A Rua do Sol ao Rato, onde moraram Carolina Beatriz Ângelo e Januário Barreto, em dezembro de 2019.Sergei Gussev, CC BY 2.0
Campo de Ourique
Casa de Carolina Beatriz Ângelo e Januário Barreto (Rua do Sol ao Rato, 181)
Aqui morava, em 1909, a médica Carolina Beatriz Ângelo, com o marido, o médico republicano Januário Barreto. Daqui saiu o funeral dele, em 1910; a viuvez fez dela «chefe de família», a condição com que, em 1911, foi a primeira mulher a votar em Portugal.
Segundo um anúncio de 1909, a médica Carolina Beatriz Ângelo tinha consultório no n.º 84 da Rua Nova do Almada e morava no n.º 181 da Rua do Sol ao Rato. Casara em 1902 com o primo Januário Barreto, também médico e ativista republicano.2 A filha de ambos, Maria Emília, nascera em 1903.4
Januário Barreto, antigo aluno da Casa Pia, morreu em 1910, «a escassos meses de ver proclamada a República, por que tanto lutou». Foi velado nesta casa, num primeiro andar, e o cortejo fúnebre saiu daqui para o Cemitério dos Prazeres, acompanhado por uma multidão. Nas exéquias falou o advogado José de Castro, grão-mestre adjunto da Maçonaria — o mesmo que encarregou Carolina e Adelaide Cabete de fazerem as bandeiras verde-rubras da revolução republicana.1 Foram essas as bandeiras hasteadas em Lisboa a 5 de Outubro de 1910.2
Viúva, com uma filha de sete anos, Carolina passou a ser «chefe de família».3 A lei eleitoral de 1911 dava o voto aos chefes de família maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever: ela pediu a inscrição como eleitora e ganhou o processo em tribunal.2 A 28 de maio de 1911, na assembleia eleitoral de São Jorge de Arroios, instalada no Clube Estefânia, foi a primeira mulher a votar em Portugal.1Morreu a 3 de outubro desse ano, ao voltar para casa, já na Rua António Pedro, depois de uma reunião política de «senhoras feministas».4
Mapa com a localização de Casa de Carolina Beatriz Ângelo e Januário Barreto (Rua do Sol ao Rato, 181).
A abrir o mapa…
Casa de Carolina Beatriz Ângelo e Januário Barreto (Rua do Sol ao Rato, 181)Rua do Sol ao Rato, Lisboa (n.º 181, 1.º, na numeração de 1909–1910; não localizado na numeração atual)
Na revolta de fevereiro de 1927 ergueram-se aqui barricadas, e junto ao chafariz foram fuzilados civis e marinheiros. Em 1931, o largo voltou a ser linha de combate; em 1972, foi para a esquadra do largo que a polícia levou os presos da vigília da Capela do Rato.
Hoje: Capela do Rato (Capela de Nossa Senhora da Bonança)
Na passagem de 1972 para 1973, católicos contra a guerra colonial fizeram aqui uma vigília de 48 horas. Foi uma mulher, Maria da Conceição Moita, quem a anunciou ao microfone; a polícia de choque acabou com ela e levou dezenas de pessoas.
Em 1946, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Maria Lamas, mudou a sede para esta travessa das Amoreiras. A 28 de junho de 1947, a polícia fechou-a «sem aviso prévio», pondo fim a 33 anos de associação.
Cooperativa de pão fundada em 1904 num bairro operário, casa da Universidade Popular de Bento de Jesus Caraça até 1946. Segundo o próprio Movimento Democrático de Mulheres, foi numa assembleia aqui que o MDM nasceu, em 1968.
MulheresOposiçãoTrabalho
Notas sobre as fontes3
Onde ficava o n.º 181 da numeração de 1909–1910: a numeração atual da rua não parece chegar a esse número (OpenStreetMap), e o ponto no mapa marca só a rua. As plantas e os registos da época, no Arquivo Municipal de Lisboa, podem responder.
O dia da morte de Januário Barreto: 23 de junho de 1910, segundo um blogue sobre a história do Benfica, clube de que foi o primeiro presidente da direção; Isabel Lousada dá só o ano.
Quando o casal ou Carolina, já viúva, deixou esta casa pela da Rua António Pedro, em Arroios, e o número dessa casa.