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Resistênciapor Onofriana.pt
O percurso e as 6 paragens. Ruas e rio: © contribuidores do OpenStreetMap.

Percurso · Repressão · a pé

A máquina da repressão

A cadeia, o tribunal, os calabouços, a polícia, a censura e a propaganda — a ditadura cabia num quilómetro e meio

Distância
2,3 km
Duração
1 h 25 min
Paragens
6
Dificuldade
Média
Começar a caminhar

O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.

Introdução

A ditadura não se segurou só com a polícia. Precisou de cadeias onde os presos esperavam meses pelo julgamento, de tribunais com juízes escolhidos pelo ministro da Justiça, de censores que cortavam a notícia antes de ela chegar ao papel, e de uma máquina de propaganda que contasse a versão oficial.1

Em Lisboa, quase tudo isso cabia num quilómetro e meio, entre a Sé e os Restauradores. Este percurso passa porta a porta pela cadeia do Aljube, pelo tribunal da Boa-Hora, pelos calabouços do Governo Civil, pela sede da polícia política, pela censura e pelo palácio da propaganda — e conta, em cada uma, o que lá se fez às mulheres e o que elas lá fizeram.

Antes de ir

Partida
Museu do Aljube, Rua de Augusto Rosa (junto à Sé) — Elétrico 28 (paragem Sé); Metro Terreiro do Paço ou Baixa-Chiado, a dez minutos a pé
Chegada
Palácio Foz, Praça dos Restauradores — Metro Restauradores (linha azul); comboio no Rossio
Acessibilidade do caminho
Do Aljube à Baixa desce-se; da Baixa ao Chiado sobe-se pela Rua Nova do Almada, íngreme. O fim, da Rua da Misericórdia aos Restauradores, é a descida da Calçada da Glória, muito inclinada e em calçada. Passeios estreitos na Rua Capelo e na Rua António Maria Cardoso.

Mapa do percurso «A máquina da repressão», com 6 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.

As paragens

  1. Paragem 1: A cadeia dos «curros»

    Rua de Augusto Rosa, 42, 1100-059 Lisboa

    Edifício alto e branco de muitas janelas pequenas, numa rua inclinada e estreita, ao fim da tarde, sob céu azul-escuro.
    O antigo Aljube, hoje Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, na Rua de Augusto Rosa, em maio de 2017. Ardfern, CC BY-SA 4.0

    A partir de 1928, o Aljube foi cadeia política — só de homens. Era a cadeia dos presos preventivos: aqui se esperava pela instrução do processo, pelo julgamento ou pela deportação, e daqui se ia aos interrogatórios na sede da polícia.2

    A partir de 1943, no segundo andar, treze celas de isolamento com cerca de um metro de largura — os «curros» — guardavam os presos na semiobscuridade, sem papel, sem livros, sem relógio, nos primeiros meses de incomunicabilidade.3 As mulheres presas pela polícia política iam para a cadeia das Mónicas, na Graça, e mais tarde para Caxias. Desde 25 de abril de 2015, o edifício é o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade.4

    Documentário montado por Sofia Gomes para a exposição «Mulheres e Resistência – Novas Cartas Portuguesas e outras lutas», com excertos dos testemunhos que o Museu do Aljube recolhe desde 2015: dezasseis mulheres falam da resistência à ditadura e da luta pelos direitos das mulheres. Esta versão tem interpretação em Língua Gestual Portuguesa; a versão sem LGP está no mesmo canal (XmUbNbnHgKg, 2022).

    Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial do Museu do Aljube

    Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 2720 m · 10 min a péCaminho

  2. Paragem 2: O tribunal que condenava

    Largo da Boa-Hora / Rua Nova do Almada, Chiado, 1249-099 Lisboa (OpenStreetMap: «Convento da Boa Hora», Largo da Boa-Hora, 15)

    Fotografia a preto e branco de uma sala de audiências: juízes de toga atrás de uma bancada alta com papéis e um tinteiro, e homens sentados à frente.
    Julgamento no Tribunal da Boa-Hora, em 1909, dos acusados do incêndio da Rua da Madalena. Fotografia de Joshua Benoliel. Joshua Benoliel, Domínio público

    Os presos políticos eram julgados no Tribunal Plenário, presidido por um juiz desembargador nomeado pelo ministro da Justiça; em Lisboa, reunia aqui.15 A militante comunista Maria Alda Nogueira ouviu aqui, em 1960, uma condenação a oito anos de prisão maior.6 Isabel Aboim Inglez foi presa na própria sala, quando depunha como testemunha de defesa.7

    No mesmo edifício, num tribunal comum, as três autoras das «Novas Cartas Portuguesas» foram julgadas à porta fechada por ofensa à moral pública. A sentença, marcada para 18 de abril de 1974, só foi lida a 7 de maio — já em liberdade, e para as absolver.8

    Testemunho de Diana Andringa recolhido pelo Museu do Aljube a 19 de abril de 2017. Segundo as palavras-chave do museu, fala do movimento estudantil, do apoio aos presos políticos, da ligação ao MPLA e à luta de libertação, da prisão e dos interrogatórios em Caxias e do julgamento no Tribunal Plenário.

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    Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 3280 m · 5 min a péCaminho

  3. Paragem 3: Os calabouços da Rua Capelo

    Rua Capelo, Chiado, 1200-087 Lisboa (número de polícia por confirmar)

    Fotografia a preto e branco de uma rua empedrada com a fachada comprida de um edifício público de muitas janelas; na rua, algumas pessoas e um cão.
    O Governo Civil de Lisboa, na Rua Capelo, entre 1905 e cerca de 1915. Fotografia de Charles Chusseau-Flaviens. Charles Chusseau-Flaviens, Domínio público

    Antes de a sede da polícia política funcionar em pleno, em 1938, eram as esquadras da PSP que guardavam os presos incomunicáveis — «a verdadeira logística da repressão», nas palavras do projeto Memória Comum. A 1.ª Esquadra ficava aqui, no edifício do Governo Civil de Lisboa. Os seus calabouços recebiam os presos nas vésperas dos julgamentos do Tribunal Militar Especial, que muitas vezes se faziam no próprio edifício.9

    Helena Cabeçadas conta ao Museu do Aljube o movimento associativo dos liceus, a crise académica de 1962, que viveu aos 14 anos, e a prisão de 1965, quando foi levada ao Governo Civil e a Caxias. Expulsa de todas as escolas do país, partiu sozinha para o exílio na Bélgica aos 17 anos.

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    Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 4390 m · 5 min a péCaminho

  4. Paragem 4: A sede da polícia política

    Rua António Maria Cardoso, 22, Lisboa (código postal do troço: 1249-101, segundo o OpenStreetMap)

    Fotografia a preto e branco de uma rua empedrada e quase vazia, entre prédios de varandas de ferro e a fachada alta de um teatro; ao fundo, à direita, uma árvore despida.
    A Rua António Maria Cardoso, com o então Teatro da República (hoje São Luiz), entre cerca de 1911 e 1915. Fotografia de Charles Chusseau-Flaviens. Charles Chusseau-Flaviens, Domínio público

    No n.º 22 desta rua ficava a sede da PVDE, depois PIDE e por fim DGS: os arquivos, os informadores, os interrogatórios.10 Os interrogatórios faziam-se no terceiro piso — espancamentos, a tortura do sono e a da «estátua», com brigadas de agentes que se revezavam; contra as mulheres juntavam-se o desnudamento e as ofensas de carácter sexual.11

    A operária Conceição Matos foi trazida para aqui em abril de 1965, espancada durante dias e despida na sala de interrogatório. «Quem vê aquele processo sabe que eu nunca falei à polícia», disse anos depois.12

    Conceição Matos e Domingos Abrantes contam juntos, num testemunho recolhido pelo museu a 7 de outubro de 2015, a clandestinidade, as prisões e a tortura. As palavras-chave do museu incluem a prisão do Aljube, Caxias, os interrogatórios da PIDE e a fuga de Caxias.

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    Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 5360 m · 5 min a péCaminho

  5. Paragem 5: O lápis azul

    Rua da Misericórdia, 125, 1.º, Lisboa (entrega de provas pelas traseiras: Rua das Gáveas, 90, 3.º)

    Rua a descer entre prédios altos de fachadas claras e de azulejo, com varandas de ferro e carros estacionados, sob céu azul.
    A Rua da Misericórdia, entre o Chiado e o Bairro Alto, em novembro de 2025. Vitor Oliveira, CC BY-SA 4.0

    A partir de 22 de setembro de 1969, a censura à imprensa trabalhou no primeiro andar do n.º 125 da Rua da Misericórdia — a sétima morada de um serviço que nascera em 1926 no Quartel do Carmo e nunca se afastou muito das redações. Os jornais mandavam as provas das páginas e recebiam-nas de volta carimbadas, cortadas a lápis azul.13

    Muitos textos de mulheres morreram neste crivo: a Diana Andringa cortaram um artigo sobre a guerra em Angola, e as «Novas Cartas Portuguesas» foram retiradas de circulação pouco depois de saírem.14 Quase em frente, no n.º 116, ficava o República. Na manhã de 25 de abril de 1974, o diretor, Raul Rego, recusou mandar as provas ao Exame Prévio, e o jornal saiu com um rodapé na primeira página: «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».15

    Até à paragem 6570 m · 10 min a péCaminho

  6. Paragem 6: O palácio da propaganda

    Praça dos Restauradores, 25, Lisboa (fachada posterior na Calçada da Glória)

    Palácio comprido de fachada rosada, com três andares de janelas, telhado de mansarda escuro e um frontão ao centro, diante de uma praça larga.
    O Palácio Foz, na Praça dos Restauradores, em 2011. Gerd Eichmann, CC BY-SA 4.0

    Em 1933, o regime criou o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido pelo jornalista António Ferro; em 1940, o Estado comprou este palácio para lhe servir de sede.16 A censura também passou por aqui: entre 1947/48 e 1961 trabalhou no edifício, com entrada pela Calçada da Glória.13

    E foi aqui ao lado, junto ao Elevador da Glória, que agentes da PIDE mataram o trabalhador David Almeida Reis, durante a manifestação do 1.º de Maio de 1964.17

Notas sobre as fontes2
  • O número exato da casa do Governo Civil na Rua Capelo e o uso atual do edifício; a paragem fica no troço da rua.
  • A data em que o Tribunal Plenário de Lisboa passou a reunir na Boa-Hora.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1Os «crimes políticos» no Estado Novo (Prisões da Ditadura). Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Cadeia do Aljube. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Cárceres do império. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Exposição de longa duração. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Manifesto quer devolver Tribunal da Boa Hora à cidade de Lisboa, agora como Museu Judicial (Ana da Cunha e Inês Leote, 4/3/2022). Mensagem de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Maria Alda Barbosa Nogueira. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Isabel Aboim Inglez. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8«As Três Marias foram absolvidas» / «Absolvição para as Novas Cartas Portuguesas» (Diário de Lisboa, 8 de maio de 1974). Hemeroteca Municipal de Lisboa – Livros que foram notícia — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 930 Esquadras de Lisboa. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10A sede e as delegações da PIDE. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11Métodos de tortura. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 12Maria da Conceição Rodrigues de Matos. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 13Os censores da imprensa (Joaquim Cardoso Gomes), JJ – Jornalismo & Jornalistas n.º 57, jan./jun. 2014. Clube de Jornalistas (PDF no Centro de Documentação 25 de Abril, Univ. Coimbra) — consultado a 2 de outubro de 2026
  14. 14Diana Andringa (testemunho e biografia). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  15. 15O jornal República e a Rua da Misericórdia. Toponímia de Lisboa, 2019 — consultado a 2 de outubro de 2026
  16. 16Palácio Foz. Wikipédia (ponto de partida) — consultado a 2 de outubro de 2026
  17. 17Os que ficaram pelo caminho (lista, páginas 1 a 7). Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026

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