Nasceu em 1879 como jornal dos operários tabaqueiros e tornou-se a maior escola popular de Lisboa. Em 1949, a oposição fez aqui comícios pela candidatura de Norton de Matos, com Maria Lamas, Isabel Aboim Inglez e Cesina Bermudes.
Hoje: Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do OperárioNum percurso
«A Voz do Operário» nasceu a 11 de outubro de 1879 como jornal dos operários tabaqueiros de Lisboa, depois de um jornal da época ter recusado publicar uma notícia sobre a miséria em que viviam. Para o sustentar fundou-se, em 1883, uma cooperativa que se tornou Sociedade de Instrução e Beneficência, com escolas, biblioteca e assistência.1
A primeira pedra desta sede foi lançada em 1912, na presença do Presidente Manuel de Arriaga, e as obras acabaram em 1932. A sociedade tinha então cerca de setenta mil sócios e era o maior núcleo de instrução primária da capital: em 1938, 4200 alunos, a maioria filhos de operários, frequentavam as suas escolas.1 A republicana e socialista Angelina Vidal escreveu no jornal desde 1883, foi sua editora entre 1897 e 1901 e deu aulas na sociedade.2
Sob o Estado Novo, segundo a própria instituição, a censura amputou o jornal, as atividades culturais foram cerceadas e a polícia política apreendeu livros da biblioteca; foi a escola que a deixou sobreviver.1
Em 1949, a candidatura presidencial do general Norton de Matos, que juntou republicanos, socialistas, comunistas e católicos, fez aqui comícios.3 Fotografias do espólio de Manuel Mendes, na Casa Comum, mostram Isabel Aboim Inglez na mesa, ao lado de Norton de Matos, e noutro comício Maria Lamas e a médica Cesina Bermudes, dirigentes do movimento de mulheres que apoiava a candidatura.45 Sem garantias de liberdade de voto, o general acabou por desistir antes das eleições.
Convento do século XVI feito cadeia de mulheres. Era sobretudo uma prisão de delito comum, mas recebeu presas políticas — e serviu de castigo a mulheres da oposição, como Isabel Aboim Inglez, mandada para aqui pelo Tribunal Plenário.
Hoje: Bar Botequim (reaberto em 2010 por novos proprietários)
O bar que Natália Correia abriu em 1971 no Largo da Graça, com três amigas, e para onde passou a tertúlia que reunia em casa — onde se discutia, nas palavras de um roteiro da Universidade Nova, «em liberdade literatura, política e feminismo».
Sophia de Mello Breyner Andresen viveu no 1.º andar do n.º 57 de 1951 até morrer, em 2004. Uma casa de portas abertas à oposição, com um lado virado para o rio e outro para a travessa da cadeia de mulheres das Mónicas.
Aqui repousam, desde 1990, os restos mortais de Humberto Delgado, o «General sem Medo», assassinado pela PIDE em 1965 com a secretária, Arajaryr Campos; e, desde 2014, os da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen.
RepressãoOposição
Notas sobre as fontes2
As duas fotografias da Casa Comum dão datas diferentes (28/1 e 10/2/1949) para o «comício de Lisboa (Voz do Operário)»: falta saber se houve dois comícios ou se uma das datas é da catalogação.
Se o comício de 10/2/1949 foi já depois da decisão de desistir da candidatura.