Percurso · Revolução · de metro e comboio
Os dias da liberdade
Do posto de comando do MFA à Assembleia Constituinte — a semana que mudou tudo, e as 27 mulheres que escreveram a Constituição
- Como se faz
- De metro e comboio
- Paragens
- 7
- Dificuldade
- Fácil
O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.
Introdução
O 25 de Abril não acabou no Carmo. Nos dias seguintes, os presos políticos saíram de Caxias, os exilados voltaram de comboio e de avião, e a 1 de maio de 1974 Lisboa encheu as ruas no primeiro Dia do Trabalhador em liberdade.1 Um ano depois, a 25 de abril de 1975, votou-se pela primeira vez em eleições livres e com sufrágio universal — e foram eleitas vinte mulheres para a Assembleia Constituinte.2
Este percurso segue esses dias, do quartel onde o MFA comandou a revolução ao palácio onde se escreveu a Constituição. Faz-se de metro e de comboio, e pode fazer-se por partes.
Antes de ir
- Partida
- Quartel da Pontinha (Posto de Comando do MFA) — Metro Pontinha (linha azul)
- Chegada
- Palácio de São Bento (Assembleia da República) — Elétrico 28 (paragem Calçada da Estrela); Metro Rato (linha amarela), a dez minutos a pé
- Acessibilidade do caminho
- Um percurso de dia inteiro, de metro e comboio, que se pode fazer por partes. Caxias fica em Oeiras, a uma estação de comboio do Cais do Sodré (linha de Cascais); o resto é em Lisboa, perto de estações de metro. Quem usa cadeira de rodas deve confirmar no sítio do Metropolitano de Lisboa e da CP que estações têm elevador.
Mapa do percurso «Os dias da liberdade», com 7 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.
As paragens
Paragem 1: 25 de abril — o posto de comando
Quartel da Pontinha, Av. do Regimento de Engenharia n.º 1, 1675-103 Pontinha
Num anexo deste quartel do Regimento de Engenharia n.º 1, preparado em segredo, Otelo Saraiva de Carvalho e um punhado de oficiais dirigiram as operações do 25 de Abril: janelas tapadas com cobertores, mesas com rádios e telefones, cartas militares de Lisboa nas paredes, e as escutas às redes da GNR, da Legião, da DGS e da PSP a chegar por um cabo montado às escondidas.3
Ao princípio da noite chegou a chaimite «Bula», com Marcelo Caetano e dois ministros, que ficaram aqui detidos até de manhã.56 Desde 2001, o posto de comando é núcleo museológico; reabriu em 2025, depois de obras.4
- 22 abr. 1974Montagem do Posto de Comando da Pontinha e da rede de escutas
- 24 abr. 1974Otelo instala o posto de comando do MFA na Pontinha
- 25 abr. 1974Spínola no Carmo; Caetano sai na chaimite «Bula»
Segundo capítulo do filme feito com as fotografias que Alfredo Cunha tirou em Lisboa no dia 25 de Abril de 1974, com música de Rodrigo Leão e realização de Miguel Brugo, publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024. Segue o livro do mesmo nome, em que esta parte tem texto de Adelino Gomes e imagens da Ribeira das Naus, da Rua do Arsenal e do Largo do Carmo.
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Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 2de metro, comboio ou autocarroCaminho
Paragem 2: 26 de abril — «Ou todos ou ninguém»
Estrada Militar, Caxias, 2784-513 Oeiras (concelho de Oeiras)

O Forte de Caxias, hoje Estabelecimento Prisional de Caxias, visto da encosta em 2022. GualdimG, CC BY-SA 4.0 Em Caxias, a polícia política resistiu, e a libertação atrasou-se: a Junta de Salvação Nacional queria separar os presos por motivos ideológicos dos acusados de crimes comuns. «Ou todos ou ninguém», responderam os presos. Perto da meia-noite chegou a ordem de libertação total; a saída começou às 00h30 de 27 de abril, e à uma da manhã já não havia presos políticos em Caxias.7
Entre as mulheres libertadas estavam as jornalistas Helena Neves e Elvira Nereu. A partir de 1938, era no Reduto Norte deste forte que as presas políticas passavam a detenção preventiva e cumpriam a pena.816
Conceição Matos e Domingos Abrantes contam juntos, num testemunho recolhido pelo museu a 7 de outubro de 2015, a clandestinidade, as prisões e a tortura. As palavras-chave do museu incluem a prisão do Aljube, Caxias, os interrogatórios da PIDE e a fuga de Caxias.
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 3de metro, comboio ou autocarroCaminho
Paragem 3: 28 de abril — o comboio do exílio
Avenida Infante D. Henrique / Rua dos Caminhos de Ferro, 1100-094 Lisboa

A fachada da Estação de Santa Apolónia, em junho de 2020. Vitor Oliveira, CC BY-SA 2.0 No dia 25, Mário Soares estava em Bona. Três dias depois chegou aqui de comboio, com Maria Barroso, também fundadora do Partido Socialista. Esperava-os uma multidão; Soares falou de altifalante na mão, de uma varanda da estação.9 As fotografias da Casa Comum mostram na varanda, com eles, Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais.10
A estação já tinha visto outra multidão: a que esperou Humberto Delgado em maio de 1958 e que a GNR dispersou à bastonada pela Baixa.11
- 28 abr. 1974Mário Soares chega do exílio a Santa Apolónia
- 16 maio 1958Chegada de Humberto Delgado a Santa Apolónia
Fernanda Gonçalves conta como soube da revolução em Aveiro, chegou no dia seguinte a Santa Apolónia num comboio cheio de amigos e seguiu para Caxias, onde milhares de pessoas esperavam a saída dos presos políticos. Lembra o corredor que a multidão mantinha aberto para as negociações com a PIDE, lá dentro.
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Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 4de metro, comboio ou autocarroCaminho
Paragem 4: 30 de abril — Cunhal regressa
Alameda das Comunidades Portuguesas, 1700-111 Lisboa

O Terminal 1 do Aeroporto Humberto Delgado, na Portela, em 2021. Sharon Hahn Darlin, CC BY 2.0 Na madrugada de 25 de abril, militares da Escola Prática de Infantaria ocuparam o aeroporto e fecharam o espaço aéreo. Na manhã de 26, Marcelo Caetano e Américo Tomás partiram daqui, num avião da Força Aérea, para o Funchal.12
A 30 de abril chegou Álvaro Cunhal, ao fim de catorze anos de exílio, recebido por uma multidão; subiu a uma chaimite para lhe falar. Nesse dia, um comunicado da Junta de Salvação Nacional autorizou o regresso de todos os exilados políticos.9
Até à paragem 5de metro, comboio ou autocarroCaminho
Paragem 5: 1 de maio de 1974 — a cidade na rua
Alameda D. Afonso Henriques, 1900-006 Lisboa

A Fonte Monumental, ou Fonte Luminosa, no topo da Alameda D. Afonso Henriques, em setembro de 2014. Felix König, CC BY 3.0 A 27 de abril, um decreto fez do 1.º de Maio feriado nacional — a primeira conquista legal da revolução, nas palavras do Museu do Aljube.1 Em Lisboa, o desfile juntou-se aqui, na Alameda, e seguiu até ao estádio da antiga FNAT. A Comissão Comemorativa estima em cerca de um milhão as pessoas que saíram à rua em todo o país; o Centro de Documentação 25 de Abril, em cerca de quinhentas mil as que desfilaram em Lisboa.313
Terceiro capítulo do filme de Alfredo Cunha (música de Rodrigo Leão, realização de Miguel Brugo), publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024, com fotografias dos meses que se seguiram à revolução. No livro, esta parte tem texto de Fernando Rosas e inclui o comício do primeiro 1.º de Maio em liberdade, no estádio da FNAT.
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Até à paragem 6de metro, comboio ou autocarroCaminho
Paragem 6: O estádio rebatizado
Rua Silva e Albuquerque / Avenida do Rio de Janeiro, 1700-360 Lisboa

O Estádio 1.º de Maio, do INATEL — o antigo Estádio da FNAT —, em 2007. Paulo Juntas, CC BY-SA 2.5 O estádio pertencia à FNAT, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, organismo do regime; nesse dia passou a chamar-se Estádio 1.º de Maio. Mário Soares e Álvaro Cunhal chegaram rodeados de milhares de pessoas e abraçaram-se no comício, sob o lema «Paz, Pão e Liberdade». A Comissão Comemorativa chama-lhe o primeiro e o último 1.º de Maio em unidade.3
Terceiro capítulo do filme de Alfredo Cunha (música de Rodrigo Leão, realização de Miguel Brugo), publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024, com fotografias dos meses que se seguiram à revolução. No livro, esta parte tem texto de Fernando Rosas e inclui o comício do primeiro 1.º de Maio em liberdade, no estádio da FNAT.
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Até à paragem 7de metro, comboio ou autocarroCaminho
Paragem 7: As 27 constituintes
Palácio de São Bento, Largo das Cortes, Lisboa

O Palácio de São Bento, sede da Assembleia da República, em junho de 2014. Albarubescens, CC BY-SA 4.0 A 25 de abril de 1975, nas primeiras eleições livres, foram eleitas vinte mulheres entre 250 deputados à Assembleia Constituinte; com renúncias e substituições, vinte e sete chegaram a ter assento, entre elas Maria Alda Nogueira, Helena Roseta e Sophia de Mello Breyner Andresen. Só seis integraram comissões, e só uma presidiu a uma: Sophia, à da redação do preâmbulo. No plenário, os homens eram tratados por «Sr. Deputado»; as mulheres, muitas vezes, por «minha senhora».2
A Constituição aprovada aqui a 2 de abril de 1976 proíbe, no artigo 13.º, privilegiar ou prejudicar alguém em razão do sexo, e dá aos cônjuges, no artigo 36.º, direitos e deveres iguais.14 O Código Civil teve de ser revisto para deixar de fazer do marido o «chefe de família».15
- 25 abr. 1975Eleição da Assembleia Constituinte: 20 deputadas
- 2 jun. 1975Sessão inaugural da Assembleia Constituinte
- 12 nov. 1975Trabalhadores da construção civil cercam a Assembleia Constituinte
- 2 abr. 1976Assembleia Constituinte aprova a Constituição da República
Peça curta da série «Cápsula do Tempo», do Parlamento, dedicada às mulheres na Assembleia Constituinte de 1975–1976.
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Notas sobre as fontes2
- A data da chegada de Mário Soares: domingo, 28 de abril, na maioria das fotografias da Casa Comum; outra fotografia e um blogue indicam 27 de abril.
- Os números do 1.º de Maio de 1974 (cerca de um milhão no país, cerca de quinhentas mil pessoas em Lisboa) são estimativas sem fonte primária indicada.
Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.
Fontes
- 11º de Maio – Dia do Trabalhador. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 2As mulheres na Constituinte de 1975-1976. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 3Operação Viragem Histórica. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 4Núcleo Museológico do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas (PCMFA). Câmara Municipal de Odivelas — consultado a 2 de outubro de 2026
- 5Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
- 6Movimentações do dia 25 de Abril. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 7Álvaro Arranja, «A libertação dos presos políticos na revolução de Abril». Esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
- 8Cárceres do império. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
- 9O regresso dos exilados. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 10Chegada de Mário Soares do exílio, em Santa Apolónia (fotografia, cota 10182.129). Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso — consultado a 2 de outubro de 2026
- 11Delgado: Um vendaval varreu o País (João Paulo Guerra). esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
- 12Aeroporto de Lisboa (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 13O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
- 14Constituição da República Portuguesa – texto originário, aprovado em 2 de abril de 1976. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 15A revisão do Código Civil e os Direitos das Mulheres (1977). Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 16Forte de Caxias (Prisões da Ditadura). Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
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