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Resistênciapor Onofriana.pt
Pintura do rosto de uma mulher de cabelo escuro, quase de perfil, em pinceladas de preto e branco sobre um fundo vermelho.
Bottelho (Carlos Botelho), CC BY-SA 2.0

Mulheres da resistência

Natália Correia

Natália de Oliveira Correia

Cultura e censurapoetadramaturgadiretora literária da Estúdios Corfundadora do Botequimdeputada
Nasceu
13 de setembro de 1923, Fajã de Baixo, São Miguel (Açores)
Morreu
16 de março de 1993, Lisboa

Poeta e editora, foi a escritora portuguesa com mais obras censuradas. Julgada no Plenário pela «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», publicou as «Novas Cartas Portuguesas» e abriu na Graça o Botequim, onde festejou o 25 de Abril. Foi depois deputada.

Nasceu na Fajã de Baixo, na ilha de São Miguel, a 13 de setembro de 1923, filha de uma professora; o pai emigrara para o Brasil, e em 1934 a mãe mudou-se com as filhas para Lisboa.2 Em 1945 aderiu ao MUD e apoiou depois as candidaturas presidenciais de Norton de Matos, em 1949, e de Humberto Delgado, em 1958; a PIDE tinha-a por «elemento adversário das Instituições».1 Num comício da campanha de Norton de Matos, em fevereiro de 1949, desmontou a tríade do Estado Novo, «Deus, Pátria e Família».2 Em 1953 arrendou o 5.º andar do n.º 52 da Rua Rodrigues Sampaio, onde viveu até ao fim da vida,2 e onde reuniu, nos anos 1950 e 1960, uma tertúlia de nomes da cultura e da literatura.8 Fez também parte do grupo de escritores e artistas do Café Gelo, no Rossio.12

Foi a escritora portuguesa com mais obras censuradas: os livros de poemas «Comunicação» e «O Vinho e a Lira», as peças «O Homúnculo», «A Pécora» e «O Encoberto».1 Em 1957 escreveu a «Queixa das Jovens Almas Censuradas», que hoje está nas paredes do Museu do Aljube,8 e recolheu, com Urbano Tavares Rodrigues, assinaturas para um manifesto de intelectuais contra a censura.2 A «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», que organizou, foi proibida pela censura pelo seu «caráter pornográfico» e levou-a a julgamento, à porta fechada, com o editor Fernando Ribeiro de Melo e alguns dos poetas antologiados.1 O processo correu no Tribunal Plenário Criminal de Lisboa, na Boa-Hora, de 3 de junho de 1969 a 21 de março de 1970, e acabou com Natália e o editor condenados a 90 dias de prisão.2

Em 1971 fundou, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, o Botequim, no Largo da Graça, para onde passou a tertúlia.84 No mesmo ano era diretora literária da Estúdios Cor, que em abril de 1972 publicou as «Novas Cartas Portuguesas», de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.1 O livro foi apreendido ao fim de três dias.9 Natália foi arguida como responsável editorial, mas o administrador-delegado da editora, Romeu de Melo, assumiu toda a responsabilidade, porque ela ainda cumpria a pena suspensa da Antologia.2 No julgamento das autoras foi testemunha a favor delas.13 Na noite de 24 para 25 de abril de 1974 estava no Botequim, a festejar a queda da ditadura.2

Em abril de 1976 dirigiu «O Século — Hoje», suplemento político de O Século que o Conselho da Revolução extinguiu ao nono número, sob proposta do Presidente Costa Gomes, por artigos que considerou «ofensivos e caluniosos» para o Conselho e para as Forças Armadas.2 Foi deputada à Assembleia da República eleita nas listas do PSD por Lisboa (1979–1983) e, como independente, nas do PRD (1987–1991).1 No primeiro debate sobre o aborto, em março de 1982, o deputado João Morgado, do CDS, disse que a Igreja proibia o aborto porque o ato sexual era «para se ver o nascimento de um filho». Natália respondeu-lhe com um poema satírico, manuscrito em papel timbrado da Assembleia, que fez circular pelas bancadas; não o leu no plenário, onde nesse dia nem estava.17 Na votação de novembro foi a única deputada do PSD a votar a favor do projeto do PCP, que foi rejeitado.1 Na televisão, a série «Mátria» (1986) foi dedicada às mulheres na cultura e na história portuguesas.210

Em 1991 o Presidente Mário Soares fê-la grande-oficial da Ordem da Liberdade.2 Morreu de ataque cardíaco na madrugada de 16 de março de 1993, em casa, depois de regressar do Botequim, e está sepultada no Cemitério dos Prazeres.2 Quatro meses depois, a Câmara de Lisboa deu o seu nome a uma rua da Graça, perto do Botequim, por sugestão de organizações de mulheres.10

No arquivo

Noutros arquivos

Estes só se veem no sítio de cada arquivo.

Nos percursos

Lugares

Na cronologia

  1. 1945

    Mulheres no Movimento de Unidade Democrática
  2. 1957

    Reuniões do «Grupo do Café Gelo»
  3. 1966

    Natália Correia publica a «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», que a censura apreende
  4. 3 jun. 1969

    Natália Correia julgada no Tribunal Plenário pela Antologia
  5. 1971

    Natália Correia abre o Botequim, na Graça
  6. abr. 1972

    Publicadas as «Novas Cartas Portuguesas»
  7. 25 out. 1973

    Começa o julgamento das Três Marias, à porta fechada
  8. 2 mar. 1982

    Primeiro debate parlamentar sobre o aborto e o poema de Natália Correia

Cruzaram-se com ela

  • Helena Roseta

    n. 1947

    Arquiteta e católica progressista, falou de habitação no Congresso da Oposição de Aveiro e foi detida pela PIDE em 1973. Cofundadora do Botequim, deputada constituinte, renunciou em 1982 ao mandato para votar, contra a sua bancada, uma amnistia para presos políticos.

  • Maria Isabel Barreno

    1939–2016

    Escritora e investigadora, uma das «Três Marias». Julgada pelas «Novas Cartas Portuguesas» e absolvida a 7 de maio de 1974, viu a maior consequência do processo na Constituição: a igualdade de todos, «sem distinção de raça, sexo ou religião».

  • Maria Lamas

    1893–1983

    Jornalista e escritora, dirigiu «Modas e Bordados», presidiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas até o regime o fechar, em 1947, e respondeu com «As Mulheres do Meu País». Foi presa várias vezes e viveu exilada em Paris.

  • Maria Teresa Horta

    1937–2025

    Poeta e jornalista, uma das «Três Marias». A PIDE apreendeu-lhe «Minha Senhora de Mim» e três homens espancaram-na na rua; com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa escreveu as «Novas Cartas Portuguesas», que as levaram a tribunal — e à absolvição, a 7 de maio de 1974.

  • Maria Velho da Costa

    1938–2020

    Romancista de «Maina Mendes» e «Casas Pardas», foi ela quem lançou às outras duas Marias a pergunta que deu origem às «Novas Cartas Portuguesas». Recebeu o Prémio Camões em 2002.

  • Maria Alda Nogueira

    1923–1998

    Militante comunista na clandestinidade, foi presa em 1959 e condenada a oito anos de prisão maior e medidas de segurança, que cumpriu em Caxias. Deputada desde a Constituinte, presidiu à Comissão Parlamentar da Condição Feminina de 1983 a 1985.

Notas sobre as fontes5
  • A pena pela Antologia: 90 dias de prisão substituídos por multa (Imprensa Nacional), 90 dias com pena suspensa (Assembleia da República) ou três anos de pena suspensa (Toponímia de Lisboa, FCSH).
  • O ano da condenação: 1970, no fim do julgamento (Imprensa Nacional, Toponímia de Lisboa), ou 1966 (Museu do Aljube, RTP Ensina), que é o ano do livro segundo a Imprensa Nacional; a Assembleia da República data a edição de novembro de 1965.
  • Se chegou a ser presa em 1966, como diz a Wikipédia; nenhuma outra fonte o refere.
  • O dia do primeiro debate sobre o aborto: 2 de março de 1982 (Assembleia da República) ou 3 de março (Polígrafo, que leu as atas). A FCSH põe a resposta a João Morgado no debate de 12 de novembro de 1982.
  • Onde ficava a Estúdios Cor, a editora de que foi diretora literária.

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Fontes

  1. 1Natália Correia. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2O Essencial sobre Natália Correia (Luiz Fagundes Duarte). Imprensa Nacional, 2024 — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Natália Correia (13/9/2020). Museu do Aljube – Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Natália Correia: todas as personalidades num botequim (19/4/2017). FCSH+Lisboa – NOVA FCSH — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Natália Correia, retrato de uma poetisa desassombrada. RTP Ensina — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Mulheres pela Igualdade (biografias). CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Natália Correia fez mesmo uma intervenção no Parlamento contra o deputado João Morgado do CDS-PP baseada neste poema?. Polígrafo (SAPO) — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Natália Correia. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Processo “Novas Cartas Portuguesas”. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10A rua de Natália no seu 90º aniversário. Toponímia de Lisboa (blogue da Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11Natália Correia. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 12Café Gelo. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 13Novas Cartas Portuguesas. Wikipédia (ponto de partida) — consultado a 2 de outubro de 2026