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O percurso e as 6 paragens. Ruas e rio: © contribuidores do OpenStreetMap.

Percurso · República · a pé

O voto de Carolina

As sufragistas da I República, da Baixa a Arroios — médicas, professoras e jornalistas que pediram o voto, e uma que votou

Distância
4,1 km
Duração
1 h 50 min
Paragens
6
Dificuldade
Média
Começar a caminhar

O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.

Introdução

A República chegou a 5 de outubro de 1910 e o voto das mulheres não chegou com ela. A primeira lei eleitoral, de março de 1911, dava o voto aos cidadãos que soubessem ler e escrever ou fossem chefes de família — sem dizer de que sexo.1 Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e com uma filha a cargo, leu bem a lei, foi a tribunal e votou a 28 de maio de 1911: a primeira mulher a votar em Portugal. Em 1913, a lei passou a dizer «do sexo masculino».2

Este percurso segue as sufragistas da I República — as que se organizaram em ligas, conselhos e cursos noturnos para mulheres — do consultório de Carolina, na Baixa, à sala onde ela disse «Sou eu!».

Antes de ir

Partida
Rua Nova do Almada, na Baixa — Metro Baixa-Chiado (linhas azul e verde)
Chegada
Rua de Dona Estefânia, em Arroios — Metro Saldanha (linhas amarela e vermelha) ou Arroios (linha verde)
Acessibilidade do caminho
A Baixa e os Restauradores são planos. Dos Restauradores ao Hospital de São José sobe-se a colina de Santana, íngreme e em calçada. Daí até Arroios o caminho é largo, com subidas suaves.

Mapa do percurso «O voto de Carolina», com 6 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.

As paragens

  1. Paragem 1: O consultório de uma médica

    Rua Nova do Almada, 84, 1100-225 Lisboa

    Rua estreita e inclinada, com carros e um táxi junto ao passeio e prédios de quatro andares com varandas de ferro dos dois lados.
    A Rua Nova do Almada, no Chiado, em março de 2020. Daniel, CC BY 2.0

    Carolina Beatriz Ângelo veio da Guarda para estudar em Lisboa, formou-se em Medicina em 1902 e dedicou-se à ginecologia. Um anúncio de 1909 situa o seu consultório aqui, no n.º 84 da Rua Nova do Almada.3

    A Baixa era também o território de outra médica feminista: Adelaide Cabete teve consultório na Rua da Prata e na Rua Áurea antes de se mudar para os Restauradores, onde vamos a seguir.4

    Até à paragem 2710 m · 10 min a péCaminho

  2. Paragem 2: O Conselho das Mulheres

    Praça dos Restauradores, 13, 1.º andar, Lisboa

    Fotografia a preto e branco tirada do alto: o obelisco no meio de uma praça com elétricos e automóveis antigos, a avenida arborizada a perder de vista e, à esquerda, a fachada longa de um palácio com estátuas no telhado.
    A Praça dos Restauradores em 1951, com o Palácio Foz — então sede do SNI — à esquerda e o obelisco ao centro. Autor desconhecido (ETH-Bibliothek Zürich, Bildarchiv), CC BY-SA 4.0

    No primeiro andar do n.º 13 desta praça, no consultório de Adelaide Cabete, nasceu em 1914 o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas — para a historiadora Rosa de Lurdes Correia, «a mais importante e duradoura associação feminista portuguesa da primeira metade do século XX». Teve aqui a sede durante 32 anos.5

    Adelaide Cabete dava consultas gratuitas a mulheres pobres.4 O Conselho atravessou a República e a ditadura: foi presidido por Maria Lamas a partir de 1945 e fechado pela polícia em 1947.5

    Até à paragem 3870 m · 15 min a péCaminho

  3. Paragem 3: A primeira cirurgiã

    Rua José António Serrano, 1150-199 Lisboa

    Portão de pedra clara em arco, coroado por esculturas, entre muros cor de salmão; lá dentro, um pátio com árvores.
    O portão barroco do Hospital de São José, em novembro de 2025. Vitor Oliveira, CC BY-SA 4.0

    Carolina Beatriz Ângelo foi pioneira nas intervenções cirúrgicas e, segundo a Toponímia de Lisboa, a primeira médica portuguesa a operar neste hospital.3 Era uma geração pequena: em 1906, ela, Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Emília Patacho e Maria do Carmo Lopes aderiram juntas a um movimento feminino pela paz e pelo desarmamento.3

    Até à paragem 4740 m · 10 min a péCaminho

  4. Paragem 4: A Liga Republicana das Mulheres

    Rua dos Castelinhos, 6, 2.º, Lisboa

    Estandarte de cetim claro com as palavras «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas» pintadas a dourado e, ao centro, uma mão a erguer um archote aceso, entre um ramo de oliveira e um ramo de carvalho, diante de um sol amarelo.
    O estandarte da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, de cerca de 1909–1911. Autor desconhecido, Domínio público

    A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas foi lançada em 1908 por Ana de Castro Osório e António José de Almeida, e constituiu-se em fevereiro de 1909 — segundo a Toponímia de Lisboa, no segundo andar do n.º 6 desta rua. Queria «orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos, a mulher portuguesa» e mudar as leis que lhe diziam respeito.67

    Depois do 5 de Outubro, a Liga pediu ao Governo Provisório a revisão do Código Civil, o divórcio e o voto.11 Dividiu-se em 1911 sobre que voto pedir: Ana de Castro Osório queria-o para as mulheres instruídas; Maria Veleda, para todas.1

    Até à paragem 51,3 km · 20 min a péCaminho

  5. Paragem 5: As aulas da noite

    Calçada de Arroios, Lisboa (número por identificar)

    Em 1907, o Grupo Português de Estudos Feministas — médicas, escritoras e sobretudo professoras — dava cursos noturnos a mulheres que não sabiam ler no Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa, aqui na Calçada de Arroios.8 Ensinar a ler era também abrir a porta do voto: a lei de 1911 só o daria a quem soubesse ler e escrever, ou fosse chefe de família.1

    Até à paragem 6410 m · 5 min a péCaminho

  6. Paragem 6: 28 de maio de 1911 — «Sou eu!»

    Rua de Dona Estefânia, 62, Lisboa (sede atual do clube: Rua Alexandre Braga, 24-A, 1150-004 Lisboa)

    Fotografia a preto e branco de duas mulheres de chapéu e vestidos escuros, lado a lado, na rua, diante de um muro.
    Carolina Beatriz Ângelo, «a primeira eleitora portuguesa», com Ana de Castro Osório no dia da eleição de 28 de maio de 1911. Fotografia de Joshua Benoliel publicada na «Ilustração Portuguesa». Joshua Benoliel, Domínio público

    Recusada pela comissão de recenseamento, Carolina recorreu ao tribunal, e o juiz João Baptista de Castro — pai de Ana de Castro Osório — mandou inscrevê-la: a lei, ao dizer «portugueses», abrangia homens e mulheres. Ficou eleitora com o n.º 2513.2

    No dia das eleições para a Assembleia Constituinte, a assembleia de voto de São Jorge de Arroios funcionava aqui, no Clube Estefânia, então frequentado só por homens.10 Um eleitor protestou; Carolina lembrou que a lei só impedia de votar os «loucos ou embriagados». Na segunda chamada, ao ouvir o seu nome, avançou — «Sou eu!» — e entregou a lista, sob palmas.9 A «Ilustração Portuguesa» chamou-lhe «a única eleitora portuguesa».2 Morreu quatro meses depois, com 33 anos.12

Notas sobre as fontes2
  • Que os números de porta de hoje (Rua Nova do Almada, 84; Praça dos Restauradores, 13; Rua dos Castelinhos, 6; Rua de Dona Estefânia, 62) correspondem aos edifícios da época.
  • O número da porta do Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa na Calçada de Arroios.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021). Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Carolina Beatriz Ângelo. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3A rua lisboeta da primeira mulher que votou em Portugal. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4A Rua da médica Adelaide Cabete que também foi professora de Higiene. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Ser mulher em Lisboa: a associação que agitou o regime no século XX (Ana Sofia Paiva, 8/3/2019). FCSH+Lisboa – NOVA FCSH — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Almanaque Republicano (blogue) — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7A feminista e republicana Ana de Castro Osório. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Maria Veleda na urbanização das mulheres. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Carolina: por entre os itinerários da memória e da ciência (Gaudium Sciendi, n.º 2, julho de 2012). Isabel Lousada / Universidade Católica Portuguesa — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10O clube de Arroios onde uma mulher votou pela primeira vez virou espaço de resistência (8/3/2024). Mensagem de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Wikipédia (pt) — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 12Carolina Beatriz Ângelo: um legado com 110 anos. FCSH+Lisboa (NOVA FCSH) — consultado a 2 de outubro de 2026

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