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O percurso e as 8 paragens. Ruas e rio: © contribuidores do OpenStreetMap.

Percurso · Cultura e censura · a pé

Palavras proibidas

Cafés, igrejas, palcos e redações onde se disse o que a censura não deixava — do «Obviamente, demito-o!» à «Grândola» no Coliseu

Distância
3,5 km
Duração
1 h 55 min
Paragens
8
Dificuldade
Média
Começar a caminhar

O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.

Introdução

Durante quase meio século, nada se publicava em Portugal sem passar pela censura: os jornais mandavam as provas e recebiam-nas cortadas a lápis azul.1 As palavras que importavam disseram-se noutros sítios — à mesa de um café, numa igreja ao fim do ano, no palco de um espetáculo vigiado pela polícia, numa redação que um dia se recusou a mandar as provas.

Este percurso vai do Rossio ao Chiado por esses sítios, e pelas mulheres que neles escreveram, cantaram e falaram: Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernanda Botelho, Maria Lamas, Virgínia Quaresma.

Antes de ir

Partida
Rossio (Praça de D. Pedro IV) — Metro Rossio (linha verde); comboio no Rossio
Chegada
Largo de Camões, no Chiado — Metro Baixa-Chiado (linhas azul e verde); elétrico 28
Acessibilidade do caminho
O Rossio e as Portas de Santo Antão são planos. Do Coliseu à Rua da Escola Politécnica sobe-se muito, pela Calçada da Glória ou pelas ruas do Bairro Alto, em calçada. Do Príncipe Real ao Largo de Camões o caminho desce, com passeios estreitos no Bairro Alto.

Mapa do percurso «Palavras proibidas», com 8 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.

As paragens

  1. Paragem 1: «Obviamente, demito-o!»

    Praça D. Pedro IV (Rossio), Lisboa — número de polícia por confirmar

    Praça retangular vista do alto, com a coluna de D. Pedro IV ao centro, duas fontes, o chão de calçada ondulada e o Teatro Nacional ao fundo, entre prédios de quatro andares.
    O Rossio (Praça de D. Pedro IV) visto do Elevador de Santa Justa, em 2007. Szilas, Domínio público

    A 10 de maio de 1958, no primeiro andar do Café Chave d'Ouro, no Rossio, a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República foi apresentada à imprensa, também à estrangeira. Perguntaram-lhe o que faria a Salazar se fosse eleito. «Obviamente, demito-o!» — a resposta incendiou o país e marcou a campanha.23

    O café, fundado em 1919 e ponto de encontro da oposição, deu lugar em 1961 a uma agência bancária.4

    Até à paragem 2130 m · 5 min a péCaminho

  2. Paragem 2: O café dos dissidentes

    Praça D. Pedro IV, 64 (Rossio), com entrada também pela Rua 1.º de Dezembro, 1100-201 Lisboa

    Fonte de bronze com esculturas em primeiro plano, a coluna alta com a estátua no topo atrás dela e a calçada de ondas pretas e brancas, sob céu azul.
    A fonte sul do Rossio, a coluna de D. Pedro IV e o Teatro Nacional D. Maria II, em 2018. Berthold Werner, CC BY-SA 4.0

    Entre 1957 e 1962, um grupo de escritores e artistas que chegou a ter quase trinta pessoas reunia-se no Café Gelo: Natália Correia, Herberto Helder, Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, Manuel de Lima, Pedro Oom, entre outros. O que tinham em comum, explicou mais tarde Hélder Macedo, era «uma atitude de dissidência, de não pactuar» — na política, nos costumes, no sexo.5

    As reuniões acabaram em 1962. Segundo a Wikipédia, no 1.º de Maio desse ano, durante a manifestação reprimida na Baixa, a polícia de choque entrou no café e agrediu quem lá estava, e o grupo foi proibido de voltar.5

    Até à paragem 3210 m · 5 min a péCaminho

  3. Paragem 3: «Vemos, ouvimos e lemos»

    Largo de São Domingos, 1169-060 Lisboa

    Fachada branca de igreja barroca, com frontão recortado, um relógio redondo e uma cruz no alto, ao fim da tarde, com gente a passar no largo.
    A Igreja de São Domingos e o largo em frente, em julho de 2017. Palickap, CC BY-SA 4.0

    Na noite de 31 de dezembro de 1968, depois da missa do cardeal Cerejeira, mais de cem católicos ficaram nesta igreja em vigília contra a guerra colonial, até às seis da manhã do Dia Mundial da Paz. Para essa noite, Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu a «Cantata da Paz», que Francisco Fanhais cantou: «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar».6

    Até à paragem 4400 m · 5 min a péCaminho

  4. Paragem 4: A sala que cantou a «Grândola»

    Rua das Portas de Santo Antão, 92-104, 1150-268 Lisboa

    Sala de espetáculos vazia, com filas de cadeiras vermelhas na plateia, camarotes e galerias em volta e o palco ao fundo, sob uma cúpula.
    A plateia do Coliseu dos Recreios, em 2010. Diogomedina, CC0 1.0

    A 29 de março de 1974, o I Encontro da Canção Portuguesa encheu o Coliseu, com a PIDE/DGS e os censores na sala a tomar notas. A censura tinha proibido dezenas de canções.7 José Afonso cantou «Grândola, Vila Morena», a sala cantou com ele, e no fim milhares de pessoas gritaram «abaixo a repressão!».8

    Menos de um mês depois, a mesma canção passava na rádio como senha da revolução.

    O coro da Casa da Achada e quem passava cantam a «Grândola, Vila Morena» na rua, em Lisboa, no dia 25 de abril de 2023. Quase meio século depois de ter servido de senha à revolução, a canção de José Afonso continua a ser cantada em coro em cada 25 de Abril.

    Página original CC BY-SA 4.0 — Contaminadas (obra própria, Wikimedia Commons)

    Wikimedia Commons, no Wikimedia Commons. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 51,2 km · 20 min a péCaminho

  5. Paragem 5: O prémio que fechou a casa dos escritores

    Rua da Escola Politécnica, 20, 1.º Esq., 1250 Lisboa

    Rua larga e direita entre prédios antigos de três e quatro andares, com carris de elétrico, carros estacionados e árvores sem folhas.
    A Rua da Escola Politécnica, onde ficava a sede da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 2017. Dguendel, CC BY 4.0

    Em maio de 1965, um júri da Sociedade Portuguesa de Escritores — Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho, João Gaspar Simões e Manuel da Fonseca — deu o Grande Prémio de Novelística a «Luuanda», de José Luandino Vieira, que estava preso no Tarrafal por ligação ao MPLA.9

    A 21 de maio, o ministro da Educação Nacional extinguiu a Sociedade. Nessa noite, a sede, no primeiro andar do n.º 20 desta rua, foi assaltada e saqueada por «desconhecidos» apoiados pela PIDE, que deixaram à porta um letreiro: «Agência dos terroristas na Metrópole». Três jurados foram presos; Fernanda Botelho, a única mulher do júri, foi interrogada.910

    Até à paragem 6650 m · 10 min a péCaminho

  6. Paragem 6: «De mulher para mulher»

    Rua de O Século, 63, 1200-433 Lisboa

    Rua comprida e ligeiramente inclinada entre prédios de três e quatro andares pintados de amarelo, verde e branco, com carros estacionados de um dos lados, sob céu nublado.
    A Rua de O Século, onde funcionou a redação do jornal, em dezembro de 2019. Sergei Gussev, CC BY 2.0

    Neste palácio funcionou o jornal O Século. Em 1908 entrou para a redação Virgínia Quaresma, uma das primeiras repórteres portuguesas.11 Vinte anos depois, Maria Lamas passou a dirigir o suplemento «Modas e Bordados», que escrevia «de mulher para mulher»; em 1930 organizou aqui a exposição «Mulheres Portuguesas», sob o lema «Sejamos inteligentemente mulheres».1213

    Em 1947, o regime obrigou-a a escolher entre a revista e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a que presidia. Escolheu o Conselho.14

    Até à paragem 7600 m · 10 min a péCaminho

  7. Paragem 7: O jornal que não mandou as provas

    Rua da Misericórdia, 116, 1200-271 Lisboa

    Fotografia a preto e branco de uma redação cheia de secretárias com papéis, máquinas de escrever e candeeiros, com jornalistas a trabalhar e cartazes nas paredes.
    A redação do jornal «República», segundo a legenda do arquivo Anefo, a 11 de fevereiro de 1975 — três meses antes do «caso República». Fotografia de Rob Mieremet. Rob Mieremet / Anefo, CC0 1.0

    No n.º 116 da Rua da Misericórdia ficava o República, o diário da oposição democrática — quase em frente da censura, que desde 1969 trabalhava no n.º 125.15 Dois dos seus jornalistas, Álvaro Guerra e Carlos Albino, ligaram o MFA ao programa de rádio que transmitiria a senha da revolução.1715

    A 25 de abril de 1974, o diretor, Raul Rego, recusou-se a mandar as provas ao Exame Prévio. O jornal saiu com um rodapé na primeira página: «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».15

    Até à paragem 8270 m · 5 min a péCaminho

  8. Paragem 8: A primeira repórter

    Rua do Norte, 3 (esquina com a Praça de Luís de Camões), Lisboa

    Rua estreita entre prédios claros de quatro andares, vista de uma esquina, com uma agência bancária no rés-do-chão à direita.
    A Rua do Norte, junto à Praça de Luís de Camões, em março de 2020. Daniel, CC BY 2.0

    Em 1910, Virgínia Quaresma passou para «A Capital», o diário republicano da noite que tinha a redação no n.º 3 da Rua do Norte, nesta esquina; foi morar mesmo em frente.11 Foi «A Capital» que, a 29 de abril de 1911, reproduziu a sentença que mandava recensear Carolina Beatriz Ângelo e lhe chamou «uma vitória para o feminismo nacional».18

    Em agosto desse ano, Virgínia disse ao jornal que adorava a profissão e que queria ver outras mulheres a ganhar a vida no jornalismo.11

Notas sobre as fontes2
  • O ponto exato do antigo Café Chave d'Ouro no Rossio: a paragem fica na praça.
  • O episódio da polícia no Café Gelo, a 1 de maio de 1962, só foi lido na Wikipédia, que cita Luiz Pacheco.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes

  1. 1Os censores da imprensa (Joaquim Cardoso Gomes), JJ – Jornalismo & Jornalistas n.º 57, jan./jun. 2014. Clube de Jornalistas (PDF no Centro de Documentação 25 de Abril, Univ. Coimbra) — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Delgado: Um vendaval varreu o País (João Paulo Guerra). esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Candidatura de Humberto Delgado – uma jornada de resistência. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4Café Chave d'Ouro. Restos de Colecção (blogue) — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Café Gelo. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6A Vigília de São Domingos. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Grândola, Vila Morena. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Canção Intervenção, 28/03/1974 (cronologia). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Breve memorial da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE). Associação Portuguesa de Escritores — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10Como a PIDE destruiu a Sociedade Portuguesa de Escritores. RTP Ensina — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11A primeira jornalista de reportagem portuguesa numa rua de Caselas. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 12Maria Lamas. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 13Maria Lamas, a ativista pelos direitos das mulheres (Virgínia Baptista, IHC – NOVA FCSH). RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  14. 14Mulheres pela Igualdade (biografias). CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género — consultado a 2 de outubro de 2026
  15. 15O jornal República e a Rua da Misericórdia. Toponímia de Lisboa, 2019 — consultado a 2 de outubro de 2026
  16. 16Sede do Jornal República (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  17. 17Preparativos para a transmissão da senha, 23/04/1974 (cronologia). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  18. 18Carolina Beatriz Ângelo. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026

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