A Travessa das Mónicas e o Convento das Mónicas, já estabelecimento prisional, por volta de 1900. Fotografia de José Artur Leitão Bárcia (Arquivo Municipal de Lisboa).José Artur Leitão Bárcia, Domínio público
São Vicente
Casa de Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen viveu no 1.º andar do n.º 57 de 1951 até morrer, em 2004. Uma casa de portas abertas à oposição, com um lado virado para o rio e outro para a travessa da cadeia de mulheres das Mónicas.
A 3 de novembro de 1951, Sophia de Mello Breyner Andresen, o marido, Francisco Sousa Tavares, e os três filhos que já tinham vieram viver para o 1.º andar do n.º 57 desta travessa. Nesse dia, Sophia escreveu à mãe: «Estou na Graça! Cheguei hoje.»1 Numa entrevista a José Carlos de Vasconcelos, contou que o jardim «era uma lixeira» quando chegou e que foi Gonçalo Ribeiro Telles quem o desenhou; e que a casa tinha «dois lados», um virado para a Travessa das Mónicas, «onde havia uma prisão» — a Cadeia das Mónicas —, e outro para o rio.1
«Em casa de Sophia havia sempre convidados. Ali tudo se discutia», escreve Luís Almeida d'Eça na Agenda Cultural de Lisboa.2 Em 1958, Sophia e o marido apoiaram a campanha de Humberto Delgado, e Francisco Sousa Tavares foi despedido da função pública.2 O arquiteto Nuno Teotónio Pereira, que a conheceu nas reuniões de católicos contra a ditadura, recordou que «havia reuniões em sua casa» e que ela participava ativamente.3
Foi também em casa de Sophia, contou o padre e cantor Francisco Fanhais, que ela e Rui Paz acertaram a métrica da «Cantata da Paz» — «Vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar» —, o poema que escreveu para a vigília de São Domingos, na passagem de 1968 para 1969. Num processo da Torre do Tombo, a investigadora Eloísa Aragão encontrou o pedido de Sophia para abrir uma editora nesta casa, que a polícia política fez suspender por a ter, e ao sócio, como suspeitos.3 Sophia assinou o Manifesto dos 101, contra a guerra colonial e o apoio da Igreja a Salazar, e esteve entre as fundadoras da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.43
Morreu em Lisboa a 2 de julho de 2004, e dez anos depois foi trasladada para o Panteão Nacional. Perto daqui, o antigo miradouro da Graça recebeu o seu nome em 2009, no dia em que passavam cinco anos sobre a sua morte, com um busto — réplica de um bronze esculpido nos anos 50 por António Duarte — e uma placa com o poema «Lisboa», de «Navegações». A Agenda Cultural de Lisboa propõe um itinerário por seis lugares da Graça em memória da poeta.25
Convento do século XVI feito cadeia de mulheres. Era sobretudo uma prisão de delito comum, mas recebeu presas políticas — e serviu de castigo a mulheres da oposição, como Isabel Aboim Inglez, mandada para aqui pelo Tribunal Plenário.
Hoje: Bar Botequim (reaberto em 2010 por novos proprietários)
O bar que Natália Correia abriu em 1971 no Largo da Graça, com três amigas, e para onde passou a tertúlia que reunia em casa — onde se discutia, nas palavras de um roteiro da Universidade Nova, «em liberdade literatura, política e feminismo».
Hoje: Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário
Nasceu em 1879 como jornal dos operários tabaqueiros e tornou-se a maior escola popular de Lisboa. Em 1949, a oposição fez aqui comícios pela candidatura de Norton de Matos, com Maria Lamas, Isabel Aboim Inglez e Cesina Bermudes.
Nesta casa térrea da Rua de São Gens viveu Angelina Vidal, professora, jornalista e propagandista republicana e socialista, que defendeu as operárias e a educação das mulheres. Morreu aqui, «quase na miséria», a 1 de agosto de 1917.
MulheresRepúblicaTrabalho
Notas sobre as fontes4
O ponto no mapa: o OpenStreetMap só identifica o n.º 57-D da mesma travessa; falta confirmar a porta do n.º 57.
Se há alguma placa na fachada do n.º 57.
O ano do apoio a Humberto Delgado: 1958 (Agenda Cultural de Lisboa) ou 1957 (cronologia da Biblioteca Nacional).
A data do pedido para abrir uma editora nesta casa e o processo da Torre do Tombo onde está.