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O percurso e as 9 paragens. Ruas e rio: © contribuidores do OpenStreetMap.

Percurso · Estudantes · de metro e comboio

Estudantes contra a ditadura

Da crise académica de 1962 à morte de Ribeiro Santos em 1972 — e a casa de onde saíram os líderes das independências africanas

Como se faz
De metro e comboio
Paragens
9
Dificuldade
Fácil
Começar a caminhar

O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.

Introdução

A 24 de março de 1962, o Governo proibiu o Dia do Estudante, e a polícia de choque carregou sobre os estudantes da Cidade Universitária. Começava a crise académica que marcou uma geração — e em que, pela primeira vez, as estudantes tomaram a palavra nos plenários e fizeram greve de fome.1 Dez anos depois, um agente da DGS matou a tiro um estudante de Direito num anfiteatro do Quelhas.2

Este percurso liga, de metro, os lugares dessas lutas: as faculdades e a cantina de 1962, a Casa dos Estudantes do Império e a casa da Rua Actor Vale onde jovens das colónias africanas estudaram a sua própria África, o Técnico e o Quelhas.

Antes de ir

Partida
Cidade Universitária, junto à Reitoria — Metro Cidade Universitária (linha amarela)
Chegada
Calçada Ribeiro Santos, junto ao Largo de Santos — Comboio em Santos (linha de Cascais); elétrico 25 e autocarros na Avenida 24 de Julho
Acessibilidade do caminho
São três bairros ligados pelo metro: a Cidade Universitária, Arroios e o Quelhas. Dentro de cada um anda-se pouco e em passeios largos; a descida do Quelhas para Santos é inclinada e em calçada. Quem usa cadeira de rodas deve confirmar no sítio do Metropolitano de Lisboa que estações têm elevador.

Mapa do percurso «Estudantes contra a ditadura», com 9 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.

As paragens

  1. Paragem 1: 24 de março de 1962

    Alameda da Universidade, 1600 / 1649 Lisboa

    Escultura de grandes arcos e um aro vermelhos num relvado junto a uma rua, com edifícios baixos e compridos da universidade ao fundo, sob céu nublado.
    A Alameda da Universidade, na Cidade Universitária, com a escultura de arcos vermelhos à entrada, em 2015. Metro Centric, CC BY 2.0

    Proibidas as comemorações do Dia do Estudante, os estudantes concentraram-se aqui na manhã de 24 de março de 1962. A polícia de choque carregou várias vezes sobre eles, no Estádio Universitário e no Campo Grande, prendeu e espancou.3 Dois dias depois, as associações de Lisboa e de Coimbra declararam o «luto académico» — a greve às aulas, que a ditadura proibia.

    Os plenários ao ar livre foram uma novidade. Num deles, segundo um relatório da PIDE, falou Isabel do Carmo, estudante de Medicina — a primeira mulher a tomar a palavra num plenário da crise —, que propôs oferecer flores à polícia, «as armas mais bonitas criadas em Portugal».1 O 24 de março é, desde 1987, o Dia Nacional do Estudante.3

    Publicado no Dia Internacional da Mulher de 2024, recorda a crise académica de 1962 e o movimento estudantil contra a ditadura pela voz de três mulheres que nele participaram: Manuela Tavares, Maria Emília Brederode Santos e Isabel do Carmo.

    Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril

    Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

    Até à paragem 2de metro, comboio ou autocarroCaminho

  2. Paragem 2: O reitor que se demitiu

    Alameda da Universidade, 1649-004 Lisboa

    Edifício monumental de pedra clara com uma fila de pilares altos à frente, diante de um grande largo vazio de lajes, sob céu cinzento.
    A Reitoria da Universidade de Lisboa, na Alameda da Universidade, em 2018. Eugenio Hansen, OFS, CC BY-SA 4.0

    O reitor era Marcelo Caetano. Recebido com aplausos pelos estudantes, defendeu da varanda da Reitoria a autonomia da universidade; quando o Governo voltou a proibir o Dia do Estudante, a 5 de abril, demitiu-se.4 O terreiro em frente foi, durante os três meses de luto, o lugar de inúmeros plenários.5

    Seis anos depois, Marcelo Caetano sucedeu a Salazar na chefia do Governo.6

    Até à paragem 3de metro, comboio ou autocarroCaminho

  3. Paragem 3: A greve de fome

    Avenida Professor Gama Pinto, 1649-004 Lisboa

    Edifício modernista de dois volumes, um forrado de tijolo cor de ferrugem e outro com uma fachada branca de blocos vazados, no alto de uma escadaria, sob céu azul.
    A Cantina Velha da Universidade de Lisboa, aberta em 1961, em 2015. Metro Centric, CC BY 2.0

    A 9 de maio de 1962, oitenta e um estudantes começaram aqui uma greve de fome, por proposta do estudante de Medicina Eurico de Figueiredo; cerca de 1500 juntaram-se-lhes dentro da cantina, em solidariedade. Na madrugada de 11, a polícia cercou e entrou, e os estudantes foram presos um a um.7

    Presas, um grupo de estudantes continuou o protesto e recusou até as sandes que a polícia lhes oferecia. A PIDE identificou entre as grevistas Laura Larcher Graça, Isabel Vila Maior, Maria da Conceição Santinho, Maria Emília Teles Tavares, Maria Fernanda Guerra e Maria José Barreiro Marques. Os grevistas da fome foram expulsos da universidade.7

    Até à paragem 4de metro, comboio ou autocarroCaminho

  4. Paragem 4: A Casa dos Estudantes do Império

    Avenida Duque de Ávila, 23 (esquina com a Rua D. Estefânia), 1000-138 Lisboa

    Cruzamento de ruas largas com prédios de vários andares, árvores e carros parados; à direita, uma fachada coberta de azulejos.
    O cruzamento da Avenida Duque de Ávila com a Rua de Dona Estefânia, onde ficava a Casa dos Estudantes do Império, em 2005. Garsd, CC BY-SA 3.0

    Criada em 1944 pelo próprio regime, para cultivar a «unidade imperial» entre os estudantes vindos das colónias, a Casa dos Estudantes do Império fez o contrário: passaram por aqui Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Joaquim Chissano e Alda do Espírito Santo. As suas edições e o boletim «Mensagem» estão na origem das literaturas africanas de língua portuguesa.8

    Na crise de 1962, os copiógrafos da Casa serviram as associações de estudantes. Em 1965 foi dissolvida, e a PIDE confiscou-lhe o arquivo e a biblioteca.9

    Até à paragem 5de metro, comboio ou autocarroCaminho

  5. Paragem 5: O comício de Delgado

    Praça José Fontana, 1050-129 Lisboa

    Fachada comprida e simétrica de um edifício escolar clássico, com telhados vermelhos e um corpo central mais alto, vista do outro lado de uma praça com árvores.
    O Liceu Camões, de Ventura Terra, na Praça José Fontana, em 2013. Manuelvbotelho, CC BY-SA 3.0

    A 18 de maio de 1958, em plena campanha presidencial, Humberto Delgado discursou no ginásio deste liceu; o texto do discurso está no espólio de Manuel Mendes, na Casa Comum.10 Segundo o jornalista João Paulo Guerra, as cenas de violência policial da chegada do general a Santa Apolónia repetiram-se depois deste comício.11

    Até à paragem 6de metro, comboio ou autocarroCaminho

  6. Paragem 6: O Técnico

    Avenida Rovisco Pais, 1, 1049-001 Lisboa

    Vista do alto de um grande relvado comprido entre fileiras de árvores e candeeiros, que sobe por uma escadaria até um edifício branco e comprido, entre duas torres escuras de vidro.
    A Alameda D. Afonso Henriques vista do alto, com o Instituto Superior Técnico ao fundo, em agosto de 2025. Alexkom000, CC BY 4.0

    A 8 de dezembro de 1968, a PIDE invadiu a Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, apreendeu documentos e identificou estudantes; a associação e o Instituto foram fechados até ao fim das férias.12

    Na noite de 12 de outubro de 1972, horas depois da morte de Ribeiro Santos, trezentos estudantes reunidos aqui decidiram paralisar a universidade e ir em massa ao funeral.13

    Até à paragem 7de metro, comboio ou autocarroCaminho

  7. Paragem 7: Conhecer a África

    Rua Actor Vale, 37, 1900-078 Lisboa

    Em 1951, um grupo de estudantes africanos encontrou sede nesta casa — «uma casa enorme, na rua Actor Vale, 37, ao cimo da Alameda», onde vivia a são-tomense Alda do Espírito Santo. Aqui funcionou o Centro de Estudos Africanos, dirigido, entre outros, por Mário de Andrade, Amílcar Cabral e Francisco Tenreiro. O objetivo, nas palavras do médico António Tomás Medeiros, era «conhecer a África».14

    O centro desfez-se quando os mais velhos partiram: para Paris, para a Alemanha, para a prisão. Alda do Espírito Santo voltou a São Tomé; Noémia de Sousa, a poeta moçambicana, «desaparece», diz Medeiros.14

    Até à paragem 8de metro, comboio ou autocarroCaminho

  8. Paragem 8: 12 de outubro de 1972 — o tiro no anfiteatro

    Rua do Quelhas, 6, 1200-781 Lisboa

    Edifício clássico amarelo e branco de dois pisos, com janelas altas e um frontão, ao fundo de um pátio com palmeiras, ao fim da tarde.
    O edifício do Quelhas, onde funcionava o ISCEF e hoje funciona o ISEG, em 2019. GualdimG, CC BY-SA 4.0

    Num anfiteatro pré-fabricado do ISCEF, os estudantes faziam um «meeting contra a repressão». Detetaram um desconhecido que tomaram por informador da DGS; a escola chamou a polícia política, que mandou dois agentes. Gerou-se confronto, e o agente António Gomes da Rocha disparou. Morreu José António Ribeiro Santos, de 26 anos, estudante de Direito; José Lamego ficou ferido.215

    Na sala estava Aurora Rodrigues, que entrou depois para o MRPP e seria presa e torturada em 1973.16 O agente nunca foi julgado.2

    Aurora Rodrigues, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 12 de outubro de 2016. As palavras-chave do museu incluem o movimento estudantil, o assassinato de Ribeiro Santos, o MRPP, a prisão, os interrogatórios e a tortura em Caxias.

    Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial do Museu do Aljube

    Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».

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  9. Paragem 9: O funeral

    Calçada Ribeiro Santos, 1200-869 Lisboa (junto ao Largo de Santos)

    Prédios de quatro andares com as fachadas cobertas de azulejos de padrão claro, numa rua inclinada, sob céu azul.
    Os prédios de azulejo dos n.os 1, 3 e 5 da Calçada Ribeiro Santos, em 2019. GualdimG, CC BY-SA 4.0

    Ribeiro Santos vivia nesta calçada, e a sua casa servia muitas vezes de lugar de reunião. A 14 de outubro de 1972, o funeral partiu daqui para o Cemitério da Ajuda: cerca de cinco mil pessoas, o caixão aos ombros dos estudantes, cargas da polícia de choque, cerca de vinte presos.17

    O primeiro edital de toponímia depois do 25 de Abril, a 30 de dezembro de 1974, deu à rua o seu nome, com a legenda «Militante Antifascista». Desde 2012, uma placa na casa lembra-o.17

Notas sobre as fontes2
  • O ponto exato do anfiteatro pré-fabricado no atual campus do ISEG, e se há placa.
  • A data em que o Centro de Estudos Africanos se instalou na Rua Actor Vale: 1951 (António Tomás Medeiros) ou 1954 (Wikipédia).

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Fontes

  1. 1A participação das estudantes na crise. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Assassinato de Ribeiro Santos. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Dia Nacional do Estudante. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4O Dia do Estudante. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5A Crise Académica de 1962: Contestação vs Repressão. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Marcelo José das Neves Alves Caetano – Antigo Reitor. Universidade de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7A Crise Académica de 1962: A Greve de Fome. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Casa dos Estudantes do Império. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Casa dos Estudantes do Império: berço de líderes africanos em Lisboa (João Carlos, DW África). Buala — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10Discurso proferido pelo Sr. General Humberto Delgado [...] no Ginásio do Liceu de Camões (cota 04959.043.029). Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11Delgado: Um vendaval varreu o País (João Paulo Guerra). esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 12Encerramento do Instituto Superior Técnico (IST). Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 13O assassinato de José Ribeiro Santos. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  14. 14Entrevista a António Tomás Medeiros (Colecção E-Books). Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
  15. 15José António Leitão Ribeiro Santos. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  16. 16Aurora Rodrigues (testemunho e biografia). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  17. 17A Calçada Ribeiro Santos no Dia do Estudante. Toponímia de Lisboa – CML (24/3/2014) — consultado a 2 de outubro de 2026

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