Santa Maria Maior
Igreja de São Domingos
Na passagem de 1968 para 1969, mais de cem católicos ficaram aqui em vigília contra a guerra colonial. Para essa noite, Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu a «Cantata da Paz»: «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar».
A 8 de dezembro de 1967, o papa Paulo VI fez do dia 1 de janeiro o Dia Mundial da Paz. Na noite de 31 de dezembro de 1968, depois da missa presidida pelo cardeal-patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira, um grupo de leigos anunciou que ia ficar em vigília nesta igreja.1 Foram quatro dizê-lo ao cardeal e ao prior, e entre eles uma rapariga, Catalina Pestana: uma senhora tinha lembrado que as mulheres faziam metade das coisas na Igreja, mas que, quando era preciso falar com o bispo, iam os homens.3
O documento que leram denunciava o «compromisso político da Igreja frente ao Estado» e condenava a nota pastoral dos bispos sobre o Dia da Paz, que tratava os «povos ultramarinos» como parte da «Nação Portuguesa». Mais de uma centena de pessoas ficou até às seis da manhã de 1 de janeiro de 1969, a discutir a guerra na Guiné, em Angola e em Moçambique.1
Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu para essa noite a «Cantata da Paz» — «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar» —, musicada por Francisco Fernandes e cantada por Francisco Fanhais. Estiveram presentes, entre outros, Nuno Teotónio Pereira, Francisco de Sousa Tavares, Vítor Wengorovius, Luís Moita e Catalina Pestana.1 Sophia também lá esteve, segundo os testemunhos recolhidos pela investigadora Eloísa Aragão: Catalina Pestana lembra-se dela e do marido, Francisco de Sousa Tavares, que discutiu com o prior; Nuno Teotónio Pereira diz que «a Sophia também estava lá»; Francisco Fanhais, que cantou a cantata, garante que «claro que a Sophia estava lá», embora admita que não se lembra de a ver.3 Segundo o historiador António de Araújo, a ação fora combinada em casa de Maria Natália e Nuno Teotónio Pereira.2
Nos dias seguintes, o Patriarcado condenou o «carácter tendencioso» da vigília, e Nuno Teotónio Pereira foi chamado à PIDE. Quatro anos depois, o mesmo meio católico faria a vigília da Capela do Rato.1
Nos percursos
Onde fica
Mapa com a localização de Igreja de São Domingos.
Datas
8 de dezembro de 1967
Paulo VI institui o Dia Mundial da Paz, a 1 de janeiro.
31 de dezembro de 1968
Começa a vigília pela paz, depois da missa do cardeal Cerejeira.
1 de janeiro de 1969
A vigília acaba às seis da manhã.
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Cultura e censuraOposiçãoRepressão
Notas sobre as fontes2
- O início da vigília: noite de 31/12/1968 (Comissão Comemorativa) ou 1/1/1969 (António de Araújo). A RTP Ensina fala de católicos que «ocuparam pela primeira vez uma capela» a 1/1/1969 — pode ser outra ação.
- Quem musicou a «Cantata da Paz»: Francisco Fernandes, segundo a Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril; Rui Paz, a partir de um espiritual negro norte-americano, segundo Francisco Fanhais e a tese de Eloísa Aragão (Francisco Fernandes musicou outro poema de Sophia, «Porque», que Fanhais gravou em 1970).
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Fontes
- 1A Vigília de São Domingos. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 2«A paz é possível»: algumas notas sobre o caso da Capela do Rato (António de Araújo). Lusitania Sacra, 2.ª série, 16 (2004), pp. 431-463 – Universidade Católica Portuguesa — consultado a 2 de outubro de 2026
- 3Sophia de Mello Breyner Andresen: militância antifascista a partir da crise do Estado Novo (tese de doutoramento, Eloísa da Silva Aragão, 2017). Universidade de São Paulo — consultado a 2 de outubro de 2026
- 4Vigília da Capela do Rato. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.

