Julgamento no Tribunal da Boa-Hora, em 1909, dos acusados do incêndio da Rua da Madalena. Fotografia de Joshua Benoliel.Joshua Benoliel, Domínio público
Santa Maria Maior
Tribunal da Boa-Hora
Convento feito tribunal em 1843. Aqui reunia o Tribunal Plenário, que julgava os presos políticos — e aqui foram julgadas Maria Alda Nogueira, Natália Correia e as «Três Marias», absolvidas já depois do 25 de Abril.
Hoje: Antigo tribunal, fechado desde 2009Há uma marca no localNum percurso
O edifício nasceu como convento no século XVII, foi quartel e, a partir de 1843, tribunal — durante 166 anos, até 2009, quando os juízos criminais passaram para o Campus de Justiça, no Parque das Nações.1
Os crimes políticos da ditadura foram julgados primeiro pelos Tribunais Militares Especiais, criados em 1932, e a partir de 1945 pelos Tribunais Plenários Criminais de Lisboa e do Porto, presididos por um juiz desembargador nomeado pelo ministro da Justiça — uma «simples manobra cosmética», nas palavras da Comissão Comemorativa dos 50 anos, para mudar a fachada do regime depois da vitória aliada.2 Em Lisboa, o Plenário reunia aqui; foram aqui julgados, entre muitos outros, Álvaro Cunhal e Mário Soares.1
A militante comunista Maria Alda Nogueira foi julgada no Plenário em outubro de 1960 e condenada a oito anos de prisão maior e a medidas de segurança — segundo a Wikipédia, a pena mais pesada dada a uma mulher por razões políticas.34Isabel Aboim Inglez foi presa em plena sala do Plenário, quando depunha como testemunha de defesa, e passou três dias na cadeia das Mónicas.5 A jornalista Diana Andringa foi julgada aqui em 1971 e condenada a vinte meses de prisão.6
Natália Correia sentou-se no banco dos réus do Plenário pela «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», que organizara. O julgamento começou a 3 de junho de 1969 e acabou a 21 de março de 1970, com ela e o editor, Fernando Ribeiro de Melo, condenados a noventa dias de prisão, substituídos por multa. Natália quis ler em tribunal o seu poema «A Defesa do Poeta»; o advogado, Palma Carlos, convenceu-a a não o fazer.7
As «Novas Cartas Portuguesas», escritas a seis mãos por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, saíram em abril de 1972 e foram recolhidas pela censura poucos dias depois; as autoras e o editor foram acusados de ofensa à moral pública.8 O julgamento começou aqui a 25 de outubro de 1973 — no 6.º Juízo Correcional, um tribunal comum, e não no Plenário —, e o juiz declarou logo a audiência secreta, mandando sair jornalistas e observadoras do movimento feminista.9 Lá fora, o processo tornara-se a primeira causa feminista internacional. A 1 de março de 1974, Maria Lamas depôs como testemunha de defesa.10
A sentença, marcada para 18 de abril, só foi lida depois do 25 de Abril. A 7 de maio de 1974, na pequena sala do 6.º Juízo, o juiz Acácio Lopes Cardoso declarou que o livro não era pornográfico nem imoral, e absolveu as autoras. Tinham cravos vermelhos ao peito; na sala gritou-se «Mulheres unidas jamais serão vencidas», e as autoras anunciaram um movimento de libertação da mulher.11 É desse dia que se data o nascimento do Movimento de Libertação das Mulheres.12
Também foi aqui que, a 14 de novembro de 1913, Regina Quintanilha se estreou de toga — a primeira mulher a advogar em Portugal, com uma autorização especial do presidente do Supremo Tribunal de Justiça. A profissão só se abriu por lei às mulheres em 1918.13
Fechado o tribunal, o edifício ficou repartido entre o Ministério da Justiça e a Câmara de Lisboa. Em maio de 2021, a Câmara aprovou por unanimidade um Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926–1974) para o Largo da Boa-Hora, com projeto de Álvaro Siza Vieira; em agosto de 2025 ainda não estava construído.1516
Testemunho de Diana Andringa recolhido pelo Museu do Aljube a 19 de abril de 2017. Segundo as palavras-chave do museu, fala do movimento estudantil, do apoio aos presos políticos, da ligação ao MPLA e à luta de libertação, da prisão e dos interrogatórios em Caxias e do julgamento no Tribunal Plenário.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial do Museu do Aljube
Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Nos estúdios da Rádio Renascença, no 2.º andar do n.º 5 da Rua Capelo, foi para o ar às 00h20 de 25 de abril de 1974, no programa «Limite», a primeira quadra de «Grândola, Vila Morena», de José Afonso — a senha que confirmou o avanço das tropas do MFA.
Um anúncio de 1909 situa aqui, no n.º 84 da Rua Nova do Almada, o consultório de Carolina Beatriz Ângelo, ginecologista e primeira cirurgiã portuguesa — dois anos antes de ela se tornar a primeira mulher a votar em Portugal.
Sede do Governo Civil de Lisboa, num antigo edifício do Convento de São Francisco. A 1.ª Esquadra da PSP, ali instalada, tinha calabouços onde a polícia política encerrou muitos presos, sobretudo antes de 1938, e onde se faziam julgamentos do Tribunal Militar Especial.
Na Ribeira das Naus e na Rua do Arsenal, na manhã de 25 de abril de 1974, os soldados das forças fiéis ao regime recusaram as ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis para disparar sobre Salgueiro Maia. «Foi ali que se ganhou o 25 de Abril», diria Maia.
Revolução
Notas sobre as fontes8
Que o Plenário de Lisboa reunia na Boa-Hora vem da Mensagem de Lisboa (2022); falta uma fonte de arquivo que o confirme, diga desde quando e identifique a sala.
A data de 22/10/1960 e a afirmação de que a pena de Maria Alda Nogueira foi a mais pesada dada a uma mulher por razões políticas só foram lidas na Wikipédia.
Data da absolvição: 7/5/1974 (Museu do Aljube; sentença transcrita no Malomil; Wikipédia). O recorte do Diário de Lisboa na Hemeroteca Digital tem «04Mai1974» no nome do ficheiro, mas diz que a sentença foi lida «ontem à tarde».
A hora das 10h00 do início do julgamento das «Três Marias» vem de uma nota do Diário de Lisboa («começou ontem às 10 horas»).
Quem interrogou as autoras das «Novas Cartas Portuguesas»: um agente da Polícia Judiciária especializado em prostituição (Museu do Aljube), a Polícia Judiciária (Wikipédia) ou a PIDE/DGS (Comissão Comemorativa).
O recurso de Carolina Beatriz Ângelo para ser recenseada (1911) foi decidido pelo juiz da 1.ª Vara Cível (Assembleia da República); só fontes secundárias o situam na Boa-Hora.
O decreto de 1918 que abriu a advocacia às mulheres (n.º 4676, de 19 de julho, segundo o 24 Notícias) não foi conferido no Diário do Governo.
Estado do Memorial do Largo da Boa-Hora em 2026 e uso atual do edifício; a coordenada é a do largo.