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O percurso e as 7 paragens. Ruas e rio: © contribuidores do OpenStreetMap.

Percurso · Revolução · a pé

O dia inicial

O 25 de Abril de 1974 hora a hora, do Terreiro do Paço ao Carmo e à porta da polícia política

Distância
2,4 km
Duração
1 h 30 min
Paragens
7
Dificuldade
Média
Começar a caminhar

O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.

Introdução

«Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo», escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen sobre o 25 de Abril.1

Este percurso segue esse dia pelas ruas onde ele se decidiu: a coluna de Salgueiro Maia que chega de Santarém de madrugada, os soldados que recusam disparar, a cidade que desobedece aos apelos para ficar em casa, o cravo de Celeste Caeiro, a voz de Clarisse Guerra na rádio, o cerco ao Carmo e a rendição de Marcelo Caetano. Acaba onde o dia acabou mal: à porta da polícia política, onde quatro pessoas foram mortas a tiro ao princípio da noite.

As horas são as das cronologias da Associação 25 de Abril, da Comissão Comemorativa dos 50 anos e do Centro de Documentação 25 de Abril. Quando não batem certo umas com as outras, diz-se.

Antes de ir

Partida
Terreiro do Paço (Praça do Comércio) — Metro Terreiro do Paço (linha azul)
Chegada
Rua António Maria Cardoso, no Chiado — Metro Baixa-Chiado (linhas azul e verde) e elétrico 28
Acessibilidade do caminho
A Baixa é plana. Do Rossio ao Largo do Carmo sobe-se a Rua do Carmo, íngreme, em calçada portuguesa que escorrega com chuva. Do Carmo até ao fim o caminho é quase plano, com passeios estreitos na Rua Capelo e na Rua António Maria Cardoso.

Mapa do percurso «O dia inicial», com 7 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.

As paragens

  1. Paragem 1: Madrugada — a coluna de Santarém

    Praça do Comércio, 1100-148 Lisboa

    Praça muito ampla e deserta, de chão claro cruzado por faixas brancas, com a estátua equestre ao centro e edifícios amarelos de arcadas a toda a volta.
    O Terreiro do Paço (Praça do Comércio) vazio, numa manhã de abril de 2020. Jules Verne Times Two, CC BY-SA 4.0

    A coluna da Escola Prática de Cavalaria saiu de Santarém às 03h30, comandada pelo capitão Salgueiro Maia, e por volta das seis da manhã ocupou esta praça, o Banco de Portugal e a Rádio Marconi — «Toledo, Bruxelas e Viena», no código do Movimento. As primeiras forças mandadas pelo regime puseram-se às ordens do MFA.2

    Nos ministérios à volta da praça, o ministro do Exército mandou abrir à picareta uma parede para o Ministério da Marinha, e por ali fugiram ministros e chefes militares. No rio, às 7h30, a fragata «Almirante Gago Coutinho» recebeu ordem para se pôr em frente ao Terreiro do Paço e abrir fogo sobre os blindados. Não disparou.9

    Até à paragem 2220 m · 5 min a péCaminho

  2. Paragem 2: Manhã — os soldados que não dispararam

    Rua do Arsenal / Avenida Ribeira das Naus, 1100-038 Lisboa

    Rua direita com carris de elétrico, entre uma fachada comprida de pedra clara à esquerda e prédios com varandas à direita.
    A Rua do Arsenal, junto aos Paços do Concelho, em 2017. Sam, CC BY 2.0

    A meio da manhã chegou pela Ribeira das Naus uma força fiel ao regime, com carros de combate M47. Salgueiro Maia foi ao seu encontro com um lenço branco na mão. O brigadeiro Junqueira dos Reis mandou o aspirante Fernando Sottomayor abrir fogo sobre ele; o aspirante recusou e recebeu ordem de prisão. A mesma ordem foi dada aos apontadores dos carros, e também eles recusaram. «Foi ali que se ganhou o 25 de Abril», diria Maia.9

    Pouco depois, aqui na Rua do Arsenal, os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva tentaram negociar com o brigadeiro. Exasperado, ele deu três murros no tenente Assunção, que não respondeu: fez-lhe continência e retirou-se.3

    Segundo capítulo do filme feito com as fotografias que Alfredo Cunha tirou em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, com música de Rodrigo Leão e realização de Miguel Brugo, publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024. Segue o livro do mesmo nome, em que esta parte tem texto de Adelino Gomes e imagens da Ribeira das Naus, da Rua do Arsenal e do Largo do Carmo.

    Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril

    Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 3800 m · 10 min a péCaminho

  3. Paragem 3: Meio-dia — a cidade desobedece

    Praça D. Pedro IV, 1100 Lisboa

    Praça retangular vista do alto, com a coluna de D. Pedro IV ao centro, duas fontes, o chão de calçada ondulada e o Teatro Nacional ao fundo, entre prédios de quatro andares.
    O Rossio (Praça de D. Pedro IV) visto do Elevador de Santa Justa, em 2007. Szilas, Domínio público

    Os comunicados do Movimento pediam à população que ficasse em casa. Lisboa fez o contrário e saiu à rua.12 Por volta do meio-dia, os blindados deixaram o Terreiro do Paço a caminho do Carmo; no Rossio, uma companhia enviada para os travar pôs-se às ordens do Movimento, e a coluna subiu as ruas íngremes do Chiado entre milhares de pessoas que aplaudiam.4

    Até à paragem 4290 m · 5 min a péCaminho

  4. Paragem 4: O cravo de Celeste

    Rua do Carmo, 1200-093 Lisboa

    Rua pedonal inclinada, entre prédios de fachadas claras e varandas de ferro, com gente a passear e uma ponte metálica a atravessar o alto da rua.
    A Rua do Carmo, a subir para o Chiado, com a passagem do Elevador de Santa Justa ao fundo, em 2019. Jan Helebrant, CC0 1.0

    Celeste Caeiro trabalhava num restaurante da Rua Braamcamp que fazia um ano nesse dia; não chegou a abrir, e os cravos comprados para as clientes foram dados às empregadas.13 Celeste veio para a Baixa com o seu molho de flores. Junto às chaimites, um soldado pediu-lhe um cigarro. Ela não fumava e deu-lhe um cravo, que ele pôs no cano da espingarda.14

    Os relatos não concordam sobre o ponto exato — o princípio da Rua do Carmo, a esquina com a Rua Garrett, o Rossio. Concordam no resto: o gesto repetiu-se pela cidade e deu nome à revolução.

    Descerramento, no fim da Rua do Carmo, junto ao Rossio, de uma placa com o poema «Celeste em Flor», de Rosa Guerreiro Dias, no lugar onde Celeste Caeiro deu um cravo a um soldado que lhe pedira um cigarro. A placa assinala o gesto 51 anos depois.

    Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Câmara Municipal de Lisboa

    Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 5290 m · 5 min a péCaminho

  5. Paragem 5: Tarde — o cerco ao Carmo

    Largo do Carmo, Lisboa

    Fachada clara com janelas em arco, uma bandeira portuguesa ao alto e duas guaritas listradas à porta; à frente, visitantes no largo.
    O Quartel do Carmo, comando-geral da GNR, no Largo do Carmo, em 2017. Marcin Latka, CC BY-SA 2.0

    Marcelo Caetano estava aqui desde a madrugada: às cinco da manhã, o diretor da polícia política telefonara-lhe — «Senhor Presidente, a Revolução está na rua!» — e aconselhara-o a refugiar-se no quartel da GNR.4 Segundo a cronologia de Jofre Alves, foi Maria de Lurdes Rocha, chefe da limpeza e da lavandaria do quartel, quem preparou à pressa cinco quartos para o governo cercado.10

    A coluna chegou cerca das 12h30 e cercou o quartel; a multidão encheu o largo e as ruas à volta. Pelas 14h30, o Rádio Clube Português passou um comunicado do MFA que anunciava o cerco, «agora lido por uma mulher», Clarisse Guerra.9 Às 15h10 Maia deu dez minutos para a rendição; às 15h25, uma chaimite disparou rajadas contra o alto da fachada. Às 16h00 chegou um emissário do general Spínola, e Caetano aceitou render-se — «assim o poder não cai na rua» —, desde que fosse a um oficial-general.5

    Spínola entrou no quartel ao fim da tarde. Às 18h30, Salgueiro Maia fez entrar de marcha-atrás pela porta de armas a chaimite «Bula», que levou Caetano e dois ministros para o posto de comando do MFA, na Pontinha.911

    Com as cinco últimas placas, inauguradas a 24 de março de 2024, Lisboa passou a ter 25 a assinalar os lugares da ação do MFA no 25 de Abril de 1974 — o projeto «Lugares de Abril», da Câmara e da Associação 25 de Abril. A Câmara destaca o Largo do Carmo, «o local mais simbólico» de Abril.

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    Até à paragem 6390 m · 5 min a péCaminho

  6. Paragem 6: A senha da meia-noite

    Rua Capelo, 5, 2.º, 1200-224 Lisboa

    Rua estreita e inclinada vista de cima, entre prédios antigos de várias cores com varandas de ferro, e carros estacionados lá em baixo.
    A Rua Capelo, no Chiado, vista de uma varanda do Teatro Nacional de São Carlos, em 2016. Maarten Brinkerink, CC BY-SA 2.0

    Volta-se atrás no tempo. Aqui, na Rua Capelo, ficavam os estúdios da Rádio Renascença. Foi daqui que, às 00h20 de 25 de abril, o programa «Limite» transmitiu «Grândola, Vila Morena», de José Afonso: a segunda senha, a que dizia às unidades do Movimento que as operações estavam em marcha e já não tinham volta.6

    A canção escolhida primeiro fora «Venham Mais Cinco», mas estava proibida na Renascença; foi o jornalista Carlos Albino, um dos autores do «Limite», quem propôs a «Grândola». O locutor Leite de Vasconcelos gravou a leitura da primeira quadra, que antecedeu a canção, sem saber para que servia.7

    O coro da Casa da Achada e quem passava cantam a «Grândola, Vila Morena» na rua, em Lisboa, no dia 25 de abril de 2023. Quase meio século depois de ter servido de senha à revolução, a canção de José Afonso continua a ser cantada em coro em cada 25 de Abril.

    Página original CC BY-SA 4.0 — Contaminadas (obra própria, Wikimedia Commons)

    Wikimedia Commons, no Wikimedia Commons. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 7430 m · 5 min a péCaminho

  7. Paragem 7: Noite — os quatro mortos da Rua António Maria Cardoso

    Rua António Maria Cardoso, 22, Lisboa (código postal do troço: 1249-101, segundo o OpenStreetMap)

    Fotografia a preto e branco de uma rua empedrada e quase vazia, entre prédios de varandas de ferro e a fachada alta de um teatro; ao fundo, à direita, uma árvore despida.
    A Rua António Maria Cardoso, com o então Teatro da República (hoje São Luiz), entre cerca de 1911 e 1915. Fotografia de Charles Chusseau-Flaviens. Charles Chusseau-Flaviens, Domínio público

    Tomar a sede da polícia política não estava no plano do MFA. Ao longo do dia, a multidão foi-se juntando aqui à porta a exigir a rendição. Ao princípio da noite, já com Caetano rendido, agentes da DGS dispararam das janelas sobre as pessoas na rua: morreram Fernando Carvalho Giesteira, de 18 anos, José James Harteley Barneto, de 38, João Guilherme Rego Arruda, de 20, e Fernando Luís Barreiros dos Reis, de 23. Houve dezenas de feridos, e nunca se apurou quem disparou.128

    A DGS só se rendeu na manhã seguinte. Na parede, uma placa lembra os quatro nomes; a primeira foi posta em 1980 por um grupo de cidadãos.15

Notas sobre as fontes2
  • As horas do dia variam até meia hora entre as cronologias (a ocupação do Terreiro do Paço entre as 05h50 e as 06h10; os disparos da DGS entre as 20h15 e as 21h00). Usaram-se as da Comissão Comemorativa dos 50 anos e da Associação 25 de Abril.
  • O papel de Maria de Lurdes Rocha só aparece na cronologia de Jofre Alves (CD25A).

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1«25 de Abril», de Sophia de Mello Breyner Andresen. URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses, 2020 — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Terreiro do Paço (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Rua do Arsenal (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Movimentações do dia 25 de Abril. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Largo e Quartel do Carmo (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Rádio Renascença, 25/04/1974, 00:20 (Movimentações do dia 25 de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Preparativos para a transmissão da senha, 23/04/1974 (cronologia). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Sede da Pide/DGS (Locais de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Operação Viragem Histórica. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 1225 de Abril de 1974. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 1325 de Abril. Celeste Caeiro, a mulher que pintou Lisboa e o país de cravos. A Mensagem de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  14. 14Onde eu estava há 50 anos por... Celeste Caeiro. Diário de Notícias — consultado a 2 de outubro de 2026
  15. 15Placa da ex-sede da PIDE: reposta mas em local escondido. Esquerda.net (29/12/2009) — consultado a 2 de outubro de 2026

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