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Resistênciapor Onofriana.pt
O percurso e as 6 paragens. Ruas e rio: © contribuidores do OpenStreetMap.

Percurso · Mulheres · a pé

Graça, a colina das mulheres

Costureiras em greve, uma propagandista republicana, uma cadeia de mulheres, um bar e uma poeta — a Graça contada por elas

Distância
1,7 km
Duração
1 h 15 min
Paragens
6
Dificuldade
Exigente
Começar a caminhar

O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.

Introdução

A Mouraria e a Graça guardam uma história quase toda no feminino. Aqui houve costureiras que fizeram greve em 1915 por um horário de oito horas;1 uma propagandista republicana que morreu um dia depois de o Estado lhe conceder a pensão que a monarquia lhe negara;2 uma cadeia de mulheres; um bar onde Natália Correia juntava a sua tertúlia; e a casa onde Sophia de Mello Breyner Andresen viveu mais de cinquenta anos.4

O percurso sobe do Benformoso à Graça e acaba no miradouro que tem o nome da poeta, com Lisboa aos pés.

Antes de ir

Partida
Rua do Benformoso, junto ao Largo do Intendente — Metro Intendente ou Martim Moniz (linha verde)
Chegada
Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, na Graça — Elétrico 28 (paragem Graça)
Acessibilidade do caminho
Começa com uma subida forte e longa, do Benformoso à Rua de São Gens, com troços muito inclinados e calçada. Depois, a Graça é quase plana. Quem não pode subir pode apanhar o elétrico 28 no Martim Moniz até ao Largo da Graça e começar no Botequim; as duas primeiras paragens ficam para ler no telemóvel.

Mapa do percurso «Graça, a colina das mulheres», com 6 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.

As paragens

  1. Paragem 1: 1915 — as costureiras da Ramiro Leão

    Rua do Benformoso, Lisboa (número por identificar)

    Rua estreita e comprida entre prédios altos de varandas, com lojas no rés-do-chão, roupa a secar e gente a passar ao fundo.
    A Rua do Benformoso, entre a Mouraria e o Intendente, em abril de 2022. Andrzej Otrębski, CC BY-SA 4.0

    Nesta rua tinha sede, em 1915, a associação de classe das Costureiras e Ajuntadeiras. Nesse verão, «A Voz do Operário» publicou a carta do pai de uma costureira da fábrica que a casa Ramiro Leão, do Chiado, tinha na colina de Santana: as operárias pagavam as linhas que gastavam e ganhavam entre 185 e 220 centavos por semana. Respondeu Adelaide Abrantes, dirigente da associação: o patrão não as trataria assim se estivessem organizadas, «pois que sem patrão pode-se produzir, mas o patrão é que não pode viver sem os productores». Mais de cem operárias vieram à reunião que convocou para aqui.

    Em agosto, três operárias que pediam as oito horas de trabalho — Miquelina Furtado, Laurinda Pinheiro e Lúcia Martins — foram despedidas. As colegas fizeram piquete à porta da fábrica antes das seis da manhã e pararam-na; ao fim de quatro horas e meia, a cavalaria e a infantaria da GNR dispersaram-nas. A greve perdeu-se, mas a lei das oito horas chegou em 1919.1

    Até à paragem 2670 m · 10 min a péCaminho

  2. Paragem 2: Angelina Vidal, a propagandista

    Rua de São Gens, 41, 1170-337 Lisboa

    Fotografia a preto e branco de um padrão de pedra alto e estreito num pequeno largo empedrado, com um candeeiro, uma árvore despida e casas baixas atrás.
    O padrão de 1148 na Rua de São Gens, por volta de 1900. Fotografia de José Artur Leitão Bárcia (Arquivo Municipal de Lisboa). José Artur Leitão Bárcia, Domínio público

    Angelina Vidal (1847–1917) fez comícios e escreveu em jornais operários pela República e pelo socialismo; foi editora de «A Voz do Operário» e ensinou francês e música. Defendia a igualdade entre homens e mulheres no trabalho e nas leis civis, embora nunca se tenha dito feminista.

    Viúva de um médico da Armada desde 1894, viu a monarquia recusar-lhe a pensão por ser «inimiga das instituições». A pensão foi-lhe concedida a 31 de julho de 1917 — e Angelina morreu no dia seguinte, aqui, no n.º 41 da Rua de São Gens.2 Em 1924, Lisboa deu o seu nome a uma rua aqui perto, com a legenda «Ilustre Conferencista e Propagandista da Emancipação Social».3

    Até à paragem 3560 m · 10 min a péCaminho

  3. Paragem 3: O bar de Natália

    Largo da Graça, 79-80 (rés-do-chão da Vila Sousa), 1100-266 Lisboa

    Prédio comprido de quatro andares forrado de azulejos azul-esverdeados, com varandas de ferro e janelas de moldura branca, sob céu azul.
    A Vila Sousa, no Largo da Graça, em cujo rés-do-chão fica o Botequim, em 2019. Chabe01, CC BY-SA 4.0

    Em 1971, Natália Correia abriu aqui um bar com três amigas — Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta — e trouxe para cá a tertúlia que reunia em casa, com gente das artes, das letras e da oposição.5 Discutia-se, diz um roteiro da NOVA FCSH, «em liberdade literatura, política e feminismo».6

    Natália, já condenada pela antologia de poesia erótica e satírica que organizara, estava aqui na noite de 24 para 25 de abril de 1974, e aqui festejou a queda da ditadura.7

    Até à paragem 4200 m · 5 min a péCaminho

  4. Paragem 4: A escola dos operários

    Rua da Voz do Operário, 13, 1100-620 Lisboa

    Fachada alta, amarela e branca, com colunas, varandas de ferro e uma grande janela redonda no topo, vista de frente e de baixo.
    A sede da Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário, na Graça, em 2013. José Luiz Bernardes Ribeiro, CC BY-SA 3.0

    Nascida em 1879 como jornal dos tabaqueiros, A Voz do Operário fez-se a maior escola popular de Lisboa: em 1938 tinha 4200 alunos, a maioria filhos de operários.8

    Em 1949, a oposição fez aqui comícios pela candidatura presidencial de Norton de Matos — e na mesa sentaram-se mulheres: Isabel Aboim Inglez, Maria Lamas e a médica Cesina Bermudes, dirigentes do movimento de mulheres que apoiava o general.9 Em outubro desse ano, Cesina Bermudes foi presa e levada para Caxias;10 Maria Lamas seria presa três vezes.11

    Até à paragem 5290 m · 5 min a péCaminho

  5. Paragem 5: A cadeia das mulheres

    Travessa das Mónicas, 2, 1100-359 Lisboa

    Fotografia a preto e branco de uma rua empedrada e deserta, entre muros altos e a fachada comprida e austera de um antigo convento, com um candeeiro de rua.
    A Travessa das Mónicas e o Convento das Mónicas, já estabelecimento prisional, por volta de 1900. Fotografia de José Artur Leitão Bárcia (Arquivo Municipal de Lisboa). José Artur Leitão Bárcia, Domínio público

    Neste antigo convento funcionou a Cadeia Civil de Mulheres de Lisboa. Era sobretudo de delito comum, mas recebeu presas políticas.12 Magda Fonseca lembra as visitas que, em criança, fazia aqui à tia, militante comunista: as «apalpadeiras» à entrada, a rede a meia altura entre presas e visitas, as fardas — «quadradinhos azuis e brancos, para as políticas, e encarnados e brancos para as presas comuns» — e os bilhetes escondidos na roupa interior da criança.13

    Foi para aqui que o Tribunal Plenário mandou, por três dias, Isabel Aboim Inglez, por «falta de respeito ao tribunal». À saída, ela disse que tinha aprendido com as outras presas e feito um «estudo sociológico».14

    Até à paragem 610 m · 5 min a péCaminho

  6. Paragem 6: A casa de Sophia

    Travessa das Mónicas, 57, 1.º andar, Lisboa

    Fotografia a preto e branco de uma rua empedrada e deserta, entre muros altos e a fachada comprida e austera de um antigo convento, com um candeeiro de rua.
    A Travessa das Mónicas e o Convento das Mónicas, já estabelecimento prisional, por volta de 1900. Fotografia de José Artur Leitão Bárcia (Arquivo Municipal de Lisboa). José Artur Leitão Bárcia, Domínio público

    A 3 de novembro de 1951, Sophia de Mello Breyner Andresen mudou-se com a família para o primeiro andar do n.º 57 desta travessa. «Estou na Graça! Cheguei hoje», escreveu à mãe. Viveu aqui até morrer, em 2004. A casa tinha dois lados: um virado para o rio e outro para a Travessa das Mónicas, «onde havia uma prisão».4

    Daqui saiu uma resistência feita de poemas e de atos: o apoio a Humberto Delgado, a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, as vigílias católicas contra a guerra colonial.15 Ao fundo, o miradouro da Graça tem o seu nome desde 2009, com um busto e uma placa com o poema «Lisboa».16

Notas sobre as fontes1
  • O número da porta da antiga sede das costureiras na Rua do Benformoso; a paragem fica na rua.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1Greve de operárias da Ramiro Leão em 1915 (Luís Carvalho, 4/9/2019). A Voz do Operário — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2A republicana Angelina Vidal. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Lisboa Republicana: topónimos no feminino. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Sophia de Mello Breyner Andresen – Lisboa (exposição virtual). Biblioteca Nacional de Portugal — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Natália Correia. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Graça em estado de graça (roteiro, 20/4/2017). FCSH+Lisboa – NOVA FCSH — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7O Essencial sobre Natália Correia (Luiz Fagundes Duarte). Imprensa Nacional, 2024 — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8História. A Voz do Operário — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Candidatura de Norton de Matos [...] comício de Lisboa (Voz do Operário). Maria Lamas, Manuel João da Palma Carlos e Cesina Bermudes – fotografia (cota 04654.000.026). Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10A Rua Cesina Adães Bermudes e o parto sem dor. Toponímia de Lisboa (blogue da Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11Maria Lamas. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 127. Isolamento e «celas disciplinares». Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 13Mónicas (testemunho de Magda Fonseca). URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses — consultado a 2 de outubro de 2026
  14. 14Isabel Aboim Inglez. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  15. 15Sophia de Mello Breyner Andresen: militância antifascista a partir da crise do Estado Novo (tese de doutoramento, Eloísa da Silva Aragão, 2017). Universidade de São Paulo — consultado a 2 de outubro de 2026
  16. 16Um itinerário para Sophia (Luís Almeida D'Eça, 8/11/2019). Agenda Cultural de Lisboa (agendalx.pt) — consultado a 2 de outubro de 2026

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