvaro Cunhal, no «avião da Liberdade», que aterrou no aeroporto de Lisboa.24
Em 1977 foi testemunha de acusação nos julgamentos da agente Madalena Oliveira e do inspetor Tinoco, da PIDE.4 Já reformada de funcionária do PCP, quase quatro décadas depois da prisão aceitou contar na comunicação social os dias de tortura — não por razões pessoais, mas por considerar importante denunciar a polícia política do regime.1
No arquivo
Documentário montado por Sofia Gomes para a exposição «Mulheres e Resistência – Novas Cartas Portuguesas e outras lutas», com excertos dos testemunhos que o Museu do Aljube recolhe desde 2015: dezasseis mulheres falam da resistência à ditadura e da luta pelos direitos das mulheres. Esta versão tem interpretação em Língua Gestual Portuguesa; a versão sem LGP está no mesmo canal (XmUbNbnHgKg, 2022).
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Conceição Matos e Domingos Abrantes contam juntos, num testemunho recolhido pelo museu a 7 de outubro de 2015, a clandestinidade, as prisões e a tortura. As palavras-chave do museu incluem a prisão do Aljube, Caxias, os interrogatórios da PIDE e a fuga de Caxias.
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Dirigente comunista, foi um dos oito presos que fugiram de Caxias no carro blindado de Salazar, em 1961. Preso em 1959 e de novo em 1965, resistiu à tortura da PIDE sem falar.
Engenheira química e militante clandestina do PCP, controlou a Zona Oriental do Comité Local de Lisboa, «a mais importante zona operária da capital». Presa pela PIDE em 1957, foi em Caxias uma das autoras das cartas do Manifesto de Caxias.
Dirigente estudantil na crise académica de 1962, foi presa em 1967 e sofreu em Caxias um longo isolamento, agressões e tortura do sono. Mais tarde dirigiu o movimento Não Apaguem a Memória.
Estudante de Direito e militante do MRPP, foi presa pela PIDE a 22 de outubro de 1973, interrogada na sede da Rua António Maria Cardoso e torturada em Caxias. Já magistrada do Ministério Público, voltou em 2005 à porta do edifício para pedir que fosse preservado.
Operário soldador da Póvoa de Santa Iria, preso depois das greves contra a fraude eleitoral de 1958, morreu ao cair do terceiro andar da sede da PIDE a 31 de julho desse ano. A embaixatriz do Brasil viu a queda e denunciou-a ao cardeal Cerejeira.
Militante comunista presa em 1961 com os dois filhos pequenos, que manteve junto de si em Caxias. Passou seis anos e sete meses na prisão e suicidou-se em 1970, com o sistema nervoso debilitado pelos anos de cadeia.
Notas sobre as fontes3
Quando partiram para Paris: em fevereiro de 1974 (Museu do Aljube, na biografia de Domingos Abrantes; Wikipédia) ou logo em 1973, depois da libertação dele (leitura possível do Memória Comum e da biografia dela no Museu do Aljube).
Quando acabou a segunda prisão: o Memória Comum fala de dois meses e alguns dias de isolamento em Caxias; a Wikipédia diz que só foi libertada em meados de 1969.
O dia e o mês do nascimento: as fontes dão só o ano, 1936.