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Resistênciapor Onofriana.pt
O percurso e as 8 paragens. Ruas e rio: © contribuidores do OpenStreetMap.

Percurso · Oposição · a pé

Do Rato ao Parque

As associações de mulheres que o regime fechou, a vigília contra a guerra, a rádio da revolução e a manifestação feminista de 1975

Distância
3,8 km
Duração
2 h
Paragens
8
Dificuldade
Média
Começar a caminhar

O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.

Introdução

Entre Campo de Ourique e o Marquês de Pombal ficam algumas das histórias mais ousadas da resistência das mulheres. A última sede do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, fechada pela polícia em 1947, e a exposição de livros de mulheres que lhe serviu de pretexto.1 A assembleia que, segundo o próprio movimento, fundou o Movimento Democrático de Mulheres. A vigília católica contra a guerra colonial, anunciada ao microfone por uma mulher.2 E, já em liberdade, a manifestação feminista de 1975 que uma multidão de homens desfez aos gritos.3

Pelo meio, a casa da primeira mulher a votar em Portugal, a rádio que deu voz ao 25 de Abril e o restaurante de onde saíram os cravos da revolução.

Antes de ir

Partida
Padaria do Povo, Rua Luís Derouet, em Campo de Ourique — Elétrico 28 (paragem Rua Saraiva de Carvalho); Metro Rato (linha amarela), a quinze minutos a pé
Chegada
Sociedade Nacional de Belas-Artes, Rua Barata Salgueiro — Metro Avenida (linha azul) ou Marquês de Pombal (linhas azul e amarela)
Acessibilidade do caminho
Sobe-se de Campo de Ourique ao Rato e do Rato às Amoreiras com subidas suaves; do Rádio Clube Português ao alto do Parque Eduardo VII a subida é mais forte. O parque tem caminhos de terra e de calçada; o resto do percurso faz-se em passeios largos.

Mapa do percurso «Do Rato ao Parque», com 8 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.

As paragens

  1. Paragem 1: A padaria das ideias

    Rua Luís Derouet, 20A, 1250-153 Lisboa

    A Padaria do Povo nasceu em 1904 como cooperativa, para fazer pão mais barato para o bairro. Em 1919, Bento de Jesus Caraça e António Ferreira de Macedo fundaram nas suas salas a Universidade Popular, que funcionou aqui até 1946, quando foi perseguida e fechada.45

    Segundo o próprio Movimento Democrático de Mulheres, foi numa assembleia aqui, em 1968, que ele nasceu, herdeiro do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. A 21 de outubro de 1973 fez o seu primeiro encontro nacional, com 250 mulheres.6

    Até à paragem 2640 m · 10 min a péCaminho

  2. Paragem 2: A viúva que leu a lei

    Rua do Sol ao Rato, Lisboa (n.º 181, 1.º, na numeração de 1909–1910; não localizado na numeração atual)

    Rua estreita entre prédios antigos, um deles forrado de azulejos, com varandas de ferro e janelas de guilhotina, vista ao nível do passeio.
    A Rua do Sol ao Rato, onde moraram Carolina Beatriz Ângelo e Januário Barreto, em dezembro de 2019. Sergei Gussev, CC BY 2.0

    Em 1909, Carolina Beatriz Ângelo morava no primeiro andar do n.º 181 desta rua, com o marido e primo, o médico republicano Januário Barreto.7 Januário morreu em 1910, a poucos meses de ver a República; foi velado aqui, e o cortejo seguiu para o Cemitério dos Prazeres acompanhado por uma multidão.8

    Viúva e com uma filha a cargo, Carolina tornou-se «chefe de família» — a condição que a lei eleitoral de 1911 lhe permitiu invocar para pedir o voto. Votou um ano depois, em Arroios: a primeira mulher a votar em Portugal.9

    Até à paragem 3430 m · 5 min a péCaminho

  3. Paragem 3: A vigília contra a guerra

    Calçada Bento da Rocha Cabral, 1-B, 1257-047 Lisboa

    Edifício comprido e baixo de fachada cor de salmão, com janelas de moldura de pedra, algumas gradeadas, ao longo de uma rua inclinada, sob céu azul.
    A Capela do Rato, na Calçada Bento da Rocha Cabral, em 2023. GualdimG, CC BY-SA 4.0

    A 30 de dezembro de 1972, no fim da missa da tarde, a educadora Maria da Conceição Moita foi ao microfone desta capela e anunciou, em nome de um grupo de cristãos, uma vigília de 48 horas, em jejum, contra a guerra colonial.2 No dia seguinte, cerca de trezentas pessoas aprovaram uma moção contra a «guerra criminosa» e a «cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica». A polícia de choque cercou a capela e levou dezenas de pessoas para a esquadra; catorze acabaram em Caxias.10

    Quando a polícia entrou, foi uma bibliotecária, Maria Benedita Galamba de Oliveira, quem puxou as orações. Meses depois, presa pela DGS, Conceição Moita foi esbofeteada até desmaiar e passou sete dias e oito noites sem a deixarem dormir.2

    Até à paragem 4260 m · 5 min a péCaminho

  4. Paragem 4: O Conselho que a polícia fechou

    Travessa da Fábrica das Sedas (Amoreiras), Lisboa – número por confirmar

    Pequeno edifício branco de um só piso, com frontão recortado, um óculo e uma porta de madeira ao centro, entre um muro e o céu claro.
    Nas Amoreiras, perto da Travessa da Fábrica das Sedas: o edifício da antiga Fábrica dos Tecidos de Seda, em 2024. JnpoJuwan, CC0 1.0

    Em 1946, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas mudou a sede dos Restauradores para esta travessa. Sob a presidência de Maria Lamas, crescera e abrira delegações pelo país; a mudança foi, segundo a investigadora Rosa de Lurdes Correia, a oportunidade de que o regime precisava.1

    A 28 de junho de 1947, a polícia fechou a sede «sem aviso prévio». Pouco antes, Maria Lamas fora obrigada a escolher entre a direção da revista «Modas e Bordados» e o Conselho — e escolhera o Conselho.11 Respondeu percorrendo o país para escrever «As Mulheres do Meu País», publicado em fascículos a partir de 1948.12

    Até à paragem 5730 m · 10 min a péCaminho

  5. Paragem 5: A rádio da revolução

    Rua Sampaio e Pina, 24, Lisboa

    Na madrugada de 25 de abril de 1974, oficiais do MFA ocuparam sem incidentes os estúdios do Rádio Clube Português, nesta rua, e fizeram dele a emissora do Movimento.1314 Às 04h26, o locutor Joaquim Furtado leu o primeiro comunicado, que pedia calma à população e aos médicos que fossem para os hospitais.14

    Pelas 14h30, o comunicado que anunciava o cerco a Marcelo Caetano no Carmo foi lido por uma mulher, Clarisse Guerra.1415 Ao longo do dia passaram canções antes proibidas, de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Luís Cília e José Mário Branco.1415

    Até à paragem 6570 m · 10 min a péCaminho

  6. Paragem 6: 13 de janeiro de 1975 — a fogueira que não houve

    Parque Eduardo VII, Lisboa

    Grande relvado em declive com sebes recortadas em desenhos geométricos, ladeado por árvores, e a cidade e o rio ao fundo, sob um céu de nuvens.
    O Parque Eduardo VII vazio, numa manhã de abril de 2020, a descer até à Rotunda e ao Tejo. Jules Verne Times Two, CC BY-SA 4.0

    Ao fim da tarde, cerca de quinze ativistas do Movimento de Libertação das Mulheres — algumas com os filhos — vieram ao parque queimar símbolos da opressão das mulheres: tachos, vassouras, grinaldas de noiva, brinquedos sexistas, os códigos civil e penal. Três delas faziam de noiva, de dona de casa e de «vamp».

    O Expresso tinha anunciado a iniciativa em tom de troça, e apareceram cerca de dois mil homens, aos gritos de «fora com elas!». Rodearam algumas delas e tentaram virar a carrinha onde estavam as crianças. A fogueira nunca se fez — e a «queima de soutiens» é uma lenda, desmentida pelas participantes e pela jornalista Maria Antónia Palla, que assistiu até ao fim.3

    Até à paragem 7710 m · 10 min a péCaminho

  7. Paragem 7: Os cravos do Sir

    Rua Braamcamp, esquina com a Rua Castilho, 1250-048 Lisboa

    Prédio de escritórios de betão aparente, com a fachada coberta de pequenos arcos e palas em relevo que lhe dão o aspeto de franjas, numa esquina, sob céu azul-escuro.
    O Edifício Franjinhas, na esquina da Rua Braamcamp com a Rua Castilho, em 2019. GualdimG, CC BY-SA 4.0

    Neste edifício funcionava o Sir, o restaurante onde trabalhava Celeste Caeiro. Fazia um ano a 25 de abril de 1974, e os donos tinham comprado cravos para oferecer às clientes. Nessa manhã, o patrão anunciou que a casa não ia abrir, «porque se está a dar uma revolução», e os cravos foram distribuídos às empregadas para não murcharem. Celeste levou um molho e apanhou o metro para a Baixa.16

    O resto da história está no percurso O dia inicial.

    Descerramento, no fim da Rua do Carmo, junto ao Rossio, de uma placa com o poema «Celeste em Flor», de Rosa Guerreiro Dias, no lugar onde Celeste Caeiro deu um cravo a um soldado que lhe pedira um cigarro. A placa assinala o gesto 51 anos depois.

    Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Câmara Municipal de Lisboa

    Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 8440 m · 5 min a péCaminho

  8. Paragem 8: Três mil livros de mulheres

    Rua Barata Salgueiro, 36, 1250-044 Lisboa

    Fachada de pedra clara e tijolo com o nome «Sociedade Nacional de Belas-Artes» por cima de uma porta larga, entre árvores de folhagem verde.
    A entrada da Sociedade Nacional de Belas-Artes, na Rua Barata Salgueiro, em 2012. Manuelvbotelho, CC BY-SA 3.0

    De 4 a 12 de janeiro de 1947, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas fez aqui a «Exposição de Livros Escritos por Mulheres»: três mil livros de quatrocentas autoras de trinta países, e fotografias de mulheres que se tinham destacado como intelectuais e como resistentes ao nazismo e ao fascismo.17 A atriz Manuela Porto falou sobre Virginia Woolf e «o problema das mulheres das letras».11

    Foi um êxito. A imprensa católica viu no Conselho «um perigo de morte para a Mulher e a Moral»18 — e, para a investigadora Teresa Joaquim, foi esta exposição que levou o regime a fechá-lo, seis meses depois.12

Notas sobre as fontes2
  • A casa de Carolina Beatriz Ângelo: a numeração atual da Rua do Sol ao Rato não chega ao 181, e a paragem é aproximada.
  • O número de porta da última sede do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, na Travessa da Fábrica das Sedas.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1Ser mulher em Lisboa: a associação que agitou o regime no século XX (Ana Sofia Paiva, 8/3/2019). FCSH+Lisboa – NOVA FCSH — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2«A paz é possível»: algumas notas sobre o caso da Capela do Rato (António de Araújo). Lusitania Sacra, 2.ª série, 16 (2004), pp. 431-463 – Universidade Católica Portuguesa — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3A manifestação feminista que não chegou a acontecer, 45 anos depois (Rafaela Cortez, 26/4/2020). Comunidade Cultura e Arte — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Cooperativa «A Padaria do Povo». Junta de Freguesia de Campo de Ourique — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Padaria do Povo, a cooperativa onde há sempre alguém que diz «não» (Catarina Pires, 2/7/2026). Mensagem de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6A nossa história – MDM 1968-2023. MDM – Movimento Democrático de Mulheres — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7A rua lisboeta da primeira mulher que votou em Portugal. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Carolina: por entre os itinerários da memória e da ciência (Gaudium Sciendi, n.º 2, julho de 2012). Isabel Lousada / Universidade Católica Portuguesa — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Carolina Beatriz Ângelo. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10Caso da Capela do Rato. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11Mulheres pela Igualdade (biografias). CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 12Maria Lamas e As Mulheres do Meu País ou a deslocalização de uma intelectual (Teresa Joaquim, CEMRI). Repositório Aberto da Universidade Aberta — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 13Rádio Clube Português (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  14. 14Movimentações do dia 25 de Abril. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  15. 15Operação Viragem Histórica. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  16. 16Onde eu estava há 50 anos por... Celeste Caeiro. Diário de Notícias — consultado a 2 de outubro de 2026
  17. 17Maria Lamas, a ativista pelos direitos das mulheres (Virgínia Baptista, IHC – NOVA FCSH). RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  18. 18Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Wikipédia (pt) — consultado a 2 de outubro de 2026

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